Mostrando postagens com marcador Imprensa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Imprensa. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 21 de julho de 2010

A Tara da Discriminação (de novo)


Os jornais e o noticiário de TV de ontem deram os resultados globais do recenseamento eleitoral. Na sequência do comunicado do TSE, os comentários destacaram dois fatos : o aumento número total de eleitores (que agora chega a 136 milhões) e a diminuição do percentual dos eleitores entre 16 e 18 anos. Como se sabe, o voto nesta faixa de idade é facultativo. A explicação da queda dos inscrictos fornecida pelo TSE à Folha é genérica : « O tribunal realiza campanhas de incentivo ao voto para essa faixa etária desde 2006 e não sabe explicar o motivo da queda. Técnicos do TSE afirmam, porém, que não é possível dizer que o único motivo é o menor interesse pela política. Segundo o assessor da corregedoria-geral do TSE Sérgio Cardoso, essa faixa etária é mais a volátil, já que é totalmente renovada a cada pleito -quem vota por opção em uma eleição, já votará obrigatoriamente na próxima".O Globo chegou até a fazer uma enquete sobre este tema no seu sítio.
Mas há uma outra categoria de eleitores, bem mais importante numéricamente, cujo voto também é facultativo : os analfabetos. Sobre a evolução desses eleitores, nada, nem uma linha, nem no TSE, nem nos jornais. Não passa pela cabeça de nenhum editor ou reporter a idéia de indagar o TSE sobre o assunto. Ora, os analfabetos adultos não puderam beneficiar do ensino escolar que o Estado tem obrigação constitucional de oferecer, mas pagam impostos (ao menos indiretos) e continuam privados de plena cidadania. Os indicadores mostram que este contingente contém uma maior proporção de mulheres, de nordestinos e de negros do que a média da população brasileira.
Como escrevi no parecer sobre as cotas para negros nas universidades, a proibição de voto dos analfabetos, instaurada em 1882 e vigente até 1985, configura um caso típico de medida discriminatória contra os negros que acabou atingindo a generalidade dos pobres brasileiros.
Não tenho dados sobre a situação atual, nem sei se estão disponíveis porque pouca gente se preocupa com isso. Mas as estatísticas de 2008 mostravam que, de um total de 14.000.000 des analfabetos acima de 16 anos, só 8.000.000 (57%°) haviam se inscrito nas listas eleitorais. Dúvido que o quadro tenha mudado substancialmente em 2010.
Desde 1985, quando a legislação autorizou o voto facultativo do analfabeto, nunca vi nem nunca soube de “campanhas de incentivo » organizadas pelo TSE para este segmento da população.
Fica registrado o protesto que eu já havia feito alhures e
aqui neste blog em 2007.

sábado, 26 de junho de 2010

Viva o Celso Furtado !

Foto Transpetro, divulgação
Foi lançado ao mar na quinta-feira, dia 24, o Celso Furtado, navio petroleiro de 183 metros e com capacidade para 48.300 toneladas de porte bruto. Embora tenha sido o primeiro dos 16 navios construídos no Rio de Janeiro (outros 30 navios sairão de outros estaleiros brasileiros) no Programa de Modernização e Expansão da Frota (Promef), da Transpetro, que criará, só no estado do Rio de Janeiro, 10.000 empregos diretos e 40.000 indiretos, o noticiário na imprensa foi pífio.

Em « O Globo », uma notícia curta dá destaque a outro tema: o relançamento da indústria naval brasileira pode levar a um aumento das importações de aço (pimba, acharam uma coisa errada na empreitada). O Dia fez uma boa reportagem e Zero Hora publicou uma matéria pequena mas bem feita. Exame deu uma notícia mais formal. Na Folha, nada. Nadinha. Nem no Folhaonline. Vazio que retrata pobreza jornalística e intelectual.
Lula não participou do evento porque teve que se deslocar para as zonas sinistradas do Nordeste, como explicou uma notícia do
Estadão que falava de outro outro assunto. A mais alta autoridade federal presente foi o apagado ministro da Secretaria Especial de Portos, Pedro Brito. Talvez tenha sido esta a razão pela qual o governador Sérgio Cabral, o prefeito do Rio e o prefeito de Nitérói também não deram o ar de sua graça.
Na Europa e nos Estados Unidos, um pequeno empresário inaugura um galinheiro que gera 13 empregos numa cidade qualquer e lá aparecem as TVs, o presidente ou o primeiro-ministro, ministros, cardeais, rabinos, imãs, starlettes e cantores de ópera contratados para benzer as galinhas e celebrar a espantosa ofensiva levada a cabo contra o desemprego. No Rio de Janeiro, serão criados 50.000 empregos e o governador do Estado, e os prefeitos nem se dão conta, nem aparecem. Caramba! Estão se achando!: pensam que são grandes estadistas, que seus governos são do balacobaco! Efeito perverso do carisma presidencial: se Lula não vai, ninguém vem. Mas o governador Sérgio Cabral faz campanha para sua reeleição: sua ausência é burra e escandalosa.De lá de onde está, Celso Furtado nem deve ter se importado com ausência destas figurinhas. E deve ter ficado feliz com a presença e a alegria dos 5 mil operários, dos sindicalistas e dos metalúrgicos que estiveram envolvidos na construção do navio.
Porém, tinha que ter vindo mais gente. Gente do governo federal, das Universidades, do PT, do PMDB, que tanto deve à vida e à obra de Celso Furtado. Gente dos sindicatos. Se Stédile estivesse lá teria marcado presença. Deixaria claro que honra a memória do ilustre brasileiro, defensor constante, convicto e convincente do MST no Brasil e no exterior, e assinalaria que a defesa dos trabalhadores industriais é irmã da reforma agrária e da defesa dos trabalhadores rurais.
Mas quem marcou bobeira mesmo não dando as caras foram os dois candidatos que angariam votos em qualquer baile municipal: Dilma Roussef e José Serra. Dilma, que estudou no Instituto de Economia da Unicamp, do qual Celso Furtado foi patrono, grande guia intelectual e doutor honoris causa, explicita sua filiação ao pensamento furtadiano na campanha presidencial, mas deixou de comparecer ao evento que marca o renascimento da indústria naval brasileira pelas mãos de uma grande empresa pública, a Petrobrás. Serra, que foi professor do IE da Unicamp, que era amigo pessoal do fundador da Sudene, e disse um dia, saindo da casa de Furtado em Paris, que resolvera se tornar economista depois de ler «
Formação Econômica do Brasil », também não veio. Além do respeito ao seu mestre, poderia ter mostrado que apóia a intervenção estatal para dinamizar setores chaves da economia. Sutilmente, sua simples presença mostraria que o candidato tucano se afasta mesmo da política econômica do governo do qual ele fez parte como ministro do Planejamento e da Saúde. Governo que desmantelou a indústria naval agora resgatada, sustentada, corrigida e libertada com
o Celso Furtado singrando os verdes mares de Norte a Sul.

