sábado, 14 de agosto de 2010
FLIP, PARATY, FHC, GILBERTO FREYRE, SALAZAR E O COLONIALISMO
sábado, 24 de outubro de 2009
Homenagem antecipada ao aniversário da morte de Zumbi dos Palmares

domingo, 17 de maio de 2009
Making of do artigo "Commodities por sapatos" sobre a viagem de Lula
No artigo no caderno Mais, da Folha não falei de um assunto importante, que não estava em pauta, mas é ligado à China . Na entrevista que deu ontem para a Folha, Rodrigo Tavares Maciel, secretário-executivo do Conselho Empresarial Brasil-China, que mora e trabalha na China há 8 anos, ilustrava a falta de interesse com a China, primeira parceira comercial do Brasil: “quando eu visito a embaixada chinesa em Brasília ou o consulado chinês em São Paulo ou no Rio, sou recebido por vários diplomatas chineses que falam português. Não temos ninguém no Itamaraty, ou no governo brasileiro, que fale chinês. Você chega à embaixada brasileira em Pequim e é recebido por secretárias que falam espanhol ou inglês. Não tem cabimento”.
A reflexão poderia ser estendida às universidades brasileiras. Os especialistas brasileiros sobre a China ainda são pouco numerosos. Portugal e os missionários portugueses foram os primeiros europeus a estudar a China a partir da feitoria de Macau, estabelecida desde 1557. O Colégio São Paulo de Macau, dos jesuítas portugueses, formou os primeiros sinólogos do mundo. Macau permaneceu sob soberania portuguesa até 1999. Há, portanto, ampla documentação sobre a China em língua portuguesa, estudada desde sempre pelos especialistas europeus, americanos e asiáticos. Não conheço historiador ou cientista social brasileiro que fale e leia madarim e trabalhe nos arquivos de Macau. Pelo que sei, no departamento de História da USP, a maior universidade do país, a situação até piorou. Nos anos 1980, havia o professor Ricardo Mário Gonçalves que sabia mandarim e dava aulas sobre civilizações do Extremo Oriente. Agora, há muito mais estudantes interessados na China, mas não existe nenhum especialista na área no departemento. Ora, no caso da China, como no caso da África, o papel da história tem um caráter fundador: é essencial para dar a dimensão do tema e abrir caminhos para outros setores das ciências sociais e da biociência.Quando o saudoso Antônio Alçada Baptista dirigia, nos anos 1980-1990 a Fundação Oriente (na época, cheia de dinheiro doado pelos cassinos de Macau) procurou, em vão, projetos de pesquisa brasileiros sobre a China que pudessem serem financiados pela Fundação.
Nunca aconteceu isso antes : na época em que a Inglaterra era a primeira parceira comercial do Brasil, no século XIX, os dirigentes brasileiros sabiam das coisas inglesas, iam a Londres e liam inglês. Idem para os Estados Unidos, primeiro parceiro comercial do Brasil no século XX. Quando se sabe que a formação de especialistas em um novo campo de pesquisas demora uma geração, fica-se perplexo. Taí a África que não me deixa mentir.
No começo dos anos 1960, o Itamaraty viu logo que Portugal ia ser posto para a rua de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé. Na mesma altura, José Honório Rodrigues escreveu um livro pioneiro, Brasil e África,outro horizonte (1961), que abria muitas pistas de pesquisa. Paralelamente, a documentação portuguesa sobre a África era enviada gratuitamente para as grandes universidades brasileiras e muito bem organizada e catalogada no Gabinete Português de Leitura, no Rio. Mas só agora – 40 anos depois, seu doutor ! – no começo do século XXI, começaram a aparecer as primeiras teses brasileiras consistentes sobre a África lusófona. No meio tempo, a produção anglo-saxônica (inglesa, americana, canadense e australiana) tomou distância, formando inclusive importantes especialistas brasileiros de Angola, como Roquinaldo Ferreira e Mariana Cândido, que foram logo recrutados por grandes universidades americanas. (O carioca Roquinaldo, o maior conhecedor do arquivo de Luanda - na opinião do arquivista de là -, e autor de uma tese inovadora sobre Angola feita na Universidade da California, fez concurso para um posto de história África Central na Unicamp e não passou...passons. Teve, na hora, ofertas de universidades americanas e, em especial de Joseph C. Miller, o mais importante especialista mundial da história de Angola, da University of Virginia, onde agora Roquinaldo é um professor muito respeitado).
