segunda-feira, 26 de março de 2007

O final do tráfico negreiro britânico e o Brasil

Auguste Biard, Esclaves sur la côte ouest-africaine, 1840 , Wilberforce House, Kingston upon Hull Museum and Art Gallery, Hull (Inglaterra)
A BBC criou um sítio – em espanhol e em inglês (mais completo) - sobre os 200 anos da abolição do tráfico negreiro britânico, em 1807. A Folha de S. Paulo publicou no dia 24/03 comentários de historiadores brasileiros sobre este bicentenário (assinante UOL clique aqui). Voltarei ao assunto. No meio tempo, deixo aqui um artigo que publiquei no Estadão, em 17/04/2005, sobre o pedido de perdão de Lula aos africanos, na ilha de Gorée (Senegal), por causa do tráfico negreiro.
Um pedido de desculpas para ficar na história
"A viagem do presidente Lula à África tomou um tom mais simbólico durante a visita à ilha de Gorée, no Senegal, e à Casa dos Escravos. Neste local, venerado como centro da deportação dos escravos, o presidente Lula - acompanhado pelo presidente do Senegal, Abdoulaye Wade, e pelo ministro Gilberto Gil - emocionou-se e declarou: "Eu queria dizer ao presidente Wade, ao povo do Senegal e da África que não tenho nenhuma responsabilidade pelo que aconteceu nos séculos XVI, XVII e XVIII, mas que é uma boa política dizer ao povo do Senegal e da África perdão pelo que fizemos aos negros".
Trata-se de um pronunciamento histórico, da parte do presidente do país que conta com a maior população de origem africana fora da África. Por isso, torna-se necessário situar o evento numa perspectiva mais longa. Note-se algo curioso. Visitada por milhares de pessoas, e pelos presidentes Bush (filho) e Clinton, pelo papa João Paulo II e por Mandela, a Casa dos Escravos tem uma história bizarra. Muito provavelmente, o prédio serviu de depósito de escravos, mas nunca foi - como se pretende - o ponto central do fluxo contínuo de escravos para as Américas. Aliás, não é preciso andar muito para esbarrar em incoerências. Enquanto o curador da Casa dos Escravos conta que 40 milhões de cativos foram embarcados dali, o Museu Histórico de Gorée, situado pouco adiante e dirigido por historiadores sérios, apresenta a cifra aceita pela maioria dos pesquisadores -perto de 10,5 milhões de escravos saídos de toda a África para as Américas. De qualquer modo, o lugar tornou-se um símbolo que ultrapassa a veracidade factual: é ali que os afro-americanos e as pessoas de boa vontade se recolhem para meditar sobre a tragédia do tráfico negreiro.
Luanda
Há outros portos mais relevantes que permanecem apagados da memória. Como a ilha de Luanda, na frente da capital de Angola.Centenas de milhares de escravos foram embarcados ali, geralmente para o Brasil, fazendo da região o mais movimentado porto negreiro da África. Mas pouca gente sabe disso, e o lugar é freqüentado por turistas em busca de suas praias. Nesse sentido, a Casa dos Escravos guarda toda a sua importância. Em novembro de 2003, quando visitou Luanda, o presidente Lula fez um discurso mencionando o drama dos escravos angolanos trazidos para o Brasil e os "laços de sangue" unindo nossos povos. Na mesma viagem, deu declarações sobre o peso da escravidão no Brasil, quando esteve em Moçambique. Mas as frases se perderam nas entrelinhas dos jornais.