P.S.- Para os cariocas que não sabem do amor de Celso Furtado pelo Rio de Janeiro, onde morava quando estava no Brasil, deixo no post abaixo, citação extraída do prefácio que redigi para a edição comemorativa dos 50 anos de Formação Econômica do Brasil. Veja aqui o navio entrando no mar.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Manifesto pelas cotas para negros nas universidades




Seguem os nomes do professores que assinaram o manifesto sobre as cotas para negros nas universidades, enviado à Fundação Palmares para ser encaminhado ao STF, como está explicado no post «Cotas e Democracia».
O manifesto tem este enunciado: « Os abaixo listados professores doutores, na sua maioria especialistas em história da escravidão e da pós-abolição no Brasil, filiados a diversas instituições de ensino e pesquisa, subscrevem o « Parecer sobre a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental, ADPF/186, apresentada ao Supremo Tribunal Federal » (ver texto
abaixo). Vem em seguida os nomes dos 105 signatários

1. Profa. Dra. Martha Abreu (Universidade Federal Fluminense - UFF).
2. Prof. Dr. João José Reis (Universidade Federal da Bahia - UFBA).
3. Profa. Dra. Lilian Moritz Schwarcz (Universidade de São Paulo - USP).
4. Profa. Dra. Maria Helena Pereira Toledo Machado (Universidade de São Paulo - USP).
5. Profa. Dra. Albene Menezes (Universidade de Brasília - UNB).
6. Profa. Dra. Beatriz Gallotti Mamigonian (Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC).
7. Prof. Dr. Euripedes Funes (Universidade Federal do Ceará - UFC).
8. Prof. Dr. Geraldo Moreira Prado (Inst. Br de Informação em Ciência e Tecnologia - IBICT).
9. Prof. Dr. Flávio dos Santos Gomes (Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ).
10. Profa. Dra. Hebe Mattos (Universidade Federal Fluminense - UFF).
11. Profa. Dra. Isabel Cristina Reis (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia - UFRB).
12. Dra. Ivana Stolze Lima (Fundação Casa de Rui Barbosa - FCRB).
13. Profa. Dra. Adriana Dantas Reis (Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS).
14. Profa. Dra. Manuela Carneiro da Cunha (Universidade de Chicago).
15. Profa. Dra. Maria Cristina Cortez Wissenbach (Universidade de São Paulo).
16. Prof. Dr. Paulo Roberto Staudt Moreira (Un. do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS, RS).
17. Prof. Dr. Ricardo Salles (Universidade Estadual do Rio de Janeiro - UERJ).
18. Profa. Dra. Silvia Hunold Lara (Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP).
19. Prof. Dr. Valdemir Zamparoni (Universidade Federal da Bahia - UFBA).
20. Profa. Dra. Wlamyra R. de Albuquerque (Universidade Federal da Bahia - UFBA).
21. Profa. Dra. Diva do Couto Gontijo Muniz (Universidade de Brasília - UNB).
22. Profa. Dra. Maria Hilda Baqueiro Paraíso (Universidade Federal da Bahia - UFBA).
23. Prof. Dr. Francisco Teixeira Portugal (Universidade Federal do Rio e Janeiro - UFRJ).
24. Profa. Dra. Isabel Cristina Martins Guillen (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE).
25 Profa. Dra. Verena Alberti (Fundação Getúlio Vargas - FGV).
26. Profa. Dra. Íris Kantor (Universidade de São Paulo - USP).
27. Dr. Milton Ohata (Editor).
28. Profa. Dra. Luciana Heymann (Fundação Getúlio Vargas - FGV).
29. Profa. Dra. Maria Fernanda Bicalho (Universidade Federal Fluminense - UFF).
30. Prof. Dr. Roquinaldo A. Ferreira (Universidade de Virginia, EUA).
31. Prof. Dr. Paulo Henrique Martinez (Universidade Estadual Paulista – UNESP/Assis).
32. Prof. Dr. Rafael de Bivar Marquese (Universidade de São Paulo - USP).
33. Prof. Dr. Marcelo de Souza Magalhães (Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ).
34. Prof. Dr. Sidney Chalhoub (Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP).
35. Prof. Dr. Luciano Figueiredo (Universidade Federal Fluminense – UFF).
36. Profa. Dra. Keila Grinberg (Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ).
37. Profa. Dra. Andréa Lisly Gonçalves (Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP).
38. Prof. Luciano da Silva Moreira (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de MG).
39. Prof. Dr. Paulo Fernando de Moraes Farias (Universidade de Birmingham, Inglaterra).
40. Prof. Dr. Robert W. Slenes (Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP).
41. Profa. Dra. Marina de Mello e Souza (Universidade de São Paulo – USP).
42. Profa. Dra. Maria de Fátima Novaes Pires (Universidade Federal da Bahia – UFBA).
43. Prof. Dr. Ricardo Tadeu Caires Silva (Faculdade Est. Edu., Ciências e Letras, Paranavaí, PR)
44. Profa. Dra. Maria Leonia Chaves de Resende (Un. Federal de São João Del-Rei – UFSJ).
45. Prof. Dr. Leonardo Affonso de Miranda Pereira (Pontifícia Universidade Católica - PUC/Rio).
46. Profa. Dra. Vânia Maria Losada Moreira (Universidade Federal Rural do RJ –UFRRJ).
47. Prof. Dr. Carlos Leonardo Kelmer Mathias (Universidade Federal do RJ – UFRJ; Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ).
48. Profa. Dra. Rachel Soihet (Universidade Federal Fluminense – UFF).
49. Profa. Dra. Lígia Bellini (Universidade Federal da Bahia – UFBA).
50. Prof. Dr. Jocélio Teles dos Santos (Universidade Federal da Bahia – UFBA).
51. Profa. Dra. Maria Cristina Dantas Pina (UESB, Vitória da Conquista).
52. Prof. Dr. Roberto Abdala Junior (Unileste - MG).
53. Prof. Dr. Antonio Luigi Negro (Universidade Federal da Bahia - UFBA).
54. Prof. Dr. Antonio Torres Montenegro (Universidade Federal de Pernambuco – UFPE).
55. Prof. Dr. Alexandre Fortes (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ).
56. Prof. Dr. Maximiliano M. Menz (Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP).
57. Prof. Dr. George Evergton Sales Souza (Universidade Federal da Bahia – UFBA).
58. Profa. Dra. Ana Lucia Araújo (Universidade de Howard, EUA).
59. Profa. Dra. Isnara Pereira Ivo (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia).
60. Profa. Dra. Maria Lucia Rodrigues Muller (Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ).
61. Profa. Dra. Lucilene Reginaldo (Universidade Estadual de Feira de Santana – UEFS).
62. Profa. Dra. Maria Regina Celestino de Almeida (Universidade Federal Fluminense – UFF).
63. Profa. Dra. Júnia Furtado (Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG).
64. Profa. Dra. Maria Lúcia Rodrigues Muller (Universidade Federal do Mato Grosso – UFMT).
65. Profª Dra. Mariluce Bittar (Universidade Católica Dom Bosco – UCDB, MS).
66. Profa. Dra. Selma Pantoja (Universidade de Brasília – UNB).
67. Prof. Dr. Fábio Franzini (Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP).
68. Profa. Dra. Joana Maria Pedro (Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS).
69. Profa. Dra. Raquel Glezer (Universidade de São Paulo – USP).
70. Profa. Dra. Patricia Melo Sampaio (Universidade Federal do Amazonas – UFAM).
71. Prof. Dr. Aldrin Castelucci (Universidade Estadual da Bahia – UNEB, Alagoinhas).
72. Prof. Dr. Luis Nicolau Parés (Universidade Federal da Bahia – UFBA).
73. Prof. Dr. Renato da Silveira (Universidade Federal da Bahia – UFBA).
74. Prof. Dr. Ubiratan Castro de Araújo (Universidade Federal da Bahia – UFBA).
75. Profa. Dra. Maria Antonieta Antonacci (Pontifícia Universidade Católica – PUC, SP).
76. Profa. Dra. Elciene Azevedo (Universidade Federal da Bahia – UFBA).
77. Profa. Dra. Ely Estrela (Universidade do Estado da Bahia – UNEB/ Santo Antônio de Jesus).
78. Prof. Dr. Enio José da Costa Brito (Pontifícia Universidade Católica -PUC/SP).
79. Profa. Dra. Patricia Santos Schermann (Universidade Federal de São Paulo – USP).
80. Prof. Dr. Agenor Sarraf (Universidade da Amazônia – UNAMA, PA).
81. Profa. Dra. Ana Lúcia Lana Nemi (Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP).
82. Profa. Dra. Leila Leite Hernandez (Universidade de São Paulo – USP).
83. Profa. Dra. América Lúcia César (Universidade Federal da Bahia – UFBA).
84. Prof. Dr. Pedro Puntoni (Universidade de São Paulo – USP).
85. Prof. Dr. Antonio Sérgio Guimarães (Universidade de São Paulo – USP).
86. Prof. Dr. Walter da Silva Fraga Filho (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB).
87. Prof. Dr. Paulo Cesar Miguez de Oliveira (Universidade Federal da Bahia – UFBA).
88. Profa. Dra. Florentina Souza (Universidade Federal da Bahia – UFBA).
89. Prof. Dr. Fábio Duarte Joly (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB).
90. Prof. Dr. Antonio Liberac Cardoso Simões Pires (Un. Federal do Recôncavo da BA – UFRB).
91. Profa. Dra. Paula Cristina da Silva Barreto (Universidade Federal da Bahia – UFBA).
92. Profa. Dra. Ligia F. Ferreira (Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP).
93. Profa. Dra. Lucila Siqueira (Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP).
94. Prof. Dr. Luis Flávio Reis Godinho (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB).
95. Profa. Dra. Maria Rosário de Carvalho (Universidade Federal da Bahia – UFBA).
96. Prof. Dr. Eduardo Paes Machado (Universidade Federal da Bahia – UFBA).
97. Prof. Dr. Flávio Gonçalves dos Santos (Universidade Estadual de Santa Cruz – UFSC).
98. Profa. Dra. Carmen Alveal (Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN).
99. Profa. Dra. Angela Lühning (Universidade Federal da Bahia – UFBA).
100. Prof. Dr. Daniel Aarão Reis Filho (Universidade Federal Fluminense – UFF).
101. Prof. Dr. Paulo Carrano (Universidade Federal Fluminense – UFF).
102. Prof. Dr. Helder Garmes (Universidade de São Paulo – USP).
103. Profa. Dra. Gizlene Neder (Universidade Federal Fluminense – UFF).
104. Prof. Dr. Silvio Humberto dos Passos Cunha (Un. Estadual de Feira de Santana – UEFS).
105. Profa. Dra. Denise Barata (Faculdade de Formação de Professores,São Gonçalo, UERJ).