Outro coisa, falei no artigo sobre o livro (Deleite do estrangeiro em tudo o que é espantoso e maravilhoso) do imã Abdurrahmã Al-Baghdádi que ficou entre 1865 e 1868 no Brasil, esteve no Rio, Bahia e Pernambuco, onde conheceu africanos muçulmanos brasileiros. Há um link do livro traduzido para o inglês por Yacine Daddi Addoun e Renée Soulodre-La France. Conheci Yacine quando estive no Harriet Tubman Center de estudos afroamericanos da Universidade de York (Toronto), é um cara sério, boa praça, que trabalha sobre o fim da escravidão na Argélia e se interessa pelos trabalhos dos historiadores brasileiros que fazem pesquisa sobre Angola.
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Conferência conclusa
Ficou faltando alguém da África do Sul (mas haverá um especialista com um capítulo sobre o país nas Atas que serão publicadas) e mais gente sobre a Argentina (idem ). No final das contas, o balanço só aparecerá daqui dois ou três anos: quando tiver saído o volume com as conferências e, sobretudo, quando um colóquio peso pesado na Inglaterra ou nos EUA retomar a temática, mostrando que o Atlântico Sul é uma área histórica e cultural com sua própria especificidade. Se isso não acontecer, a coisa toda continuará mal parada.
A foto acima, no anfiteatro Liard, na Sorbonne, registra o final da primeira sessão da tarde da sexta-feira dia 11. Beatriz Mamigonian (Universidade Federal de SC - Yale) pega o material dela; atrás, o vulto do embaixador Alain Rouquié (presidente da sessão);do lado direito, com uma gravata vermelha, Michael Zeuske, da Universidade de Colônia (Alemanha); ao lado dele Júnia Furtado (Federal de MG); no primeiro plano à direita, Nuno Monteiro da Universidade de Lisboa; na frente da mesa, com os papéis na mão, Joseph Miller, da Universidade de Virginia; ao lado dele, de costas, vosso criado; depois à esquerda, Katia Mattoso ajustando os óculos, Ernestina Carreira (Universidade de Provence) e Serge Gruzinski (École de Hautes Études e CNRS); (e tem gente que diz que ponto-e-vírgula não serve para nada!). No fundo, o quadro de Richelieu, reitor e reformador da Sorbonne, por Philippe de Champaigne. A foto, de que gostei porque o mostra o movimento das sessões e porque ninguém faz pose, é de José Manuel Santos Pérez, da Universidade de Salamanca.
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
O padre Antônio Vieira, Maurício de Nassau e o tráfico negreiro

Em 2004, comemorou-se em Siegen, na Alemanha, o nascimento de Johann Moritz von Nassau-Siegen, mais conhecido em Recife e Luanda como Maurício de Nassau.
Ao seu turno, Nassau é glorificado no Brasil e na Europa pelo seu espírito ilustrado. Mas costuma passar-se sob silêncio que ele também foi um defensor obstinado do tráfico negreiro e um dos principais responsáveis pelo envolvimento dos holandeses no comércio de africanos. Falei sobre isto no colóquio organizado em Siegen (terra natal de Nassau e cidade onde ele está sepultado). Saiu agora o livro coletivo, organizado pelos professores Gerhard Brunn e Cornelius Neutsch, "Sein Feld war die Welt -Johann Moritz von Nassau-Siegen 1604-1679", com as atas do colóquio. Num dos capítulos falo sobre Nassau e o trato negreiro.
Já escrevi bastante sobre isso em vários lugares. Aqui mesmo e, mais detalhadamente, no meu livro O Trato dos Viventes.
O padre Antônio Vieira e Maurício de Nassau foram, sem dúvida, dois dos homens mais ilustres que viveram no Brasil colonial. O verdadeiro desafio para o historiador consiste em explicar as razões que os levaram a entrar de cabeça no comércio de escravos. A facilidade intelectual, consiste em pretender que esse assunto não existe ou é de somenos importância. É isso que fazem muitos professores de história do Brasil, de Portugal e da Holanda. É o que faz João Lúcio de Azevedo na biografia do padre Vieira que está sendo reeditada no Brasil. Quem quiser conhecer uma abordagem lúcida sobre o assunto deve ler a biografia de Vieira escrita no século XIX pelo maranhense João Francisco Lisboa, também reeditada no Brasil recentemente.
