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sábado, 14 de agosto de 2010

FLIP, PARATY, FHC, GILBERTO FREYRE, SALAZAR E O COLONIALISMO

É a segunda vez que vim à Flip. Em 2007, falei de Joseph Conrad  em Coração das Trevas e do colonialismo belga no Congo. 
Desta vez, participei como debatedor da apresentação de Fernando Henrique sobre Gilberto Freyre. Não disse quase nada e há dias que não paro de ser elogiado por ter falado pouco.Um bloqueiro escreveu que eu estive « quase mudo » ao lado de FHC. Na verdade, resolvi reduzir minha intervenção quando FHC, na ante-sala da tenda da conferência, me mostrou o texto (mais de 50 páginas) que ele havia preparado para a Flip, depois de dois meses de leitura e de redação. 
O texto completo será publicado pela Companhia das Letras, mas o público da Flip ouviu atentamente a instigante síntese. Fernando Henrique apresentou uma fala bem amarrada sobre Gilberto Freyre, Joaquim Nabuco, Florestan Fernandes (mestre de FHC), as idéias da USP nos 1950 e 1960, e, concluindo, sugeriu uma pauta para uma próxima Flip: uma homenagem a Sérgio Buarque de Holanda. As críticas matizadas que FHC expos sobre a obra de Freyre foram resumidas pela Folha com um título tosco : « FHC afaga e apedreja Freyre ».
Porém, o que mais me surpreendeu (na verdade, uma meia surpresa) foi a pouca relevância dada pelos jornais e pelos comentaristas a um ponto fundamental da crítica a Freyre que Fernando Henrique apontou (foi o único momento em que ele chamou Gfreyre de « reacionário ») e eu insisti : o largo e contínuo apoio que o autor de Casa Grande e Senzala  ofereceu ao salazarismo e ao colonialismo português na África.
Por isso, reitero aqui que a justificativa freyriana do colonialismo português foi contestada, desde 1955, por um grande patriota angolano, líder da luta pela independência das colônias portuguesas na África, Mário Pinto de Andrade (veja-se o estudo de José Maria Nunes Pereira aqui). Nascido no Golungo, região angolana sangrada pelo tráfico negreiro atlântico desde o século XVI, Mário Pinto de Andrade sabia muitíssimo mais sobre Angola e o colonialismo português na África do que GF. Com o pseudônimo de Buanga Fele, ele publicou neste ano, na revista Présence Africaine, tribuna independentista africana editada em Paris, (na qual FHC também escreveu) um artigo refutando o luso-tropicalismo. Mais concretamente, Mário Pinto de Andrade aponta divergência histórica que marca a presença portuguesa no Atlântico e contradiz o luso-tropicalismo : o crescimento da população mulata no Brasil colonial e nacional e a atrofia da mestiçagem em Angola.
[Buanga Fele, “Qu’est-ce que ‘le tropicalismo’?”, Présence Africaine, v. 9, n. 5, 1955. Sobre a questão da mestiçagem no Brasil e em Angola, L.F. de Alencastro, “A continuidade histórica do luso-tropicalismo”. Novos Estudos Cebrap, São Paulo, nº 32, mar. 1992, pp. 77-84. Sobre Freyre, JK e lobby salazarista e colonialista português no Brasil, o livro importante e insuficientemente conhecido de Waldir José Rampinelli, As duas faces da moeda – as contribuições de JK e Gilberto Freyre ao colonialismo português, Editora da UFSC, Florianópolis, 2004.] 

Também falei do colonialismo português quando discuti Casa Grande e Senzala com Gilberto Freyre Neto no programa « Espaço Aberto », da Globonews