domingo, 6 de dezembro de 2009

Política Externa Independente, a Revanche


Gravura de William Blake representando a Europa apoiada na América e na África (1796)

Tem havido debate no Brasil a respeito de eventuais desencontros entre a política externa estadunidense e a diplomacia brasileira. Já tinha falado sobre isso com Maria Cristina Fernandes, em O Valor do dia 27/11 (aqui para assinantes ). Nesta semana dei uma curta entrevista para Daniela Leiras, da Radio France Internationale sobre o mesmo assunto (o áudio saiu meio esquisito : eu estava em casa fazendo um lanche enquanto falava no telefone!).
« A aproximação do Brasil com o Irã tem sido alvo de críticas na imprensa americana. Para alguns analistas, o governo brasileiro exagera no excesso de pragmatismo na sua relação com governos autoritários. De acordo com uma reportagem publicada no Wall Street Journal na quarta-feira, o presidente americano Barack Obama estaria decepcionado com Lula. “O Brasil está cada vez mais próximo de nações populistas, que formam uma facção antiamericana na região, como Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua”, diz o texto. Segundo o historiador Luiz Felipe de Alencastro, professor de história do Brasil na Universidade Sorbonne, na França, "não há nenhum país no mundo que desenvolva sua política externa baseada somente em relações comerciais. Sempre há uma discussão mais global sobre as relações bilaterais." Sobre a reportagem do Wall Street Journal, Alencastro lembra que a imprensa americana tem posições diferentes e pondera. Segundo ele, o jornal [revista britânica lfa]
The Economist, conservador, considera que a visita de Ahmadinejad ao Brasil, abre “uma nova porta de acesso entre o Irã e os Estados Unidos." A questão dos direitos humanos, argumento utilizado pelos EUA para criticar a diplomacia brasileira, também é um ponto contraditório, diz Alencastro. "Os EUA botam tapete vermelho e cavalaria, e batem continência para receber o presidente chinês Hu Jintao, que é presidente de uma grande ditadura, que fuzilou muçulmanos que protestaram contra a repressão."

Lembrei também que a atual diplomacia brasileira não é tão exótica assim. Ela filia-se à « Política Externa Independente », de Afonso Arinos (que era da UDN e depois foi senador pelo PSDB !) e de San Tiago Dantas, a qual tomou distância da diplomacia americana e criticou o colonialismo português na África, nos governos Jânio Quadros e João Goulart. Celso Amorim e Samuel Guimarães eram estudantes no Instituto Rio Branco nesta época e foram certamente influenciados pelo pensamento de San Tiago Dantas.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Itamar e o passado que não passa



Há uns dias, o ex-presidente Itamar Franco deu uma entrevista à revista Época. O tema de suas declarações é a acusação de que Lula enfraquece o Legislativo. A idéia tem fundamento e Itamar poderia justificá-la de várias maneiras. Porém, ele envereda num raciocínio tortuoso que ilustra a deferência com a qual boa parte da elite política trata a ditadura.
Cito sua explicação sobre a atitude de Lula frente ao Legislativo.
“Primeiro, o presidente foi um parlamentar obscuro. Como parlamentar, ele qualificou que lá havia 300 e tantos picaretas. Esquecendo que ele também estava lá...Como a pessoa [Lula] não conhece a história democrática do país... Ele não tem a mínima consideração pelo Legislativo. Quando o presidente tenta impedir uma CPI, como foi a CPI da Petrobras, é outra interferência indevida. No regime militar, em 1975, havia uma questão tão importante para o presidente Geisel quanto a Petrobras hoje: era o acordo nuclear (do Brasil com a Alemanha Ocidental). Numa proposta do então senador Paulo Brossard, criou-se uma CPI para examinar o acordo. E a CPI não foi impedida, apesar de ser um regime militar. E era igualzinho hoje: nós éramos 3 senadores da oposição e 8 do governo. E mais ainda: se permitiu que um senador da oposição, coincidentemente eu, presidisse a CPI. Aqui, não. Com um erro que nem os militares fizeram: o presidente e o relator (da CPI da Petrobras) são do governo.”
Hoje, Itamar retomou seus argumentos numa entrevista do
Estadão, que teve repercussão na Folhaonline
Como muita gente, e talvez mesmo, a maioria dos brasileiros, Itamar chama o período mais sinistro e autoritário de nossa história nacional de “regime militar”. Por isso, ele pode partir para este tipo de comparações extravagantes.
Assim, a idéia que a ditadura – responsável pela cassação, encarceramento e exílio de parlamentares, pela tortura e assassinato de ex-parlamentares, pelo fechamento do Congresso e a proibição dos partidos políticos – seria liberal, é propagada por um velho senador da República. Por um ex-presidente que gaba-se de conhecer a “história democrática do país”. É o passado que não passa. Itamar pensa que a ditadura faz parte de uma normalidade institucional alternando períodos democráticos e períodos de pura boçalidade. Itamar pensa que no Brasil a democracia é contingente.
P.S.Para complementar este tópico, leia-se o perfil do senador Marco Maciel publicado na Carta Capital do dia 28/08. A jornalista Cynara Menezes, autora do artigo, menciona que o “monge do Parlamento” (sic) pertenceu à Arena. Mas não diz que ele foi um fiel serviçal da ditadura. Assim, o “monge” presidia a Câmara dos Deputados quando o ditador Geisel decretou o “Pacote de Abril” (13/04/1977), fechando o Congresso e instaurando truculências (como os senadores biônicos) que prolongaram o regime autoritário no Brasil. A jornalista pensa que a maior qualidade moral do senador pernambucano reside na modéstia de seu patrimônio, após 50 anos de vida pública. Para ela, desde que não se roube, está tudo bem.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