sábado, 2 de fevereiro de 2008
As línguas africanas e a língua do Brasil

O uso de formas alegadamente mais próximas da pronúncia nativa, em geral originárias da fonética inglesa (Kwanza ao invés de Cuanza), oferece no mais das vezes uma ilusão de autenticidade. Por que cargas d’água os angolanos, os brasileiros, os portugueses, os moçambicanos – todos os autores lusófonos – podem achar que escrever rainha Nzinga é mais autêntico, quando a rainha ela própria, alfabetizada em português, assinava seu nome como Jinga ? No que me concerne, deixo de lado a transitoriedade do politicamente correto e, fiel à assinatura da rainha de Matamba, continuo a escrever Jinga.
É bem verdade que, a partir de 1987, passaram a vigorar em Angola os alfabetos criados para seis dos vinte idiomas que possuem estatuto de línguas nacionais no país : quicongo (kikongo), quimbundo (kimbundu), chocué (cokwe), umbundo (mbundu), bunda (mbunda) e cuanhama (ocikwanyama). Elaborados por especialistas angolanos e peritos em linguística da UNESCO, estes alfabetos fixaram, em muitos casos, a ortografia que estou criticando. Porém, as incongruências persistem. Continua-se a escrever rio « Cuanza », mas a moeda nacional passou a ter a ortografia « kwanza ». E no final das contas, não se mudou o nome oficial do país de Angola para Ngola. Como se sabe, Ngola era o nome dos reis do Dongo, senhores da região de Luanda na época da conquista portuguesa. Na seqüência, a área começou a ser chamada de terra do Ngola. Daí o aportuguesamento em “Angola”.
Em geral, conserva-se o nome tradicional do país. « Japão » é um transcrição inexata, feita pelas jesuítas portugueses no século XVI, dos caracteres japoneses indicando o nome do país Nippon koku. Uma lei japonesa determinou, em 1934, que o nome oficial do país era Nippon. No entanto, fala-se de cultura « nipônica », mas o país continua sendo chamado de Japão. Algo similar ocorre agora com a Belarus -, nome oficial do país desde 1990 -, referido no resto do mundo pelo seu nome tradicional: Bielorússia.
sexta-feira, 4 de maio de 2007
Salvador e Jamestown: como somos velhos!

Doze anos depois dos colonos ingleses, desembarcou em Jamestown, em 1619, o primeiro grupo de escravos africanos dos futuros EUA. Eram angolanos, inicialmente transportados no navio negreiro português São João Baptista, que se dirigia para o porto de Vera Cruz, no México. No alto mar, o negreiro foi capturado por corsários ingleses. Daí os angolanos foram levados para a Virgínia, onde ajudaram a deslanchar a cultura do tabaco e o crescimento da colônia inglesa.
Nesta época, os portugueses tinham comercializado a quase-totalidade dos cerca de 150 mil africanos deportados para as Américas. No Brasil, haviam desembarcado, no mínimo, 40% deste total, ou seja, 60 mil africanos. Acrescente-se uns 30 mil colonos portugueses e se verá como o Brasil -, sob o impacto de uma colonização luso-africana relativamente densa -, já era velho no nascimento da Virgínia e dos futuros EUA.
Aproveito para lembrar algo fundamental: antes da declaração de Independência dos EUA (1776) ninguém sabia que as colônias européias nas Américas podiam, e iriam, tornar-se nações independentes. Portanto, é disparatado transpor a idéia do Brasil de José Bonifácio ou dos EUA de Benjamin Franklin para Jamestown ou para a Bahia dos séculos XVI e XVII. Como se os colonos destes cantos já soubessem o seu vir a ser, já tivessem a consciência de que seriam independentes, já vivessem numa proto-nação. Muitos, mas muitos mesmo, professores de história dos EUA, do Brasil e do restante dos países americanos (referindo-se aos colonos de seus países) propagam este besteirol nacionalisteiro fabricado no século XIX.
segunda-feira, 26 de março de 2007
O final do tráfico negreiro britânico e o Brasil

"A viagem do presidente Lula à África tomou um tom mais simbólico durante a visita à ilha de Gorée, no Senegal, e à Casa dos Escravos. Neste local, venerado como centro da deportação dos escravos, o presidente Lula - acompanhado pelo presidente do Senegal, Abdoulaye Wade, e pelo ministro Gilberto Gil - emocionou-se e declarou: "Eu queria dizer ao presidente Wade, ao povo do Senegal e da África que não tenho nenhuma responsabilidade pelo que aconteceu nos séculos XVI, XVII e XVIII, mas que é uma boa política dizer ao povo do Senegal e da África perdão pelo que fizemos aos negros".