sábado, 24 de outubro de 2009

Homenagem antecipada ao aniversário da morte de Zumbi dos Palmares

O texto abaixo é extraído de um artigo meu intitulado História Geral das Guerras Sul-Atlânticas: o episódio de Palmares que será publicado em Flávio Gomes (org.), Mocambos de Palmares. História, historiografia e fontes. 7Letras editora/FAPERJ, R.J.,2009.
O tema do artigo é mostrar (de novo) que o Atlântico Sul configurava um só espaço colonial unindo o Brasil à África portuguesa, e principalmente à Angola. Noutra parte do artigo, mostro como Palmares também foi atacado por milicianos reinóis e “brasílicos” (colonos do Brasil que ainda não possuiam o sentimento nacional) que haviam combatido em Angola. E tinham, portanto, a prática das guerras africanas. Aqui me concentro num poema sobre milicianos pobres que reclamam por não ter recebido prebendas após a destruição de Palmares. Nas notas de pé página marquei as diferenças entre esta interpretação e as análises de Luiz Mott e de Clóvis Moura, que também estudaram o poema. Marco, antecipadamente, o aniversário da morte de Zumbi, no dia 20 de novembro.
***
« Um texto de um pé-rapado brasílico reinvidica sua parte de glória na defesa do ultramar. Trata-se de um poema sobre a petição dirigida ao Conselho Ultramarino por um soldado raso que combatera como “praça de pé” (sic) no ataque final a Palmares, em 1694. Pereira da Costa, sempre atento à documentação, publicou o poema em seus Anais Pernambucanos. Mas não indica de onde o extraiu, nem se havia papelada anexa. Composto no esquema de rima abbaaccddc, o poema é uma variante da „décima espinela‟, forma literária do barroco ibérico utilizada, entre outros, por Calderon de la Barca (“La vida es sueño”) e Gregório de Matos (“Define sua cidade”). Na sequência, a décima popularizou-se na América Latina, sendo ainda celebrizada nos dias de hoje pela guajira cubana, a literatura de cordel e os violeiros nordestinos. Neste caso -, como no gênero “dez a quadrão”-, a décima é dialogada, com um violeiro entoando um verso, o outro o verso seguinte, e os dois juntos cantando os dois últimos versos. Assim, a décima dá ao poema o tom de uma queixa picaresca que pode ter sido lida, recitada ou cantada em Pernambuco, dando grande alcance às sentenças dos versos. Zebedeu, nome de origem bíblica tornado folclórico em Pernambuco e noutras partes, “filho de Braz Vitorino” (para rimar com Conselho Ultramarino), não se refere aqui a uma pessoa precisa, mas a um grupo de soldados pobres, preteridos na distribuição de presas e prêmios depois da guerra de Palmares. O apelo ao Conselho Ultramarino -, “justiceiro” e “afamado”-, merece reflexão.
Os versos ilustram o conhecimento amplo, nesta parte do ultramar, de que este foro palatino -, mais que o governador da capitania, o governador-geral e o próprio rei -, apresentava-se como a instância legítima e adequada para a solução definitiva dos contenciosos coloniais. Em seguida, como apontei alhures, evidencia-se a repactuação entre o centro e a periferia mediante a distribuição de cargos e o reescalonamento do mérito dos combates ultramarinos.
Contemporâneo da obra de Gregório de Matos, o poema retrata a situação do praça de pré, recrutado “quase menino” e despachado mal equipado, descalço (talvez venha daí a autoironia da expressão “praça de pé”), para a friagem da Serra da Barriga. “De fome e frio morrendo, descalço de pés no chão”, para ali combater “noite e dia”, onde “se estrepou” (isto é, se feriu no “estrepe”, paus pontiagudos postos em torno de Palmares ou enfiados em buracos dissimulados, os “fojos”). Sem receber nenhuma recompensa em propriedade, em soldo ou em promoção, nem “terras, [nem] dinheiro, [nem] patente”. O verso sobre o “valentão” Félix José pode referir-se à generalidade dos camponeses açorianos vítimas de recrutamento forçado, cuja inexperiência de combate valia-lhes frequemente o apodo de “bisonhos”. Tanto Zebedeu, pobre “bolônio” (bocó), como seus aparceirados, foram em frente, dando batalha feroz aos palmaristas, “vis escravos” a quem “não trataram como gente”, quer dizer, a quem trataram como se fossem bichos. No final das contas, foram os soldados e cabos que se acovardaram que receberam recompensas.
Sem recomendações de seus superiores ou de potentados locais, estes “zebedeus” invocavam a proteção e o testemunho de santo Antônio, de quem traziam o santinho ou a medalha (“junto a mim noite e dia”), e que fora oficialmente declarado patrono e soldado pago das tropas que atacaram Palmares. E no final, o pedido para o que dá o direito de juntar bandoleiros e pilhar índios e quilombolas com a chancela da Coroa. A única saída para quem não tinha nome ou propriedade. O lugar de quem tudo pode no sertão: capitão
Eis o poema em verso quebrado do praça estrepado:
“Ao Conselho Ultramarino
Que tão justiceiro é,
Zebedeu praça de pé
Filho de Braz Vitorino,
Bem moço, quase menino,
Para Palmares marchou,
Pelo que lá se estrepou
Sendo um dos desgraçados,
Que voltaram aleijados
E por fim nada ganhou.

Ali de arcabuz na mão,
Dia e noite combatendo,
De fome e frio morrendo,
Descalço, de pés no chão,
Ao lado do valentão Félix José dos Açôres
Que apenas viu dos horrores,
O painel desenrolar-se
Foi tratando de moscar-se
Com grande sofreguidão.

Do que venho de narrar,
Apesar de ser bolônio,
Pode o padre Santo Antônio
Muito bem corroborar,
O que não é de esperar
Proceda d'outra maneira,
A sua fieira
Sua afeição, valentia,
Pois junto a mim noite e dia
Não desertou da trincheira

Ele viu, bem como eu,
Quando o combate soou
Quando a corneta tocou,
A gente que então correu;
A essa foi que se deu
Como garbosa e valente
Terras,dinheiro, patente
Com grande injustiça e agravos
P'ra aquêles que aos vis escravos
Não trataram como gente.

A vós Conselho afamado
Que a justiça só visais,
Para que não amparais
O pobre do aleijado?
Que no mundo abandonado
Sem ter quem lhe estenda a mão,
Tem por certo a perdição,
Da vida, pois quase morto,
Só poderá ter confôrto,
Se o fizerdes - capitão.”

Quer tenham sido mercenários dos fazendeiros na América, quer fossem milicianos agregados às tropas regulares em Angola, tais combatentes – capitães, cabos e “zebedeus” -, faziam valer seus talentos de bugreiros e de capitães do mato nos dois lados do mar.
Para além dos documentos, e na ausência de outros textos como o poema acima, é preciso considerar a troca de experiências facultada pelo convívio destas tropas tricontinentais, multiétnicas e de variada condição social, cujo traço comum era o Atlântico Sul, e não o Brasil ou Angola. Torna-se essencial mapear os itinerários para saber quem conversava com quem, num mundo em que muita gente sabedora das coisas não sabia escrever. Nos arranchamentos angolanos e brasileiros, nos tombadilhos dos navios que atravessavam o oceano, nos serões africanos e nas selvas americanas, essas tropas compunham um gênero de novo exército colonial de brancos, negros, índios e mestiços que, “de pés no chão”, pilhava rebeldes e nativos dos dois continentes.
Não há exemplo de tropas deste gênero e com este raio de ação, agindo nos outros teatros da moderna expansão européia.

domingo, 17 de maio de 2009

Making of do artigo "Commodities por sapatos" sobre a viagem de Lula

Trecho do livro Tratado das coisas da China (1570), escrito pelo dominicano alentejano, Frei Gaspar da Cruz, pioneiro da sinologia ocidental.