O intérprete geral das caretas turcas


Hoje, ficou o dia inteiro no sítio do Estadão, a notícia da alegada “gafe” de Lula na Turquia. Segundo Jamil Chade, correspondente permanente do jornal em Genebra, Lula teria perpetrado o grave deslize diplomático ao afirmar "No Brasil, tem uma coisa interessante que vocês precisam conhecer",... "Apareceu alguém vendendo algo na porta de um brasileiro, ele sabe que é um turco que está vendendo"... "Qualquer vendedor que for vender um produto na casa das pessoas, prontamente ele é chamado de turco. Eu não sei se é o turco nascido em Istambul ou no tempo do Império Otomano, nascido na Arábia Saudita ou no Líbano" "É preciso fazer jus a essa especialidade de comercializar do povo turco para que possamos estreitar as relações comerciais entre o Brasil e a Turquia".
Jamil Chade explica então doutamente: « Os turcos não são árabes e nem falam a mesma língua. A presença de turcos na imigração no Brasil é quase insignificante e as populações vindas do Líbano e Síria apenas ganharam esse nome diante do fato de chegarem com passaportes do Império Otomano”.
Ora bolas: Lula não disse que os turcos são árabes. Disse que quem vinha da Turquia, da Árabia Saudita ou do Líbano no tempo do Império Otomano, era chamado de turco no Brasil (e terminou num tom simpático aos turcos). Não há aqui ofensa ou disparate. O "apenas" de J. Chade està carregado de historia e constitui a essência do problema. Algo similar acontecia com quem saia do império austro-húngaro ou da URSS : as nacionalidades integradas nestes Estados não tinham identidade própria na esfera internacional. Jamil Chade diz ainda que Lula “tentou explicar” o uso da palavra “turco” no Brasil, “sem qualquer reação da plateia” e em seguida acrescenta “a platéia não riu”. Para dar alguma consistência à sua crítica, Jamil Chade diz ainda, “Lula ainda fez alguns empresários levantarem a sombrancelha ao anunciar que o Brasil tinha "17 milhões de quilômetros de fronteira terrestre". Lula se enganou nos números sobre a fronteira terrestre brasileira. E dai? Dava para fazer disso uma notícia com chamada no sítio do jornal ? Hà bastante coisa para ser dita contra o que Lula ou o Itamaraty fazem ou deixam de fazer. Mas nem sempre Jamil Chade acerta. Durante uma época, ele escrevia a respeito da « preocupação » existente em Genebra a próposito de uma alegada « venezuelização » da diplomacia brasileira. Moro em Paris há trinta anos, viajo e leio os jornais daqui e dali, e converso às vezes com gente que sabe das coisas diplomáticas e afins, interesso-me e escrevo sobre o assunto. Nunca ouví alguém expressar opiniões deste calibre sobre a diplomacia brasileira. Em todo caso, Jamil Chade, em respeito a seus leitores, deveria evitar escrever artigos baseados nos seus talentos de intérprete geral de caretas e sombrancelhas dos empresários turcos.

domingo, 15 de março de 2009

Anexo ao texto publicado na Folha de hoje

Foto Pete Souza, White House

Concluí o texto abaixo para a Folha quinta à noite. Hoje, diante da profusão de artigos e comentários de blogs sobre o encontro Lula-Obama e a conferência de imprensa dos dois na Casa Branca, vale a pena anexar alguns pontos.

Quando dois chefes de Estado conversam há uma parte do papo que é reservada, com os intérpretes mas sem assessores (houve meia hora de conversa assim). Em seguida, as delegações combinam o que vão dizer para a imprensa. O assunto da normalização das relações com Cuba, que Celso Amorim na entrevista no Estadão julgava “inevitável” na pauta da Casa Branca, não foi comentado na coletiva. Mas não quer dizer que não tenha sido discutido. No encontro havia James Steinberg, subsecretário de Estado, o general James Jones, do Conselho de Segurança Nacional (NSC), Thomas Donilon, vice no NSC, Dan Restrepo, assessor para o Hemisfério Ocidental do NSC e Larry Summers. Ou seja, o vice de Hillary (Steinberg), o principal assessor econômico (Summers) e três membros do NSC, gente paga para seguir perto países complicados como Cuba, Venezuela e Bolívia. De todo modo, Cuba é um tema sensível na política externa e interna americana: ninguém imaginava que Obama fosse evocar o assunto numa entrevista coletiva com um chefe de Estado estrangeiro.

Outro ponto: antes de chegar à Casa Branca, Lula se reuniu com um velho amigo, John Sweeney, sindicalista que preside o AFL-CIO, a mais poderosa organização sindical americana, com 10 milhões de afiliados, cujo apoio é fundamental para o Partido Democrata e para Obama, sobretudo numa crise dessas (só topei com esta notícia depois de ter enviado meu texto). Lula é o único chefe de Estado que goza de uma rede própria de contatos e amizades nos sindicatos do mundo inteiro (fez sua primeira viagem ao exterior, ao Japão, em 1973, como dirigente metalúrgico). Isso conta muito no trânsito de Lula nos países da Europa Ocidental e no Japão. Não contava nada nos EUA no tempo de Bush. Mas conta bastante no governo Obama. A imprensa brasileira não deu a menor pelota para o encontro de Lula com presidente do AFL-CIO, nem entrevistou Sweeney, cuja importância cresceu no governo de Obama, que o recebe frequentemente na Casa Branca, como sublinhou o New York Times. Não tenho a menor dúvida de que a conversa de Lula com Sweeney amaciou a conversa de Obama com Lula

Enfim, uma ponto interessante sobre a imigração brasileira nos EUA. Fragmingham, cidadezinha do Massachussets, ressuscitada econômicamente por imigrantes brasileiros que hoje são uma minoria-maioria, recebeu os primeiros policiais americano-brasileiros formados na Boston Police Academy. É uma nova etapa da evolução das duas últimas décadas que transformou o Brasil num país de emigração. Yes, we have latinos!

P.S. – O encontro com Lula ganhou mais repercussão porque a coletiva incluiu uma resposta de Obama a uma pergunta crucial do primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, sobre a garantia ao trilhão de dólares que a China investiu na economia americana.

