quarta-feira, 28 de março de 2007

Padres louros e padres negros

Do quadro de Perugino, Ritratto di Don Biagio Milanesi e di Don Baldassarre Vallombrosano, 1500, Galleria degli Uffizi, Florença.

Matéria da Folha de São Paulo do dia 25.03.2007, assinada pelo repórter Leandro Beguoci e intitulada ‘Alemães’ ganham força na Igreja brasileira, dizia o seguinte :
D. Odilo Scherer é o terceiro arcebispo seguido de São Paulo que nasceu em uma família de origem alemã do Sul do Brasil...Como deve receber em breve o título de cardeal ... consolidará a imigração germânica como a maior produtora de religiosos para o alto escalão católico ... Dos 17 cardeais que o Brasil já teve, cinco têm origem alemã. Dos oito cardeais brasileiros vivos, quatro têm parentes germânicos. Os italianos, que chegaram em maiores levas, possuem apenas dois… »
E os africanos, cara-pálida? Que chegaram bem antes, em maiores "levas" ainda? Há 16 mil sacerdotes católicos espalhados nas 250 dioceses que cobrem o território nacional. Deste total, cerca de 12 mil são brasileiros e 4 mil estrangeiros. Dentre os 12 mil padres brasileiros, o número de afrodescendentes é de apenas mil, ou seja, 8,3%, num país em que os mulatos e negros (pretos e pardos, na terminologia do censo do IBGE) representam 45% da população. Nem vale a pena procurar a proporção de arcebispos e cardeais negros, descendentes dos africanos que começaram a desembarcar na Bahia 300 anos antes dos colonos alemães se fixarem no Sul: ela é insignificante.
Para uma instituição que chegou há cinco séculos anos no Brasil com a finalidade de salvar todos os filhos de Deus, a Igreja registra um enorme atraso no combate às discriminações que ela ajudou a estabelecer. Está ai um tema sobre o qual os católicos e o clero nacional deveriam meditar, às vésperas da chegada no Brasil do papa alemão Bento XVI, que está europeizando ainda mais a Igreja. Também servirá de reflexão para os espíritas, maçons, umbandistas, ateus e os que acordam todas as manhãs crentes que não há racismo no Brasil.
Os dados que citei foram tirados de um artigo que publiquei no
Nomínimo há algum tempo (os links do artigo estão pifados).

3 comentários:

Vanessa Pedro disse...

Professor Alencastro.
Descobri seu blog na semana passada enquanto tentava achar um contato seu em Paris. Já acrescentei à minha lista de favoritos e repassei o endereço aos meus alunos de jornalismo da UFSC. Um dos seus comentários os ajudarão a assistir aos dois filmes de Clint Eastwood que discutiremos na disciplina Jornalismo e Guerra que ministro. Além de registrar a qualidade do seu blog e dos seus comentários, acredito que este é o único espaço que talvez eu consiga contatá-lo. Gostaria de enviar um email falando de minha vontade e desenvolver um projeto de pós-doutorado com seu apoio, mas não tenho seu contato. É possível conseguir um endereço de email seu para expor meu projeto? Meu e-mail é oxum@floripa.com.br

Um abraço,
Vanessa Pedro

Carlinhos Medeiros disse...

Salve, professor.

Eu vou mais além: imagine o senhor, se o Jesus cristo estampado no quarto da minha avó, fosse negro? O retrato de um papa negro decorando o quarto da maioria das beatas brasieleiras? Mudariam de religião ou renegariam esse deus.

Anônimo disse...

Com que tradição católica chegaram os negros 300 anos antes?