No artigo no caderno Mais, da Folha não falei de um assunto importante, que não estava em pauta, mas é ligado à China . Na entrevista que deu ontem para a Folha, Rodrigo Tavares Maciel, secretário-executivo do Conselho Empresarial Brasil-China, que mora e trabalha na China há 8 anos, ilustrava a falta de interesse com a China, primeira parceira comercial do Brasil: “quando eu visito a embaixada chinesa em Brasília ou o consulado chinês em São Paulo ou no Rio, sou recebido por vários diplomatas chineses que falam português. Não temos ninguém no Itamaraty, ou no governo brasileiro, que fale chinês. Você chega à embaixada brasileira em Pequim e é recebido por secretárias que falam espanhol ou inglês. Não tem cabimento”.

A reflexão poderia ser estendida às universidades brasileiras. Os especialistas brasileiros sobre a China ainda são pouco numerosos. Portugal e os missionários portugueses foram os primeiros europeus a estudar a China a partir da feitoria de Macau, estabelecida desde 1557. O Colégio São Paulo de Macau, dos jesuítas portugueses, formou os primeiros sinólogos do mundo. Macau permaneceu sob soberania portuguesa até 1999. Há, portanto, ampla documentação sobre a China em língua portuguesa, estudada desde sempre pelos especialistas europeus, americanos e asiáticos. Não conheço historiador ou cientista social brasileiro que fale e leia madarim e trabalhe nos arquivos de Macau. Pelo que sei, no departamento de História da USP, a maior universidade do país, a situação até piorou. Nos anos 1980, havia o professor Ricardo Mário Gonçalves que sabia mandarim e dava aulas sobre civilizações do Extremo Oriente. Agora, há muito mais estudantes interessados na China, mas não existe nenhum especialista na área no departemento. Ora, no caso da China, como no caso da África, o papel da história tem um caráter fundador: é essencial para dar a dimensão do tema e abrir caminhos para outros setores das ciências sociais e da biociência.Quando o saudoso Antônio Alçada Baptista dirigia, nos anos 1980-1990 a Fundação Oriente (na época, cheia de dinheiro doado pelos cassinos de Macau) procurou, em vão, projetos de pesquisa brasileiros sobre a China que pudessem serem financiados pela Fundação.

Nunca aconteceu isso antes : na época em que a Inglaterra era a primeira parceira comercial do Brasil, no século XIX, os dirigentes brasileiros sabiam das coisas inglesas, iam a Londres e liam inglês. Idem para os Estados Unidos, primeiro parceiro comercial do Brasil no século XX. Quando se sabe que a formação de especialistas em um novo campo de pesquisas demora uma geração, fica-se perplexo. Taí a África que não me deixa mentir.

No começo dos anos 1960, o Itamaraty viu logo que Portugal ia ser posto para a rua de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé. Na mesma altura, José Honório Rodrigues escreveu um livro pioneiro, Brasil e África,outro horizonte (1961), que abria muitas pistas de pesquisa. Paralelamente, a documentação portuguesa sobre a África era enviada gratuitamente para as grandes universidades brasileiras e muito bem organizada e catalogada no Gabinete Português de Leitura, no Rio. Mas só agora – 40 anos depois, seu doutor ! – no começo do século XXI, começaram a aparecer as primeiras teses brasileiras consistentes sobre a África lusófona. No meio tempo, a produção anglo-saxônica (inglesa, americana, canadense e australiana) tomou distância, formando inclusive importantes especialistas brasileiros de Angola, como Roquinaldo Ferreira e Mariana Cândido, que foram logo recrutados por grandes universidades americanas. (O carioca Roquinaldo, o maior conhecedor do arquivo de Luanda - na opinião do arquivista de là -, e autor de uma tese inovadora sobre Angola feita na Universidade da California, fez concurso para um posto de história África Central na Unicamp e não passou...passons. Teve, na hora, ofertas de universidades americanas e, em especial de Joseph C. Miller, o mais importante especialista mundial da história de Angola, da University of Virginia, onde agora Roquinaldo é um professor muito respeitado).

Outro coisa, falei no artigo sobre o livro (Deleite do estrangeiro em tudo o que é espantoso e maravilhoso) do imã Abdurrahmã Al-Baghdádi que ficou entre 1865 e 1868 no Brasil, esteve no Rio, Bahia e Pernambuco, onde conheceu africanos muçulmanos brasileiros. Há um link do livro traduzido para o inglês por Yacine Daddi Addoun e Renée Soulodre-La France. Conheci Yacine quando estive no Harriet Tubman Center de estudos afroamericanos da Universidade de York (Toronto), é um cara sério, boa praça, que trabalha sobre o fim da escravidão na Argélia e se interessa pelos trabalhos dos historiadores brasileiros que fazem pesquisa sobre Angola.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Conferência conclusa

Outra mesa: Daniel Aarão Reis, Paulo Paranaguà, Kelly Araùjo, Anaïs Fléchet, Hervé Théry