sexta-feira, 6 de março de 2009

O MISTÉRIO MADOFF


Na Vanity Fair deste mês, um grande artigo (depois de baixado deu 21 páginas na minha impressora) de Mark Seal sobre Madoff. Tenho lido tudo o que vejo sobre o “Bernie”, interessantíssima história de picaretagem globalizada. Mas o artigo de Seal me deixou frustrado. Primeiro, ele não fala dos possíveis cúmplices. Ora, como disseram muitos entendidos, é difícil aceitar que Madoff tenha sido o único autor desta vigarice. Como acreditar que grandes bancos, banqueiros suíços (os mais malandros do mundo), associações caritativas de grandes financistas, e tantos investidores experimentados, pentelhos com suas contas, com seu tempo livre de aposentados para escarafunchar o quadro das bolsas e dos dividendos, e até investigadores da SEC (por mais incompetentes que fossem), tenham caído numa esparrela armada por um só indivíduo, que durou décadas e, no fundo, parecia uma banal corrente, uma pirâmide, dessas que surgem em Lavrinhas e Itumbiara? Em segundo lugar, Seal embarca na vertente psicologizante, mostrando Madoff como um cara dissimulado, malandro, fdp que explorou a boa fé de viúvas desinformadas e a cupidez de ricos que queriam ficar riquíssimos. O New York Times já tinha ido por aí, num artigo que acabava comparando Madoff a um “serial killer”. Menos, menos... De fato, tais interpretações ignoram que Madoff não ficou apenas engabelando palermas e cobiçosos. No coração de Wall Street, ele foi presidente fundador da NASDAQ (Seal nem fala disso) e pioneiro da introdução da informática nos negócios, tendo sido um dos primeiros a perceber nos anos 90 que se poderia, graças a internet, operar 24 horas por dia nas bolsas do planeta. Ou seja, Madoff é um cara competente, cuja atividade trouxe a Wall Street benefícios concretos e não apenas rendimentos virtuais. O fato de ele ser também um grande vigarista torna mais misterioso seu papel na NASDAQ e sua contribuição ao funcionamento do capitalismo financeiro. Qual a estratégia de longo prazo de Madoff sobre a evolução coordenada de Wall Street e dos seus negócios, que ele tão bem conduziu de 1990 a 2008? Talvez ele tenha partido do princípio de que tudo ia dar certo porque a trapaça e a pilhagem são parte integrante do capitalismo financeiro, da mesma forma que consubstanciaram o capitalismo mercantil no passado. Lembro o epigrama de Goethe em Wilhelm Meister: “Krieg, Handel und Piraterie/ Dreieinig sind sie; nicht su trennen” (“A guerra, o comércio e a pirataria formam uma indivisível trindade”), citado por Sombart em Der Bourgeois (aqui em trad. francesa), quando fustigava as companhias comerciais holandesas que saquearam o planeta, e inclusive o Nordeste, no século XVII.
Em todo caso, jornalistas e especialistas americanos estão nos devendo uma explicação mais coerente e mais ampla do caso Madoff, o retrato de uma época.
P.S. - Confirmando a pregnância da fraude no capitalismo financeiro, o Financial Times do dia 20/03, alerta que muitas outras picaretagens do tipo do Madoff estão sendo descobertas nos EUA e que “centenas” delas poderão ainda vir à tona.
Alguns blogs especializados no caso Madoff:
I'm Bernard Madoff--I'm Telling All. Right Here. Trust Me. - http://bernard-madoff-scam.blogspot.com/
naked capitalism: SEC Skipped Normal Inspection of Madoff Hedge Fund - http://www.nakedcapitalism.com/2008/12/sec-skipped-normal-inspection-of-madoff.html
Madoff Help News & Assistance - http://www.madoff-help.com/
BERNIE MADOFF HOT SAUCE/ INFO. CENTRAL!! - http://texasketchup.blogspot.com/
Bernard Madoff Fraud - http://bernard-madoff-fraud.blogspot.com/

terça-feira, 22 de abril de 2008

Onde fica Israel?

Lula viaja mundo afora, visita países, conversa com chefes de Estado. E Lula tem razão. O Brasil tem tamanho, é um país pacífico, com potencial geopolítico e uma população vinda do mundo inteiro. Deve estar presente nos lugares em que se decidem as grandes questões. Assisti em Paris, em abril de 1976, a passagem do presidente-ditador Geisel, sob protestos que mobilizaram não só a esquerda e os republicanos de todas as tendências, como também os bispos franceses. Apoiei essas reações e também fui para a rua vaiar o ditador. Fico agora contente de ter visto presidentes como FHC e Lula serem bem recebidos e respeitados em toda parte. Nas Américas, na Ásia, na África, no Oriente Médio.
Mas Lula deve ir também a Israel. Trata-se da algo fundamental para consolidar a respeitabilidade da diplomacia brasileira e confirmar a pluralidade de nossa cultura.
Quando aconteceu em Brasília, em maio de 2005, o encontro entre os países árabes e os países sul-americanos, iniciativa judiciosa e importante, mas criticada pela maioria dos jornalistas brasileiros -, com a honrosa exceção de Jânio de Freitas e Eliane Catanhêde -, o ministro Celso Amorim afirmou que estava planejada uma visita de Lula a Israel. Passados três anos, o chanceler
esteve em Tel Aviv, em fevereiro deste ano, com o primeiro-ministro Ehud Olmert. Disse, segundo a BBC, “que existe a possibilidade de uma visita do presidente Lula a Israel”.
Quer dizer então que existe igualmente a possibilidade de Lula completar dois mandatos, dar várias vezes a volta ao planeta em viagens oficiais, e não parar nunca em Israel?

sábado, 19 de abril de 2008

Déjà vu


Outro dia foi anunciada uma grande 'descoberta' feita por pesquisadores do Center for Economic Policy Research (CEPR), de Londres: veiculando um padrão de família com poucos filhos, as novelas da Globo tiveram impacto na forte queda da taxa de fecundidade constatada no Brasil nas últimas décadas. Anunciada pela BBC, a notícia repercutiu pelo mundo afora, no Globo, na Folhaonline, no SkyNews, no New York Daily News e nas agências de notícias.

Embora ainda fosse madrugada por aqui, a leitura da « novidade » me deixou embatucado. Explico: desde o final dos anos 1980 e nos anos 1990 participei de seminários e debates no Cebrap em que Vilmar Faria -, autor do primeiro estudo sobre o assunto em 1989 -, e Elza Berquó, grande demógrafa e fundadora do Cebrap, discutiam e organizavam pesquisas sobre o tema. Joseph Potter, da Universidade do Texas, juntou-se às pesquisas iniciadas por Vilmar e em 1998 os dois publicaram um artigo intitulado : “Television, Telenovelas, and Fertility Change in North-East Brazil”,(in Richard Leete (ed.), Dynamics of Values in Fertility Change, Oxford: Oxford University Press, 1998). O ensaio teve impacto imediato e -, coisa muito rara -, foi citado num editorial do The New York Times, em junho de 1998. O texto foi depois publicado na revista do Cebrap em março de 2002. A tése dos autores, fundamentada em pesquisas, era basicamente a mesma que está sendo 'descoberta' 10 anos depois.

Os autores do estudo do CEPR citam 3 vezes (no estudo, não nas entrevistas aqui citadas) o ensaio de Vilmar e Potter. Mas, francamente, não avançam muito além das análises publicadas pelos dois. Acho até que as conclusões de Vilmar e Potter são mais complexas e sofisticadas que as do CEPR. Quem quiser, pode conferir. Mais ainda, o estudo do CEPR (feito por La Ferrara, Chong e Duryea) aparentemente ignora o grande estudo orientado por Vilmar, Potter e Elza, entre 1992 e 2000, cujo resumo transcrevo: “O projeto 'O Impacto Social da Televisão no Comportamento Reprodutivo no Brasil' é um projeto multi-disciplinar e multi-institucional que envolve, além do CEDEPLAR/UFMG, o NEPO/UNICAMP, o CEBRAP, a ECA/USP, além da University of Texas at Austin e Santa Clara University. O objetivo do projeto é mostrar como a televisão teve impacto nas mudanças reprodutivas observadas no Brasil recentemente, incluindo a queda da fecundidade propriamente dita e as mudanças ideacionais (ideational changes) com relação à reprodução, sexualidade e uso de contraceptivos. O argumento, inicialmente proposto por Faria (1989), é de que a política governamental de incentivo à expansão dos meios de comunicação de massa, aliada à ampliação do crédito ao consumidor e à medicalização, geraram efeitos não intencionais e não esperados sobre a fecundidade e as práticas contraceptivas. O projeto teve início em fevereiro de 1992 com um workshop em Austin, Texas. ... A pesquisa de campo propriamente dita foi feita entre junho de 1996 e fevereiro de 1997, enquanto a novela das 8 da Rede Globo O Rei do Gado esteve no ar. ».

Este projetaço, discutido em universidades americanas e brasileiras, teve trabalho de campo e pesquisas derivadas publicadas dentro e fora do país. A melhor prova que a pesquisa do CEPR não « descobriu » nada de tão novo assim, pode ser verificada nos resumos das duas pesquisas, publicados na mídia novaiorquina com dez anos de intervalo.

Em 1998, o editorial do New York Times dizia: “Vilmar Faria, a Brazilian sociologist, and Joseph Potter, a University of Texas sociologist, argue that the drop in fertility tracks the spread of television -- dominated by the universally popular nightly soap operas known as telenovelas. For many poor, the telenovelas provided their first glimpse of small, less authoritarian families and of consumer culture. Women realized they could choose fewer children, and that children had a cost ».

