quinta-feira, 12 de abril de 2007

Bispos negros e bispos brancos

Outro dia, falei da discriminação que atinge os afrodescendentes no clero brasileiro, sugerindo que o assunto deveria ser meditado por católicos, não-católicos e ateus na visita do papa Bento XVI ao Brasil.
Agora apareceu uma reportagem da
BBC Brasil, publicada pela Agência Estado, que completa as informações que eu havia dado, mostrando como o número de bispos negros é ridiculamente reduzido em nosso país: 11 (2,5%) num total de 434.
Comentando estes dados, d. Antônio Wagner da Silva, bispo de Guarapuava, disse : "O número de afrodescendentes não é pequeno apenas no episcopado brasileiro. É assim nos altos escalões das Forças Armadas e também do governo", e concluiu, "as oportunidades restritas no acesso às escolas, às universidades e à formação de sacerdotes e religiosos pode ser uma das razões para este quadro discriminatório."

Seus argumentos parecem fazer sentido, mas são, como diria o outro, ontologicamente falsos.
A comparação com as Forças Armadas e com o governo, sensíveis aos princípios democráticos somente há duas décadas, é absurda. O ilustre prelado guarapuavano passa batido sobre o fato que a Igreja é essencialmente diferente das instituições políticas e militares, pois desembarcou no Brasil há quinhentos anos para salvar as almas de todos os povos, de todas as tribus, de todas as malocas. Não obstante, regulamentados pela hierarquia clerical, os seminários mantêm voluntária e deliberadamente -, há cinco séculos -, «oportunidades restritas » ao acesso dos afrodescendentes.
Volto à carga porque o preconceito racial contra seminaristas negros –, prática antiga e bem arraigada -, é assunto tabu no Brasil. Além disso, a reportagem da BBC não teve a repercussão que merece. Salvo engano, nenhum jornal brasileiro comentou esta matéria, pautada - é bom lembrar - pelos redatores de uma agencia britânica, mais atenta ao assunto que os editores tupiniquins. Insistir nestes fatos faz parte do trabalho do historiador, o qual, deve «pentear a história a contrapelo», como escreveu Walter Benjamin.

8 comentários:

Anônimo disse...

Professsor, onde está o RSS do teu blog?

Márcia W. disse...

Professor,
descobri seu blog há umas 4 semanas e desde então passei a frequentá-lo, com rss, que o Sr. vai explicar para o anônimo...
Gostei muitíssimo de sua ponderação sobre a igreja.
Gostaria de colocar um link do seu blog no meu, se incomoda?
Abraços

Márcia W. disse...

Professor,
a Bloga Fora ficou muito honrada com sua visita. As Sequências já estão na minha lista de links (acho mais elegante perguntar antes).
abs e até a próxima

Anônimo disse...

Tai algo que prova que para a Igreja, pobre branco pode ser padre, pobre negro, não pode.

Duque de Huambo

Anônimo disse...

Professor,

Obrigada por me mandar seu link, que já acrescentei aos meus favoritos.
Excelente seu artigo sobre racismo na Igreja.
A Igreja Católica sempre recrutou seus quadros, muitas vezes entre pobres. É ainda mais estranho esse número tão pequeno de bispos negros.
Seu artigo e sua insistência no tema do racismo brasileiro me conforta.
Me dá a boa sensação da concordância. Como o Brasil resiste ao debate do tema! É impressionante.
Abraços
Miriam Leitão

luiz felipe de alencastro disse...

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abs

Carlinhos Medeiros disse...

Salve, professor Alencastro.

Temos melhorado sensivelmente as relações com os nossos afrodescendentes depois do advento 'Lula', porém, falta muito para que essa praga da discriminação primitiva racial, se acabe em nosso país, uma vez que está enraizado dentro de nós o paradigma da colonização.
A igreja católica e o seu papa, tem que pedir perdão a muita gente para ganhar a salvação, ah se tem...

Rogge disse...

Fico meio constrangido, quando o professor brilhante analisa fatos em base a parti pris, como o anticlericalismo evidente. A seleção ao seminário não se dá em base racial. A maioria dos seminaristas é mulata. E grande parte da nova geração de padres tem pais ou avós negros. Nem todo seminarista, seja lá qual for sua cor, consegue sobreviver às exigências severas da vida de seminário. O negro "retinto" - como talvez seja esse o seu caso, quando fala de negro -, além de ser raro, ainda está naquela fase sócio-cultural de descendentes afro-brasileiros infelizmente ainda não assimilados na economia e no nível cultural mediano do país, após a abolição da escravatura. Fazer um artigo como o seu pode ser prazeroso. Mas decepciona, quando certos posicionamentos atrapalham a objetividade das análises, sobretudo quando tomados por pessoas do seu nível, professor. Não acharei estranho se o senhor não publicar este comentário. Afinal, basta-me que o senhor mesmo o tenha lido.