O colóquio sobre o Brasil e o Atlântico Sul foi, creio eu, bastante bom, graças à colaboração de alto nível dos colegas e da presença atenta dos pesquisadores e estudantes.
Ficou faltando alguém da África do Sul (mas haverá um especialista com um capítulo sobre o país nas Atas que serão publicadas) e mais gente sobre a Argentina (idem ). No final das contas, o balanço só aparecerá daqui dois ou três anos: quando tiver saído o volume com as conferências e, sobretudo, quando um colóquio peso pesado na Inglaterra ou nos EUA retomar a temática, mostrando que o Atlântico Sul é uma área histórica e cultural com sua própria especificidade. Se isso não acontecer, a coisa toda continuará mal parada.
A foto acima, no anfiteatro Liard, na Sorbonne, registra o final da primeira sessão da tarde da sexta-feira dia 11. Beatriz Mamigonian (Universidade Federal de SC - Yale) pega o material dela; atrás, o vulto do embaixador Alain Rouquié (presidente da sessão);do lado direito, com uma gravata vermelha, Michael Zeuske, da Universidade de Colônia (Alemanha); ao lado dele Júnia Furtado (Federal de MG); no primeiro plano à direita, Nuno Monteiro da Universidade de Lisboa; na frente da mesa, com os papéis na mão, Joseph Miller, da Universidade de Virginia; ao lado dele, de costas, vosso criado; depois à esquerda, Katia Mattoso ajustando os óculos, Ernestina Carreira (Universidade de Provence) e Serge Gruzinski (École de Hautes Études e CNRS); (e tem gente que diz que ponto-e-vírgula não serve para nada!). No fundo, o quadro de
Richelieu, reitor e reformador da Sorbonne, por Philippe de Champaigne. A foto, de que gostei porque o mostra o movimento das sessões e porque ninguém faz pose, é de José Manuel Santos Pérez, da Universidade de Salamanca.


sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

O padre Antônio Vieira, Maurício de Nassau e o tráfico negreiro

Comemora-se neste ano o 4° centenário do nascimento do padre Antônio Vieira. Perspicaz conselheiro régio, brilhante escritor, orador sacro e visionário, Vieira era também um homem realista sobre as coisas deste baixo mundo. Grande patriota português (curioso que haja gente insistindo em considerá-lo « brasileiro », coisa que não existia na época), Vieira propôs a venda de Pernambuco e Angola aos holandeses nos anos 1640, para fazer as pazes com a Holanda e concentrar o esforço militar português na guerra fronteiriça contra a Espanha. Entre outras coisas, Vieira foi também um constante defensor do tráfico negreiro para o Brasil. Aliás, no meu entender, ele é o autor da mais audaciosa justificação do tráfico negreiro do período colonial.
Em 2004, comemorou-se em Siegen, na Alemanha, o nascimento de Johann Moritz von Nassau-Siegen, mais conhecido em Recife e Luanda como Maurício de Nassau.
Ao seu turno, Nassau é glorificado no Brasil e na Europa pelo seu espírito ilustrado. Mas costuma passar-se sob silêncio que ele também foi um defensor obstinado do tráfico negreiro e um dos principais responsáveis pelo envolvimento dos holandeses no comércio de africanos. Falei sobre isto no colóquio organizado em Siegen (terra natal de Nassau e cidade onde ele está sepultado). Saiu agora o livro coletivo, organizado pelos professores Gerhard Brunn e Cornelius Neutsch, "
Sein Feld war die Welt -Johann Moritz von Nassau-Siegen 1604-1679", com as atas do colóquio. Num dos capítulos falo sobre Nassau e o trato negreiro.
Já escrevi bastante sobre isso em vários lugares.
Aqui mesmo e, mais detalhadamente, no meu livro O Trato dos Viventes.
O padre Antônio Vieira e Maurício de Nassau foram, sem dúvida, dois dos homens mais ilustres que viveram no Brasil colonial. O verdadeiro desafio para o historiador consiste em explicar as razões que os levaram a entrar de cabeça no comércio de escravos. A facilidade intelectual, consiste em pretender que esse assunto não existe ou é de somenos importância. É isso que fazem muitos professores de história do Brasil, de Portugal e da Holanda. É o que faz João Lúcio de Azevedo na biografia do padre Vieira que está sendo reeditada no Brasil. Quem quiser conhecer uma abordagem lúcida sobre o assunto deve ler a biografia de Vieira escrita no século XIX pelo maranhense João Francisco Lisboa, também reeditada no Brasil recentemente.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

As línguas africanas e a língua do Brasil

Torre de Babel, Pieter Brueghel, o Velho, 1563, Kunsthistorisches Museum, Viena

O texto abaixo é parte de uma palestra que fiz na Unicamp em 2006, no colóquio “Caminhos da Língua Portuguesa: África-Brasil”, cujas atas serão publicadas em breve. Aproveito para indicar o excelente sítio de Fátima Kandenge, agora Katulembe, que inclui textos muito interessantes, um dicionário de quicongo e outro de quimbundo.
"Tenho sempre optado por guardar a forma lusitanizada de muitos nomes e topônimos africanos. Como se sabe, o português era língua franca em boa parte da costa ocidental e oriental africana e língua veicular interétnica no reino Congo, e obviamente em Angola, onde era utilizada em todos os documentos oficiais e comerciais.
Assim, ao contrário da maioria dos historiadores e antropólogos, escrevo Congo e não « Kongo ». O motivo é simples : os soberanos congoleses, na sua correspondência com Roma e com as autoridades portuguesas, holandesas, etc., assinavam-se sempre “rey do Congo”. O argumento segundo o qual “Kongo” caracterizaria o antigo reino congolês, distinto dos dois países que hoje têm o nome Congo, não é pertinente : o antigo reino da Dinamarca também não coïncide com as fronteiras da atual Dinamarca e nem por isso se alterou a grafia do país. Na mesma ordem de idéias, escrevo quicongo e não kicongo, Dongo e não Ndongo, Ambuíla e não Mbwila, ambundo e não Mbumdu, e assim por diante. Deste modo, com referência ao som nasal em quimbundo, representado pelo « M » ou « N » antes das consoantes (mbundu, Ndongo), sigo a forma tradicional que às vezes anexa o genitivo « a » (de, da, dos, das) ao nome (ambundo) e outra vez suprime a nasalização da consoante (Dongo).
O uso de formas alegadamente mais próximas da pronúncia nativa, em geral originárias da fonética inglesa (Kwanza ao invés de Cuanza), oferece no mais das vezes uma ilusão de autenticidade. Por que cargas d’água os angolanos, os brasileiros, os portugueses, os moçambicanos – todos os autores lusófonos – podem achar que escrever rainha Nzinga é mais autêntico, quando a rainha ela própria, alfabetizada em português, assinava seu nome como Jinga ? No que me concerne, deixo de lado a transitoriedade do politicamente correto e, fiel à assinatura da rainha de Matamba, continuo a escrever Jinga.
É bem verdade que, a partir de 1987, passaram a vigorar em Angola os alfabetos criados para seis dos vinte idiomas que possuem estatuto de línguas nacionais no país : quicongo (kikongo), quimbundo (kimbundu), chocué (cokwe), umbundo (mbundu), bunda (mbunda) e cuanhama (ocikwanyama). Elaborados por especialistas angolanos e peritos em linguística da UNESCO, estes alfabetos fixaram, em muitos casos, a ortografia que estou criticando. Porém, as incongruências persistem. Continua-se a escrever rio « Cuanza », mas a moeda nacional passou a ter a ortografia « kwanza ». E no final das contas, não se mudou o nome oficial do país de Angola para Ngola. Como se sabe, Ngola era o nome dos reis do Dongo, senhores da região de Luanda na época da conquista portuguesa. Na seqüência, a área começou a ser chamada de terra do Ngola. Daí o aportuguesamento em “Angola”.
Em geral, conserva-se o nome tradicional do país. « Japão » é um transcrição inexata, feita pelas jesuítas portugueses no século XVI, dos caracteres japoneses indicando o nome do país Nippon koku. Uma lei japonesa determinou, em 1934, que o nome oficial do país era Nippon. No entanto, fala-se de cultura « nipônica », mas o país continua sendo chamado de Japão. Algo similar ocorre agora com a Belarus -, nome oficial do país desde 1990 -, referido no resto do mundo pelo seu nome tradicional: Bielorússia.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Salvador e Jamestown: como somos velhos!