Há três dias, o New York Daily News, jornal de 2a. divisão de Nova York, afirmou, num tom mais vulgar, no meio do noticiário geral: Soap operas are contributing to a population decline in Brazil, according to a new study - and not just because people are too busy watching TV to get busy in the bedroom. A study by the Center for Economic Policy Research (CEPR) says that Brazil's national addiction to soap operas is to blame for a drastic decline in fertility rates there over the past four decades. The small families depicted on the soaps, the study says, are causing real women to want fewer children of their own.

Dez anos atrás, trouxe de NY para Vilmar o exemplar do NYT com a primeira citação. Ele ficou feliz. Agora, ponho as duas citações lado a lado neste post. Espero que ele também tenha ficado contente, lá onde se encontra.

quinta-feira, 20 de março de 2008

A Rede e o Nada

Capa da edição de 1883 de Les Travailleurs de la Mer, de Victor Hugo
Paulo Henrique Amorim é meu amigo há muito tempo. Mas não é por isso que escrevo aqui. Penso, de fato, que a ruptura de seu contrato no Ig é exemplar para demonstrar como a rede também pode abrir a via à regressão política e cultural. Visivelmente, os posts e as entrevistas que Paulo Henrique Amorim fazia não agradavam gente muito poderosa. Por esta ou por outra razão que o Ig não se dignou a explicar aos internautas, aos colaboradores do seu portal e ao público (o argumento dado: a falta de rentabilidade do site de PHA é grotesco: os outros sites que ficaram têm mais internautas-leitores do que o dele???), seu sítio foi bruscamente tirado do ar.
A maior parte de seus posts e de suas entrevistas com líderes políticos, altos funcionários e personalidades diversas foram seqüestradas e podem ser destruídas pelo Ig. Este é o problema de fundo: os posts e os sítios podem desaparecer definitivamente. Noutro registro, o triste fechamento do Nomínimo, do qual fui colaborador, como do No antes dele, acabou fazendo desaparecer todo o rico material jornalístico que ele continha. No que me concerne perdi para sempre os meus textos, embora eles tivessem continuado a ser acessíveis muito tempo depois do fechamento do Nominino. Causado, como se sabe, pela falta de fontes de publicidade que torna vulnerável o jornalismo eletrônico no Brasil.
O caso de PHA é muitíssimo mais grave e constitui um verdadeiro atentado à liberdade de imprensa e à propriedade intelectuel. PHA não teve a oportunidade de redirecionar seus leitores e os internautas para o seu
novo sítio, nem de recuperar seu trabalho jornalístico. No século passado e retrasado, quando os autoritários e os truculentos mandavam empastelar as redações dos jornais que não lhes convinham, ainda dava para recuperar os exemplares antigos e reimprimir a publicação. Como sabem os pesquisadores e os historiadores, mesmo o regime mais ditatorial ou o país mais desleixado não consegue fazer desaparecer os jornais antigos. Estes acabam sendo preservados, na pior das hipóteses, na documentação consular e nas bibliotecas de outros países. Agora some tudo num piscar de olhos. Que PHA tenha podido recuperar parte de seu acervo para abrir logo um outro sítio (antes os empastaledos também podiam reabrir outro jornal) não diminui em nada a malignidade do ato de que ele foi vítima.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Buenos Aires?


Chega hoje no Brasil, para uma visita oficial de dois dias, Condoleezza Rice. Vai à Brasília encontrar Lula, conversar sobre etanol, Oriente Médio, Chávez, Uribe y otras cositas más. Depois vai para a Bahia, cada vez mais legitimada como capital da Afro-América. Eliane Catanhêde que, junto com Jânio de Freitas, foi a única jornalista a salientar a importância do encontro Países Árabes-América do Sul organizado em Brasília em 2005 (e escarnecido pelo restante da mídia), faz um comentário bem centrado sobre a viagem de Rice. Mas, salvo engano, não há nenhuma notícia nos jornais brasileiros sobre um ponto essencial, analisado pelo New York Times: Condoleezza renova o gelo que os EUA davam na Argentina de Nestor Kirchner, evitando encontrar-se com Cristina Kirchner, eleita há pouco tempo. Ela irá ainda ao Chile, mas não passa por Buenos Aires. !Assim reiterada, a crise entre Washington e Buenos Aires assume proporções inéditas nas relações entre os dois países. Fato que dá outro destaque à situação diplomática do Brasil. Ao não dar por isso, o jornalismo brasileiro consolida o analfabetismo sobre assuntos internacionais existente na opinião pública nacional. Quase todas as matérias importantes sobre política internacional publicadas na imprensa brasileira são traduzidas dos jornais americanos e europeus. E podem ser lidas na véspera nos próprios sítios destes mesmos jornais pelos leitores brasileiros mais curiosos.

domingo, 9 de março de 2008

A crise das Farc: making of de um artigo

Crianças colombianas mobilizadas na 'Guerra de los mil dias" (1899-1902)
O Estadão me convidou no começo da semana para escrever, para o caderno dominical Aliás, um artigo sobre as Farc e as tensões regionais geradas pelo ataque colombiano em solo equatoriano. Como a crise evoluía muito rapidamente, passei a semana coletando material. Mas só comecei a redigir o texto na sexta-feira de manhã (o deadline do jornal era às 18 horas, horário brasileiro): esperava não ser surpreendido por nenhuma novidade que desmontasse os argumentos desenvolvidos no texto.
Zapeando no meio da semana, vi na TV a cena em que Chávez decretava a mobilização de suas tropas. De camisa vermelha, falando no meio da multidão para um ministro da guerra parecido com aquele gordinho de óculos do programa Chaves, da SBT, Chávez, o outro, ordenava com voz tonitruante:“que se mande diez regimientos, que se despliegue la aviación militar!”. Entre um pistache e outro, pensei: «ou o cara ficou doido ou está brincando». Doido, Chávez não é: nunca interrompeu as exportações de petróleo venezuelano para os Estados Unidos. Por isso, comecei a redigir o artigo num enfoque de longo prazo que excluía a iminência de um conflito armado envolvendo a Colômbia, a Venezuela e o Equador. O fato de que Chávez, Uribe e Correa não tivessem desmarcado sua presença na reunião do Grupo do Rio em Santo Domingo, confirmava esta impressão. Mas o tom de muitos sítios de informação era:«There will be blood!». No final do dia, sexta-feira à noite, veio a notícia e as imagens: Chavez, Uribe e Correa estavam se abraçando em Santo Domingo. Tant mieux! Mas a imprensa brasileira traz hoje artigos que começaram a ser impressos antes do final da crise, imaginando que a guerra iria rebentar de uma hora para outra. Veja-se a capa da
Veja.
A certa altura escrevi que a guerra com as Farc é o conflito mais antigo do mundo. O raciocínio teria ficado mais completo se tivesse inserido a frase que agora vai em itálico (incluo também a referência do estudo em que me baseio):
«Estudos especializados registraram um total de 229 conflitos armados em 148 países entre 1946 e 2003. No meio tempo, a grande maioria destas guerras cessou. Assim, excluídos os conflitos inter-étnicos oriundos de partições territoriais estabelecidas após 1945 (Palestina, Território Karen na Mianmar-Birmânia, Cachemira na Índia), a guerra do governo colombiano com as Farc, cujos combates começaram em 1966, configura o mais antigo dos conflitos mundiais
[1].Considerando-se que tal fato ocorre num país independente desde 1819, a guerra civil colombiana apresenta-se como um caso único na história do mundo contemporâneo ». O artigo completo está aqui.