Trata-se de um pronunciamento histórico, da parte do presidente do país que conta com a maior população de origem africana fora da África. Por isso, torna-se necessário situar o evento numa perspectiva mais longa. Note-se algo curioso. Visitada por milhares de pessoas, e pelos presidentes Bush (filho) e Clinton, pelo papa João Paulo II e por Mandela, a Casa dos Escravos tem uma história bizarra. Muito provavelmente, o prédio serviu de depósito de escravos, mas nunca foi - como se pretende - o ponto central do fluxo contínuo de escravos para as Américas. Aliás, não é preciso andar muito para esbarrar em incoerências. Enquanto o curador da Casa dos Escravos conta que 40 milhões de cativos foram embarcados dali, o Museu Histórico de Gorée, situado pouco adiante e dirigido por historiadores sérios, apresenta a cifra aceita pela maioria dos pesquisadores -perto de 10,5 milhões de escravos saídos de toda a África para as Américas. De qualquer modo, o lugar tornou-se um símbolo que ultrapassa a veracidade factual: é ali que os afro-americanos e as pessoas de boa vontade se recolhem para meditar sobre a tragédia do tráfico negreiro.
Há outros portos mais relevantes que permanecem apagados da memória. Como a ilha de Luanda, na frente da capital de Angola.Centenas de milhares de escravos foram embarcados ali, geralmente para o Brasil, fazendo da região o mais movimentado porto negreiro da África. Mas pouca gente sabe disso, e o lugar é freqüentado por turistas em busca de suas praias. Nesse sentido, a Casa dos Escravos guarda toda a sua importância. Em novembro de 2003, quando visitou Luanda, o presidente Lula fez um discurso mencionando o drama dos escravos angolanos trazidos para o Brasil e os "laços de sangue" unindo nossos povos. Na mesma viagem, deu declarações sobre o peso da escravidão no Brasil, quando esteve em Moçambique. Mas as frases se perderam nas entrelinhas dos jornais.
É preciso notar que Angola foi visitada por outros dois presidentes brasileiros. Mas nem Sarney (em 1989), que fizera um discurso corajoso sobre a escravidão no centenário da Abolição, em 1988, nem Fernando Henrique (em Luanda, em 1996), autor de um importante livro sobre o escravismo, manifestaram-se sobre esse tema tão candente. Outra foi a atitude do presidente Clinton, que, em sua viagem a Uganda (1998), pediu desculpas pelo envolvimento dos norte-americanos na escravização dos africanos.
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007
I - A colonização luso-africana no Brasil
'Na época do descobrimento do Brasil, Lisboa, ao lado de Sevilha, era a cidade européia que possuía a mais forte concentração de escravos negros. Nos anos 1550-1560, dentre os 100.000 habitantes que contava a capital portuguesa, havia perto de 10.000 escravos negros ou mulatos. Nos séculos XVI e XVII, desenvolve-se uma cultura luso-africana nas ilhas de Cabo Verde, São Tomé e de Madeira. Assim, os colonos que chegavam no Brasil vindos da Madeira e de São Tomé, e muitos saídos do próprio reino, já compartilhavam modos vida luso-africanos.
Escravos especializados e senhores que migravam de São Tomé ajudaram a implantar a cultura açucareira em Pernambuco e na Bahia. Conectado de início nos portos da Senegâmbia e do golfo da Guiné, o tráfico negreiro se concentra em Angola no século XVII. Por volta de 1600, o total dos desembarques no Brasil completava 50.000 africanos. A partir de então, os enclaves coloniais ganham uma feição luso-africana.
Ambrósio Fernandes Brandão, mercador em Goa e em Lisboa antes de viver na Paraíba, era um dos raros colonos do Brasil dotado de uma visão de conjunto do império português do Oriente e do Atlântico. No seu livro Diálogos das Grandezas do Brasil, (1618), ele situa as particularidades da colônia sul-americana. Após uma digressão sobre os povos da África, um dos personagens diz o seguinte: “Não cuido [penso] que nos desviamos de nossa prática, que é tratar sómente das grandezas do Brasil, com nos meter em dar definição à matéria que tendes proposta [a origem dos povos negros]. Porquanto neste Brasil se há criado um novo Guiné com a grande multidão de escravos vindos dela que nêle se acham. Em tanto que, em algumas capitanias, há mais dêles que dos naturais da terra, e todos os homens que nele vivem tem metida quase tôda sua fazenda em semelhante mercadoria. Pelo que, havendo no Brasil tanta gente desta côr preta e cabelo retorcido, não nos desviamos de nossa prática em tratar dela ».