João Teixeira Albernaz, Bahia, 1631

Noticia-se a viagem da rainha Elizabeth aos EUA na comemoração do 4° centenário da fundação de Jamestown (Virgínia), primeiro estabelecimento permanente dos ingleses nas Américas. O Herald Tribune retoma um interessante editorial do Boston Globe sobre o assunto.
Doze anos depois dos colonos ingleses, desembarcou em
Jamestown, em 1619, o primeiro grupo de escravos africanos dos futuros EUA. Eram angolanos, inicialmente transportados no navio negreiro português São João Baptista, que se dirigia para o porto de Vera Cruz, no México. No alto mar, o negreiro foi capturado por corsários ingleses. Daí os angolanos foram levados para a Virgínia, onde ajudaram a deslanchar a cultura do tabaco e o crescimento da colônia inglesa.
Nesta época, os portugueses tinham comercializado a quase-totalidade dos cerca de 150 mil africanos deportados para as Américas. No Brasil, haviam desembarcado, no mínimo, 40% deste total, ou seja, 60 mil africanos. Acrescente-se uns 30 mil colonos portugueses e se verá como o Brasil -, sob o impacto de uma colonização luso-africana relativamente densa -, já era velho no nascimento da Virgínia e dos futuros EUA.

Aproveito para lembrar algo fundamental: antes da declaração de Independência dos EUA (1776) ninguém sabia que as colônias européias nas Américas podiam, e iriam, tornar-se nações independentes. Portanto, é disparatado transpor a idéia do Brasil de José Bonifácio ou dos EUA de Benjamin Franklin para Jamestown ou para a Bahia dos séculos XVI e XVII. Como se os colonos destes cantos já soubessem o seu vir a ser, já tivessem a consciência de que seriam independentes, já vivessem numa proto-nação. Muitos, mas muitos mesmo, professores de história dos EUA, do Brasil e do restante dos países americanos (referindo-se aos colonos de seus países) propagam este besteirol nacionalisteiro fabricado no século XIX.

segunda-feira, 26 de março de 2007

O final do tráfico negreiro britânico e o Brasil

Auguste Biard, Esclaves sur la côte ouest-africaine, 1840 , Wilberforce House, Kingston upon Hull Museum and Art Gallery, Hull (Inglaterra)
A BBC criou um sítio – em espanhol e em inglês (mais completo) - sobre os 200 anos da abolição do tráfico negreiro britânico, em 1807. A Folha de S. Paulo publicou no dia 24/03 comentários de historiadores brasileiros sobre este bicentenário (assinante UOL clique aqui). Voltarei ao assunto. No meio tempo, deixo aqui um artigo que publiquei no Estadão, em 17/04/2005, sobre o pedido de perdão de Lula aos africanos, na ilha de Gorée (Senegal), por causa do tráfico negreiro.
Um pedido de desculpas para ficar na história
"A viagem do presidente Lula à África tomou um tom mais simbólico durante a visita à ilha de Gorée, no Senegal, e à Casa dos Escravos. Neste local, venerado como centro da deportação dos escravos, o presidente Lula - acompanhado pelo presidente do Senegal, Abdoulaye Wade, e pelo ministro Gilberto Gil - emocionou-se e declarou: "Eu queria dizer ao presidente Wade, ao povo do Senegal e da África que não tenho nenhuma responsabilidade pelo que aconteceu nos séculos XVI, XVII e XVIII, mas que é uma boa política dizer ao povo do Senegal e da África perdão pelo que fizemos aos negros".
Trata-se de um pronunciamento histórico, da parte do presidente do país que conta com a maior população de origem africana fora da África. Por isso, torna-se necessário situar o evento numa perspectiva mais longa. Note-se algo curioso. Visitada por milhares de pessoas, e pelos presidentes Bush (filho) e Clinton, pelo papa João Paulo II e por Mandela, a Casa dos Escravos tem uma história bizarra. Muito provavelmente, o prédio serviu de depósito de escravos, mas nunca foi - como se pretende - o ponto central do fluxo contínuo de escravos para as Américas. Aliás, não é preciso andar muito para esbarrar em incoerências. Enquanto o curador da Casa dos Escravos conta que 40 milhões de cativos foram embarcados dali, o Museu Histórico de Gorée, situado pouco adiante e dirigido por historiadores sérios, apresenta a cifra aceita pela maioria dos pesquisadores -perto de 10,5 milhões de escravos saídos de toda a África para as Américas. De qualquer modo, o lugar tornou-se um símbolo que ultrapassa a veracidade factual: é ali que os afro-americanos e as pessoas de boa vontade se recolhem para meditar sobre a tragédia do tráfico negreiro.
Luanda
Há outros portos mais relevantes que permanecem apagados da memória. Como a ilha de Luanda, na frente da capital de Angola.Centenas de milhares de escravos foram embarcados ali, geralmente para o Brasil, fazendo da região o mais movimentado porto negreiro da África. Mas pouca gente sabe disso, e o lugar é freqüentado por turistas em busca de suas praias. Nesse sentido, a Casa dos Escravos guarda toda a sua importância. Em novembro de 2003, quando visitou Luanda, o presidente Lula fez um discurso mencionando o drama dos escravos angolanos trazidos para o Brasil e os "laços de sangue" unindo nossos povos. Na mesma viagem, deu declarações sobre o peso da escravidão no Brasil, quando esteve em Moçambique. Mas as frases se perderam nas entrelinhas dos jornais.