[1]. Mikael Eriksson e Peter Wallensteen, « Armed Conflict 1989-2003 », Journal of Peace Research, v. 41 (5), 2004, pp. 625-636.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Bomba made in Brasil

Desenho de Alfred Agache para a reforma urbana do Rio, O Cruzeiro, 10/11/1928

A revista britânica Jane’s, a mais reputada publicação do mundo em assuntos militares, publicou ontem uma matéria sobre o programa nuclear do Brasil. Nelson de Sá repercutiu a notícia na sua coluna da Folha de hoje. No entanto, ao contrário da leitura de Nelson de Sá, achei que a matéria da Jane’s tinha um tom voluntariamente ambigüo.
A frase inicial do texto, « While Brazilian nuclear intentions are not military in nature, the development of its civilian programmes could be motivated partly by political and commercial considerations”, deixa margem para concluir que o programa brasileiro pode ser ainda “partly” motivado por considerações militares. O artigo também ironiza a pretensão brasileira de esconder tecnologia nuclear alegamente inventada pelo Brasil, mas “já desenvolvida há mais de uma década com assistência técnica estrangeira”.
Depois de dizer que a Constituição limita o programa militar nacional ao uso exclusivamente pacífico (mas sem mencionar a ratificação do Brasil do TNP, em 1998), a revista conclui com uma frase de bem escrita ambigüidade: ” Yet potential capability remains; statements made since 2002 by current President Luiz Inácio Lula da Silva, Science and Technology Minister Roberto Amaral, and other Brazilian government and military officials have reinforced the belief of many observers that Brazil's civilian nuclear energy and naval propulsion programmes could be quickly diverted to acquire weapons-grade capabilities in the unlikely event of a change in government nuclear policy”.
As declarações duvidosas do ex-ministro
Roberto Amaral (que já saiu do governo há 4 anos), como as de outras autoridades, a respeito da finalidade do programa nuclear brasileiro, foram sempre reenquadradas pelo Itamaraty, o qual reafirmou o vínculo do governo ao TNP e a uma política pacifista.
O Brasil é o único país dos BRICs que não tem bomba atômica e que renunciou a tê-la num dispositivo constitucional reiterado pela assinatura de tratados internacionais (TNP e Tatlelolco). A tchurma da Jane’s ainda acha pouco, embora afirme ser « unlikely” (improvável) uma mudança na política pacífica do (deste) governo. Não li a matéria toda da revista, cujo teor é 4 vezes maior do que o texto postado no sítio. Posso estar sendo injusto. Mas tal como aparece no sítio, o texto retrata uma maneira elegante de exprimir uma opinião sacana : para a Jane’s, a legalidade constitucional e o respeito do Brasil aos tratados internacionais não vale lhufas.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Nos Trilhos



No Eurostar, logo na saída de Waterloo Station, o alto-falante anuncia que, a partir de 14 de novembro, haverá uma nova estação em Saint-Pacras. É em Bloomsbury, o Quartier Latin de Londres. De lambuja, a viagem Paris-Londres ficará 20 minutos mais curta. Será que intelectuais e os ingleses em geral vão se aproximar mais dos franceses? Duvido, No way : a tchurma em Londres continua se espelhando muito mais nos EUA. Começou durante a Segunda Guerra e continua pelo século XXI adentro.
Um colega que me ajudou muito na Faculdade e se aposentou neste ano, um cavalheiro e um erudito, contou-me que na Guerra de Independência dos EUA houve uma reunião em Versalhes, onde Luís XVI assuntou, procurando saber se valia a pena ajudar militarmente os americanos. Parte de seus conselheiros achou que sim: era, indiretamente, a revanche dos franceses sobre a derrota sofrida na Guerra de Sete Anos (1756-1763) que resultou na perda do Canadá para os ingleses. Mas outros conselheiros acharam que não: para eles, os americanos, protestantes e anglo-saxões, ficariam sempre do lado dos ingleses nos conflitos na Europa e no mundo. A história provou que estes últimos tinham razão.
E o Commonwealth cresce, até para onde não se espera: Moçambique está incluído no guia da Universidade de Londres sobre os países das universidades do Commonwealth. A França também costuma incluir Cabo-Verde entre os países da francofonia.

No hotel em que fiquei em Bloomsbury (Tavistock Hotel, velhinho simpático, com ambientes de Agatha Christie; o problema são as tomadas; é igual no Ouro Verde, em Copacabana, ou no Everest, em Porto Alegre, onde gosto de ficar: nos hotéis velhinhos simpáticos as tomadas estão atrás dos armários: tem Wi-Fi, mas o notebook tem que ficar com você pendurado na beirada da cama, ligado numa tomada na outra ponta do quarto) – e no trem onde estou agora, lí toda quase toda a imprensa inglesa.

No Eurostar há muitas revistas e jornais de graça. Nos bares e café de Londres, muito mais que em Paris, há bastante jornais de graça. Nos lugares supostamente trendy (na onda), a imprensa tradicional dá de barato que entregar de graça é uma boa estratégia para travar a concorrência dos jornais gratuitos. Não acredito nisso. Sou adepto da doutrina do Le Monde: o leitor tem que pagar o jornal para sentir que ele é coisa sua. Há algum tempo, o Le Monde tinha um princípio que não sei se ainda continua em vigor: a publicidade do jornal nunca podia ultrapassar 50% do seu preço. Ou seja: o leitor tem que pagar ao menos a metade do custo do jornal que está lendo.

O Economist, sempre bem escrito, sempre interessante, cobre muito bem a China. No último número há uma reportagem sugestiva: a parte da massa salarial no PIB chinês está caindo firme. Escorregou de 53% em 1998 para 41% em 2005 e continuou caindo em 2006. Nos EUA, onde, como se sabe, o governo não é comunista, a massa salarial representou 56% do PIB em 2005. Conclusão do
Economist: o arrôcho salarial está comprometendo a evolução da economia chinesa e isso pode atrapalhar o resto do mundo: está faltando luta de classes no milagre chinês.

P.S. - Estou migrando meu blog para o
UOL. Onde colaboro no UOLNews. A ferramenta é diferente: deu para levar os meus posts, mas não os comentários dos leitores. Durante algum tempo ficarei postando nos dois lugares.

domingo, 7 de outubro de 2007

A tara da discriminação

Caravaggio, Medusa, 1598, Galleria degli Uffizi, Florença.

Escrevo de supetão depois de ler as três matérias da Folha de hoje sobre os jovens entre 16 e 18 anos que hesitam em se tornar eleitores. O TSE lançará campanha para mobilizá-los. Como declarou o presidente do TSE, ministro Marco Aurélio Mello, “...a apatia não conduz a nada. O que nós precisamos é de perseverar e procurar a correção de rumos. E a forma de se corrigir rumos é participando ativamente, fazer uma revolução pelo voto, bem escolhendo aqueles candidatos que devem nos representar nos diversos cargos”.
Belas palavras. Mas nem o ministro, nem a propaganda do TSE, nem os jornalistas da Folha se lembraram do outro lado do problema: a Constituição deu o direito facultativo de voto aos jovens entre 16 e 18 anos, mas também aos analfabetos [art.14° § 1, a) e c), da Const.].
Sucede que os últimos dados do
IBGE, datando de 2005, mostram um contingente de 14,9 milhões de pessoas com 15 anos ou mais analfabetas no país. É muita gente, gente! Quando se verifica o critério da cor aparece de novo a tara da discriminação racial. Cito o relatório do IBGE “a taxa de analfabetismo de pretos (14,6%) e de pardos (15,6%) continua sendo em 2005 mais de o dobro que a de brancos (7,0%)”. Noutro post me referi ao fato que a proibição de voto dos analfabetos constituiu um fator importante de exclusão da população negra da vida política brasileira. .
Ora, desde o início, a propaganda do TSE e da mídia tem procurado incitar os jovens de 16 a 18 anos incompletos a se tornarem eleitores. Mas não há notícia de propaganda similar dirigida aos analfabetos em geral, ou de medidas específicas para facilitar-lhes a obtenção do título de eleitor. Lembro-me de uma notícia ouvida no final de 1988 ou começo de 1989, antes da primeira presidencial direta, dizendo mais ou menos isso: “ a jovem Adriana Rezek, de 16 anos, filha do ministro Francisco Rezek (então presidente do TSE), foi uma das primeiras a obter seu título de eleitora, etc...”. (a moça se chamava Adriana, mas não estou seguro se tinha 16 ou 17 anos). Lembro também da reflexão que fiz então no Cebrap, ou escrevi alhures: ‘que tal prevenir dona Maria de Tal, empregada doméstica há 40 anos, negra e analfabeta, que ela também pode ser eleitora e festejar a obtenção de seu título eleitoral’?
Na época, aparecia na TV, na propaganda do TSE, um jovem surfista dizendo algo do gênero: “ e aí garotão, não vai tirar seu título eleitoral?”
Nada mudou de lá para cá. Fala-se sempre dos jovens (leia-se: jovens de classe média) que podem obter título de eleitor aos 16 anos e jamais dos analfabetos adultos que também têm este mesmo direito. O PT nunca se mexeu para mudar isso. O Movimento Negro nunca se mobilizou para mudar isso. A imprensa e a mídia deram pouca ou nenhuma notícia sobre o assunto, e os tribunais eleitorais continuam insensíveis ao tema.
Não há preconceito de classe? Não há preconceito de raça no Brasil? Então tá!