O Brasil é um novo Guiné. A afirmação sublinha o processo de repovoamento colonial. Outros estrangeiros, os africanos, substituem progressivamente os índios nos enclaves coloniais para construir a sociedade ultramarina. Embora submetidos à escravidão, os africanos são co-participantes, ao lado dos portugueses, da colonização do Brasil. Desde 1700, quando 610.000 escravos já haviam desembarcado, os africanos e os negros em geral, fixados nas zonas de maior atividade ecônomica, sobrepujam os colonos europeus e seus descedentes, como também os índios aldeados (concentrados nos aldeamentos controlados pelas autoridades).
A emergência de um polígono mineiro cobrindo o Mato Grosso, Goiás, Pernambuco (em território agora baiano), e centrado em Minas Gerais, muda a sociedade colonial. Este movimento de populações, de construção de caminhos e de pólos urbanos no interior, vincula-se às atividades de 1.700.000 africanos desembarcados no século XVIII. Atente-se para o fato de que o crescimento no interior, e a manutenção da agricultura comercial no litoral, só puderam ser levados a cabo simultâneamente por causa da intensificação do tráfico negreiro. Neste período, todas as regiões da América portuguesa, do Pará ao Rio Grande do Sul, estão conectadas ao comércio de escravos que envolve de novo a Guiné Bissau e se expande no gôlfo de Guiné e em Angola.
II - O Império e o complô dos seqüestradores
Outra característica da formação do Brasil terá sido o envolvimento direto de colonos do Brasil, numa primeira fase, e de brasileiros, depois de 1822, no comércio atlântico de africanos, e na pilhagem dos territórios africanos, principalmente no gôlfo do Benim e em Angola.
Governadores de Angola, oriundos do Rio de Janeiro, de Pernambuco e da Paraíba, levaram para a África Central, na segunda metade do século XVII, associados, soldados e comerciantes que expandiram a ocupação portuguesa e o tráfico de angolanos para o Brasil.
De 1831 a 1856, 710.000 africanos entram no Brasil num circuito de tráfico clandestino prescrito como pirataria pela legislação brasileira e pelo direito internacional. Além do mais, a lei de 1831, proibindo a importação de africanos, declarava livres os indivíduos introduzidos clandestinamente. Em consequência, o art. 179 do Código Penal considerava os proprietários destes escravos como sequestradores de pessoas livres. Posteriormente, em 1850 e 1854, o governo anistiou os proprietários culpados deste crime. Mas ocultou-se o fato que os 700.000 africanos chegados entre 1831 e 1850 -, e seus descendentes -, permaneciam ilegalmente na escravidão. Tirante a ação de alguns advogados e magistrados abolicionistas, o assunto ficará encoberto na segunda metade do século XIX e será praticamente esquecido pelas gerações vindouras.
Resta que este « Grande Complô dos Sequestradores » guarda um significado dramático : a quase totalidade dos indivíduos escravizados a partir dos anos 1840-1850 foi ilegalmente mantida na escravidão até 1888. Moralmente ilegítima, a escravidão do Segundo Reinado foi gerida por proprietários criminosos, graças à cumplicidade do Estado e da sociedade.
domingo, 21 de janeiro de 2007
Passado Recente

Havia jacarés nestes rios e o pessoal angolano deportado para o Brasil começou a chamá-los de Gandú. Se estiver certo, trata-se de um caso raro de topônimo fluvial angolano e africano, visto que a esmagadora maioria dos rios brasileiros têm nome indígena ou português.
Nos anos 1960, o Guandu foi o teatro de uma história sinistra, quando cadáveres de mendigos cariocas apareceram nas suas águas e nas suas margens. Era a operação “Mata-Mendigos”, denunciada pela imprensa durante o governo de Carlos Lacerda no ex-Estado da Guanabara (1960-1965). Funcionários da truculenta “Seção de repressão à mendicância » do governo Lacerda foram ouvidos numa CPI da Assembléia do Rio Janeiro, em 1963.