É preciso notar que Angola foi visitada por outros dois presidentes brasileiros. Mas nem Sarney (em 1989), que fizera um discurso corajoso sobre a escravidão no centenário da Abolição, em 1988, nem Fernando Henrique (em Luanda, em 1996), autor de um importante livro sobre o escravismo, manifestaram-se sobre esse tema tão candente. Outra foi a atitude do presidente Clinton, que, em sua viagem a Uganda (1998), pediu desculpas pelo envolvimento dos norte-americanos na escravização dos africanos.
EUA e Brasil
Ora, comparado com o Brasil, o comprometimento norte-americano no tráfico negreiro foi muito relativo: os EUA receberam perto de 600 mil escravos africanos (6%), enquanto o Brasil é o maior beneficiário do tráfico, com perto de 4 milhões de indivíduos (40% do total). Mais ainda, os colonos do Brasil, desde o século XVII, e os brasileiros propriamente ditos, de 1822 a 1850, tiveram participação ativa no saque direto dos povos africanos, sobretudo em Angola. Só os colonos do Brasil tiveram essa implicação na pilhagem negreira. Só o Brasil, como nação independente, foi tão fundo no tráfico e na escravidão. O fato é conhecido dos historiadores e diplomatas. Ao longo de seus cursos no Itamaraty, nossos diplomatas devem ter tido informação sobre a maior encrenca nessa área enfrentada pelo País: o conflito com a Inglaterra em torno da continuação do tráfico negreiro. Embora esse comércio fosse ilegal, e considerado ato de pirataria pelas leis brasileiras, havia gente como o senador mineiro Bernardo Pereira de Vasconcelos - eminente pai da Pátria - achando que permanecer importando escravos era assunto de soberania nacional. Faltava, portanto, um pronunciamento oficial sobre o assunto em solo africano. Faltava um gesto significativo para marcar o sentimento já expresso pelo presidente Lula em sua precedente viagem à África. O local escolhido foi a ilha de Gorée, tudo bem. Mas a fala - que deveria ter sido bem preparada -saiu enviesada. O presidente eximiu-se pessoalmente ("...não tenho nenhuma responsabilidade pelo que aconteceu nos séculos XVI, XVII e XVIII"). Obviamente, o indivíduo Lula não tem nada a ver com o que ocorreu em qualquer parte do planeta antes de sua maioridade. Mas deveria ter assumido seu papel de presidente de um país escravista e negreiro durante mais de três séculos. Contudo, Lula concluiu de maneira generosa: "Essas pessoas (os africanos) e seu sofrimento ajudaram a construir o meu país. Se não fosse a miscigenação, não teríamos o povo maravilhoso que é o brasileiro". O presidente poderia ter dito um pouco mais. Conservadas as atuais projeções demográficas (declínio da natalidade da população branca e queda mais lenta da natalidade dos negros e mulatos), o Brasil será, dentro de duas décadas, uma nação composta majoritariamente por cidadãos descendentes de africanos. Fechar-se-á, assim, um ciclo: antes de 1850 também éramos uma nação formada em sua maioria por negros e mulatos.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