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Um bom trabalho mal comentado


Volto à reportagem da BBC sobre o estudo do geneticista Sérgio Danilo Pena, da UFMG, a respeito da ancestralidade africana dos brasileiros. No Cebrap, onde trabalhei 13 anos, a transdisciplinaridade era questão de sobrevivência. Tive a sorte de contar com a ajuda de um geneticista, Marco A. Zago, da USP, na seção " a unificação microbiana do mundo", que trata da pouca resistência imunológica dos índios frente aos africanos e europeus, no cap. 4 meu livro O Trato dos Viventes.
Meu post comentava a notícia d
a BBC, a mais respeitada empresa de mídia do mundo. Assinalei aqui as matérias muito interessantes que a BBC fez ultimamente sobre o tráfico negreiro em geral e a situação do clero negro no Brasil em particular. Não obstante, na notícia sobre a ancestralidade africana aparecem, do jeitinho que citei –, é só ler o link -, informações desastradas sobre o tráfico negreiro. Tentei em seguida, em vão, acessar o estudo original de Pena. Parece que o texto ainda não foi publicado. Mas, no material da Fapesp, pude ouvir seus comentários (bloco 3 do programa de rádio de 05/05/2007) e, alertado pelo comentário de Milton Ohata, ler mais detalhes sobre sua pesquisa (n° 134, de abril 2007, da Revista Pesquisa Fapesp). Assim, há uma pesquisa paralela, ainda não publicada, com negros do Rio e do RS, conduzida pela equipe da geneticista Maria Cátira. De seu lado, Pena e Flávia Parra também analisaram dados de 173 homens brancos, negros e pardos no interior de MG. Em nenhum lugar Pena aparece dizendo que a cidade de São Paulo (onde os estrangeiros formavam 1/3 da população nos anos 1920 e 1930) é representativa da população brasileira, ou que não há estatísticas sobre o tráfico de africanos entre 1830 e 1850. Fica assim preservada a integridade científica de Sérgio Danilo Pena e a seriedade de sua pesquisa.
O leitor João Paulo Rodrigues atribui às jornalistas da BBC os disparates sobre o tráfico negreiro misturados à reportagem sobre o estudo de Pena. Se tiver sido este o caso, Pena deveria ter ido pra cima delas e desautorizado a confusão. Algumas das afirmações ali contidas são propriamente inaceitáveis porque contrariam fatos bem estabelecidos e -, sobretudo -, desestimulam novas pesquisas e os novos pesquisadores (cf. 2° e 4° do
post anterior). Se depois de 200 anos de estudos por gerações de especialistas, tudo ainda está “nebuloso”, faltam carradas de cifras e, ainda por cima, Rui Barbosa botou fogo nos documentos, por que um jovem pesquisador iria querer trabalhar sobre o assunto?
Aliás, por que a BBC Brasil não corrigiu logo os erros flagrantes da reportagem difundida “com um bocado de alarde”?

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Nós aqui e acolá

Já falei da mudança ocorrida recentemente, quando o número de emigrantes, pela primeira em vez em nossa história, sobrepujou o número de imigrantes. A questão da emigração tem sido pouco discutida. Os bancos e os "cabeças de planilha" (a expressão é de Luís Nassif) falam com água na boca dos bilhões dólares que os emigrantes mandam para o Brasil. Mas pouco se lhes dá que muitos brasileiros estejam se estrepando nas quatro partes do mundo. Ao final de muito tempo, o Itamaraty construiu um sítio decente sobre o tema. E durante algumas semanas, no começo de 2006, a novela América, da Globo, pôs a emigração em pauta. Porém, a televisão brasileira é basicamente burra. Graciliano Ramos e Luiz Gonzaga plantaram os migrantes nordestinos no coração da tragédia social brasileira. Mas todos os capítulos de América só serviram para dar uma efêmera notoriedade a atores globais. O drama humano da emigração para os EUA sumiu por detrás dos cabelos de Deborah Secco.
Ao fim e ao cabo, o assunto tem sido tratado com descaso. Basta ver a total ausência de comentários nos jornais nacionais a respeito do
debate criado pela nova lei de imigração nos EUA, onde há mais de 1 milhão de emigrantes brasileiros. Em boa parte clandestinos, tais emigrantes serão atingidos pela nova legislação. Numa das raras tomadas de posição de políticos brasileiros, o governador Aécio Neves, em viagem a Boston no mês da abril, afirmou sua preocupação sobre o assunto: "O que eu posso fazer é criar condições para que a vinda para os Estados Unidos não seja a última, a única alternativa para uma parcela importante de mineiros".
Sondagem do
Herald Tribune mostra que, entre os habitantes dos países desenvolvidos, os americanos são os mais numerosos a achar que seu país ainda precisa de mais imigrantes (o dado não está no artigo do link, mais sucinto que o do jornal impresso). Esta é uma das chaves do problema nos EUA e alhures. Muitos empresários e muitas famílias americanas aproveitam-se da mão-de-obra barata estrangeira e, mais ainda, dos clandestinos.
Há brasileiros que só abrem os olhos para a situação dos emigrantes quando, em viagem de turismo, esbarram com seus compatriotas em dificuldades. Na realidade, os emigrantes despreparados pela incúria de nossos governos desmascaram a fachada lisonjeira que a classe média e alta brasileira carrega consigo quando viaja no exterior. Mesmo no Brasil o mal-entendido é evidente. Veja-se este diálogo sobre a emigração que catei num chat brasileiro (os nomes são fictícios):
Pafúncio: "Quem limpa chão de supermercado no Brasil, não me consta que morra de fome.Tem muito brasileiro preguiçoso aí na América vivendo de golpes e sujando o nome do país no exterior.Ilegal ou não.VC sabe disso".
Pancrácio: "Estou aqui legalmente, nunca precisei limpar prato no BR mas se tivesse limpado, qual o problema? Vou ao BR a cada dois meses e sei muito bem a situação que tudo se encontra por aí. Odeio morar nos EUA mas aqui estou conseguindo relaxar no semáforo e não ficar louco, olhando de um lado pro outro".

P. S. – Hoje, sábado, saiu no Globo Online uma notícia da agência espanhola EFE sobre a discussão das leis de imigração nos EUA. Como o redator da matéria foi um jornalista espanhol, não há, obviamente, nenhuma referência às dezenas de milhares de imigrantes clandestinos brasileiros nos EUA.