É preciso notar que Angola foi visitada por outros dois presidentes brasileiros. Mas nem Sarney (em 1989), que fizera um discurso corajoso sobre a escravidão no centenário da Abolição, em 1988, nem Fernando Henrique (em Luanda, em 1996), autor de um importante livro sobre o escravismo, manifestaram-se sobre esse tema tão candente. Outra foi a atitude do presidente Clinton, que, em sua viagem a Uganda (1998), pediu desculpas pelo envolvimento dos norte-americanos na escravização dos africanos.
EUA e Brasil
Ora, comparado com o Brasil, o comprometimento norte-americano no tráfico negreiro foi muito relativo: os EUA receberam perto de 600 mil escravos africanos (6%), enquanto o Brasil é o maior beneficiário do tráfico, com perto de 4 milhões de indivíduos (40% do total). Mais ainda, os colonos do Brasil, desde o século XVII, e os brasileiros propriamente ditos, de 1822 a 1850, tiveram participação ativa no saque direto dos povos africanos, sobretudo em Angola. Só os colonos do Brasil tiveram essa implicação na pilhagem negreira. Só o Brasil, como nação independente, foi tão fundo no tráfico e na escravidão. O fato é conhecido dos historiadores e diplomatas. Ao longo de seus cursos no Itamaraty, nossos diplomatas devem ter tido informação sobre a maior encrenca nessa área enfrentada pelo País: o conflito com a Inglaterra em torno da continuação do tráfico negreiro. Embora esse comércio fosse ilegal, e considerado ato de pirataria pelas leis brasileiras, havia gente como o senador mineiro Bernardo Pereira de Vasconcelos - eminente pai da Pátria - achando que permanecer importando escravos era assunto de soberania nacional. Faltava, portanto, um pronunciamento oficial sobre o assunto em solo africano. Faltava um gesto significativo para marcar o sentimento já expresso pelo presidente Lula em sua precedente viagem à África. O local escolhido foi a ilha de Gorée, tudo bem. Mas a fala - que deveria ter sido bem preparada -saiu enviesada. O presidente eximiu-se pessoalmente ("...não tenho nenhuma responsabilidade pelo que aconteceu nos séculos XVI, XVII e XVIII"). Obviamente, o indivíduo Lula não tem nada a ver com o que ocorreu em qualquer parte do planeta antes de sua maioridade. Mas deveria ter assumido seu papel de presidente de um país escravista e negreiro durante mais de três séculos. Contudo, Lula concluiu de maneira generosa: "Essas pessoas (os africanos) e seu sofrimento ajudaram a construir o meu país. Se não fosse a miscigenação, não teríamos o povo maravilhoso que é o brasileiro". O presidente poderia ter dito um pouco mais. Conservadas as atuais projeções demográficas (declínio da natalidade da população branca e queda mais lenta da natalidade dos negros e mulatos), o Brasil será, dentro de duas décadas, uma nação composta majoritariamente por cidadãos descendentes de africanos. Fechar-se-á, assim, um ciclo: antes de 1850 também éramos uma nação formada em sua maioria por negros e mulatos.

3 comentários:

André Pessoa disse...

Belíssimo artigo!

Paloma disse...

Olá, professor Alencastro. Gostei muito da sua perspectiva de longo prazo. Acho que os historiadores em geral têm muito a constribuir fornecendo esse tipo de olhar, que, no seu texto, acabou por se projetar ao futuro. Sobre a noção de responsabilidade, acho que podemos fazer uma distinção entre responsabilidade pessoal e coletiva: em hipótese alguma, nenhum de nós é responsável, pessoalmente, pelo tráfico negreiro, mas existe uma responsabilidade coletiva, na medida em que recebemos a herança de um passado em comum.

Anônimo disse...

Bom dia, Professor:
Gostaria de saber a sua opinião sobre as declarações da Ministra Matilde Ribeiro.
Para mim, foram desastrosas! Parece-me que o movimento negro no Brasil reproduz a estratégia do movimento negro estadunidense, qual seja, a criação da sua identidade étnica a partir da oposição ao branco. Além de uma população negra relativamente menor, o numero de pardos e mulatos é pequeno nos EUA se comparado ao Brasil (como apresentado no seu texto). Ja no Brasil, ser branco tem a ver que a posição que se ocupa na estratificação social... Lembrei-me do "pé na cozinha" do FHC. "Vade retro"...