I - A colonização luso-africana no Brasil

Os três posts que se seguem são parte do texto que redigi, a pedido do Ministério da Cultura, para o Plano Nacional de Cultura, apresentado ao Congresso em dezembro de 2006.
'Na época do descobrimento do Brasil, Lisboa, ao lado de Sevilha, era a cidade européia que possuía a mais forte concentração de escravos negros. Nos anos 1550-1560, dentre os 100.000 habitantes que contava a capital portuguesa, havia perto de 10.000 escravos negros ou mulatos. Nos séculos XVI e XVII, desenvolve-se uma cultura luso-africana nas ilhas de Cabo Verde, São Tomé e de Madeira. Assim, os colonos que chegavam no Brasil vindos da Madeira e de São Tomé, e muitos saídos do próprio reino, já compartilhavam modos vida luso-africanos.
Escravos especializados e senhores que migravam de São Tomé ajudaram a implantar a cultura açucareira em Pernambuco e na Bahia. Conectado de início nos portos da Senegâmbia e do golfo da Guiné, o tráfico negreiro se concentra em Angola no século XVII. Por volta de 1600, o total dos desembarques no Brasil completava 50.000 africanos. A partir de então, os enclaves coloniais ganham uma feição luso-africana.
Ambrósio Fernandes Brandão, mercador em Goa e em Lisboa antes de viver na Paraíba, era um dos raros colonos do Brasil dotado de uma visão de conjunto do império português do Oriente e do Atlântico. No seu livro
Diálogos das Grandezas do Brasil, (1618), ele situa as particularidades da colônia sul-americana. Após uma digressão sobre os povos da África, um dos personagens diz o seguinte: “Não cuido [penso] que nos desviamos de nossa prática, que é tratar sómente das grandezas do Brasil, com nos meter em dar definição à matéria que tendes proposta [a origem dos povos negros]. Porquanto neste Brasil se há criado um novo Guiné com a grande multidão de escravos vindos dela que nêle se acham. Em tanto que, em algumas capitanias, há mais dêles que dos naturais da terra, e todos os homens que nele vivem tem metida quase tôda sua fazenda em semelhante mercadoria. Pelo que, havendo no Brasil tanta gente desta côr preta e cabelo retorcido, não nos desviamos de nossa prática em tratar dela ».
O Brasil é um novo Guiné. A afirmação sublinha o processo de repovoamento colonial. Outros estrangeiros, os africanos, substituem progressivamente os índios nos enclaves coloniais para construir a sociedade ultramarina. Embora submetidos à escravidão, os africanos são co-participantes, ao lado dos portugueses, da colonização do Brasil. Desde 1700, quando 610.000 escravos já haviam desembarcado, os africanos e os negros em geral, fixados nas zonas de maior atividade ecônomica, sobrepujam os colonos europeus e seus descedentes, como também os índios aldeados (concentrados nos aldeamentos controlados pelas autoridades).
A emergência de um polígono mineiro cobrindo o Mato Grosso, Goiás, Pernambuco (em território agora baiano), e centrado em Minas Gerais, muda a sociedade colonial. Este movimento de populações, de construção de caminhos e de pólos urbanos no interior, vincula-se às atividades de 1.700.000 africanos desembarcados no século XVIII. Atente-se para o fato de que o crescimento no interior, e a manutenção da agricultura comercial no litoral, só puderam ser levados a cabo simultâneamente por causa da intensificação do tráfico negreiro. Neste período, todas as regiões da América portuguesa, do Pará ao Rio Grande do Sul, estão conectadas ao comércio de escravos que envolve de novo a Guiné Bissau e se expande no gôlfo de Guiné e em Angola.

II - O Império e o complô dos seqüestradores

Com a transferência da Corte e a aceleração do processo político que levaria o país à Independência, o tráfico negreiro assume outro patamar. Às zonas africanas citadas acima, junta-se também Moçambique, de onde saem 250.000 escravos que desembarcam sobretudo no Rio de Janeiro. Perto de 1.700.000 africanos são trazidos para o Brasil na primeira metade do século XIX.
Outra característica da formação do Brasil terá sido o envolvimento direto de colonos do Brasil, numa primeira fase, e de brasileiros, depois de 1822, no comércio atlântico de africanos, e na pilhagem dos territórios africanos, principalmente no gôlfo do Benim e em Angola.
Governadores de Angola, oriundos do Rio de Janeiro, de Pernambuco e da Paraíba, levaram para a África Central, na segunda metade do século XVII, associados, soldados e comerciantes que expandiram a ocupação portuguesa e o tráfico de angolanos para o Brasil.
De 1831 a 1856, 710.000 africanos entram no Brasil num circuito de tráfico clandestino prescrito como pirataria pela legislação brasileira e pelo direito internacional. Além do mais, a lei de 1831, proibindo a importação de africanos, declarava livres os indivíduos introduzidos clandestinamente. Em consequência, o art. 179 do Código Penal considerava os proprietários destes escravos como sequestradores de pessoas livres. Posteriormente, em 1850 e 1854, o governo anistiou os proprietários culpados deste crime. Mas ocultou-se o fato que os 700.000 africanos chegados entre 1831 e 1850 -, e seus descendentes -, permaneciam ilegalmente na escravidão. Tirante a ação de alguns advogados e magistrados abolicionistas, o assunto ficará encoberto na segunda metade do século XIX e será praticamente esquecido pelas gerações vindouras.
Resta que este « Grande Complô dos Sequestradores » guarda um significado dramático : a quase totalidade dos indivíduos escravizados a partir dos anos 1840-1850 foi ilegalmente mantida na escravidão até 1888. Moralmente ilegítima, a escravidão do Segundo Reinado foi gerida por proprietários criminosos, graças à cumplicidade do Estado e da sociedade.

domingo, 21 de janeiro de 2007

Passado Recente

Da Serra do Mar para a Baixada Fluminense, corre o rio Gandú. Ou Guandu. No sul da Bahia também há um rio com este nome. Devem existir outros pelo Brasil afora. Penso que o nome vem do quimbundo Ngandú, que quer dizer crocodilo e, portanto, jacaré (o Houaiss que, como os outros dicionários brasileiros, dá pouca atenção às línguas africanas, menciona gando e ignora este sentido da palavra gandu).
Havia jacarés nestes rios e o pessoal angolano deportado para o Brasil começou a chamá-los de Gandú. Se estiver certo, trata-se de um caso raro de topônimo fluvial angolano e africano, visto que a esmagadora maioria dos rios brasileiros têm nome indígena ou português.
Nos anos 1960, o Guandu foi o teatro de uma história sinistra, quando cadáveres de mendigos cariocas apareceram nas suas águas e nas suas margens. Era a operação “Mata-Mendigos”, denunciada pela imprensa durante o governo de Carlos Lacerda no ex-Estado da Guanabara (1960-1965). Funcionários da truculenta “Seção de repressão à mendicância » do governo Lacerda foram ouvidos numa CPI da Assembléia do Rio Janeiro, em 1963.
Um filme sobre o assunto, baseado no romance do autor argentino-chileno
Jorge Diaz, está sendo concluído em São Paulo. Intitulado, como o livro, “Topografia de um desnudo”, ele é realizado por Teresa Aguiar e tem Ney Latorraca como principal ator.
Nas reportagens sobre o filme, está dito que “Operação Mata-Mendigos” foi desencadeada para “limpar” o Rio de Janeiro antes da visita da rainha da Inglaterra. Ney Latorraca repete a mesma história no vídeo da reportagem do UOL.
Parece que alguém ai se enganou. A “Operação Mata-Mendigos” - retrato do desejo de “limpeza social” que campeia no Brasil - data de 1963, e o livro de Jorge Diaz foi publicado em 1967. Acontece que a rainha Elizabeth II só visitou o Brasil em novembro de 1968.
O governo do Rio de Janeiro anuncia agora um grande plano de reflorestamento das margens do rio Guandu, intitulado
“Muda Guandu!”. Tudo isso porque o rio fornece 80% do abastecimento de água do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense.
Com cores de Franz Post, a foto de Cosme Aquino, ai em cima, traz a promessa do renascimento do Guandu. Tomara que sim, e que a jovens árvores da Mata Atlântica sepultem seu passado poluído e trágico.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Angola, Argélia, Texas e Iraque


Bush revelou numa entrevista recente que, aconselhado por Henry Kissinger, estava lendo o livro de Alistair Horne, sobre a guerra da Argélia, A Savage War of Peace – Algeria 1954-1962.
Alistair Horne é um celebrado autor e historiador inglês especializado na história contemporânea francesa. Seu livro, publicado em 1978, é meio datado. Não toma em conta novas pesquisas, elaboradas com testemunhos argelinos e franceses, e documentos oficiais tornados públicos mais tarde (nos estudos de história recente, a renovação das fontes documentais pode envelhecer um livro rapidamente). Mas é uma obra importante.
Porém, achei estranhas algumas ilações feitas à partir do livro, comparando a situação dos franceses na Argélia, nos anos 1950, com a dos americanos no Iraque. Maureen Dowd tratou o tema de maneira irônica, ontem, no New York Times (reservado aos assinantes, mas achei outro
link).
Há, é claro, a idéia central de Horne: uma guerra pode ser ganha militarmente e perdida politicamente. Mas isto já estava explicado no grande filme de Giulio Pontecorvo, A Batalha de Argel (1965), o qual tem sido mostrado aos militares americanos envolvidos no Iraque.
Quanto ao resto, tudo separa a Argélia, colônia de povoamento francesa desde de 1830, do Iraque atual.
Para se ter uma idéia, os franceses estavam mais enraizados na Argélia, do que os portugueses em Angola, onde haviam chegado em 1575. Em 1900, já havia cerca de 400.000 colonos franceses na Argélia. Na mesma época, Angola contava somente 10.000 colonos portugueses.
Assim, a guerra da Argélia se desenrolava num contexto colonial e histórico muito mais profundo que o da guerra do Iraque. Mal comparando, numa situação de ficção histórica, seria como se os chicanos do Texas (independente do México em 1836 e anexado pelos EUA em 1845), mantidos num estatuto colonial mas dotados de uma maioria demográfica, tivessem desencadeado em 1954 um luta de independência contra os colonos americanos.

P. S. – Hoje, 23/01/2007, o
Le Monde fez um comentário sobre este assunto

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

Arraes II

No Le Monde de 17/08/2005 publiquei um artigo, do qual traduzo trechos falando da “segunda vida” política de Miguel Arraes no exílio.
"Nascido em 1916, numa velha família do Nordeste do Brasil, Miguel Arraes cresceu no coração do sertão....Em 1959 torna-se prefeito de Recife. Três anos mais tarde, liderando uma frente de partidos de esquerda, ele é eleito governador de Pernambuco. Suas iniciativas desembocam no movimento de alfabetização popular e na instauração, pela primeira vez no Brasil, de um salário mínimo para os trabalhadores rurais... Nos preparativos para a eleição presidencial de 1965, ele aparece como um dos presidenciáveis dos movimentos de esquerda. Mas o golpe de 1964, quebra a ordem constitucional. Arraes é incarcerado numa caserna em Fernando de Noronha.
Na seqüência de um julgamento do STF, que ainda resistia à ditadura, e de uma campanha internacional da qual participaram, entre outros, François Mauriac e Graham Greene, Arraes é libertado em 1965. Ele deixa o Brasil e viaja para a Argélia, onde é recebido como exilado político.
Começa então a segunda vida de Miguel Arraes.

Acolhido com deferência pelo governo argelino, Arraes se aproxima dos dirigentes dos movimentos anticoloniais da África lusófona. Dividos em facções rivais, estes movimentos disputavam o acesso ao governo argelino e à Organisação de União Africana (homóloga à OEA). Arraes foi um dos que ajudaram o MPLA (Movimento Popular pela Libertação de Angola) e o FRELIMO (Frente pela Libertação de Moçambique) a fortalecer suas relações políticas em Argel. Depois da Independência de Moçambique (1974) e de Angola (1975), Arraes foi recebido em Luanda e em Maputo com honras de chefe de Estado. Nesta época, ele também teve um real prestígio em Lisboa, participando em reuniões com os militares de esquerda que dirigiam Portugal após a Revolução dos cravos. Entrementes, a situação política brasileira se modificava, após a vitória obtida pelo MDB em 1974. Arraes viaja então frequemente para Paris, unindo os laços entre a esquerda francesa e a nova oposição que emergia no Brasil.
Com a anistia de 1979, ele retorna a Recife onde é acolhido num grande comício popular... Com a morte de Miguel Arraes, a esquerda brasileira perde um de seus líderes mais prestigiosos e um dos seus raros dirigentes a ter participado do movimento de independência das colônias portuguesas na África."