Um filme sobre o assunto, baseado no romance do autor argentino-chileno Jorge Diaz, está sendo concluído em São Paulo. Intitulado, como o livro, “Topografia de um desnudo”, ele é realizado por Teresa Aguiar e tem Ney Latorraca como principal ator.
Nas reportagens sobre o filme, está dito que “Operação Mata-Mendigos” foi desencadeada para “limpar” o Rio de Janeiro antes da visita da rainha da Inglaterra. Ney Latorraca repete a mesma história no vídeo da reportagem do UOL.
Parece que alguém ai se enganou. A “Operação Mata-Mendigos” - retrato do desejo de “limpeza social” que campeia no Brasil - data de 1963, e o livro de Jorge Diaz foi publicado em 1967. Acontece que a rainha Elizabeth II só visitou o Brasil em novembro de 1968.
O governo do Rio de Janeiro anuncia agora um grande plano de reflorestamento das margens do rio Guandu, intitulado “Muda Guandu!”. Tudo isso porque o rio fornece 80% do abastecimento de água do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense.
Com cores de Franz Post, a foto de Cosme Aquino, ai em cima, traz a promessa do renascimento do Guandu. Tomara que sim, e que a jovens árvores da Mata Atlântica sepultem seu passado poluído e trágico.
quinta-feira, 18 de janeiro de 2007
Angola, Argélia, Texas e Iraque

Porém, achei estranhas algumas ilações feitas à partir do livro, comparando a situação dos franceses na Argélia, nos anos 1950, com a dos americanos no Iraque. Maureen Dowd tratou o tema de maneira irônica, ontem, no New York Times (reservado aos assinantes, mas achei outro link).
Há, é claro, a idéia central de Horne: uma guerra pode ser ganha militarmente e perdida politicamente. Mas isto já estava explicado no grande filme de Giulio Pontecorvo, A Batalha de Argel (1965), o qual tem sido mostrado aos militares americanos envolvidos no Iraque.
Quanto ao resto, tudo separa a Argélia, colônia de povoamento francesa desde de 1830, do Iraque atual.
Assim, a guerra da Argélia se desenrolava num contexto colonial e histórico muito mais profundo que o da guerra do Iraque. Mal comparando, numa situação de ficção histórica, seria como se os chicanos do Texas (independente do México em 1836 e anexado pelos EUA em 1845), mantidos num estatuto colonial mas dotados de uma maioria demográfica, tivessem desencadeado em 1954 um luta de independência contra os colonos americanos.
P. S. – Hoje, 23/01/2007, o Le Monde fez um comentário sobre este assunto
sexta-feira, 22 de dezembro de 2006
Arraes II
"Nascido em 1916, numa velha família do Nordeste do Brasil, Miguel Arraes cresceu no coração do sertão....Em 1959 torna-se prefeito de Recife. Três anos mais tarde, liderando uma frente de partidos de esquerda, ele é eleito governador de Pernambuco. Suas iniciativas desembocam no movimento de alfabetização popular e na instauração, pela primeira vez no Brasil, de um salário mínimo para os trabalhadores rurais... Nos preparativos para a eleição presidencial de 1965, ele aparece como um dos presidenciáveis dos movimentos de esquerda. Mas o golpe de 1964, quebra a ordem constitucional. Arraes é incarcerado numa caserna em Fernando de Noronha.
Na seqüência de um julgamento do STF, que ainda resistia à ditadura, e de uma campanha internacional da qual participaram, entre outros, François Mauriac e Graham Greene, Arraes é libertado em 1965. Ele deixa o Brasil e viaja para a Argélia, onde é recebido como exilado político.
Começa então a segunda vida de Miguel Arraes.
Acolhido com deferência pelo governo argelino, Arraes se aproxima dos dirigentes dos movimentos anticoloniais da África lusófona. Dividos em facções rivais, estes movimentos disputavam o acesso ao governo argelino e à Organisação de União Africana (homóloga à OEA). Arraes foi um dos que ajudaram o MPLA (Movimento Popular pela Libertação de Angola) e o FRELIMO (Frente pela Libertação de Moçambique) a fortalecer suas relações políticas em Argel. Depois da Independência de Moçambique (1974) e de Angola (1975), Arraes foi recebido em Luanda e em Maputo com honras de chefe de Estado. Nesta época, ele também teve um real prestígio em Lisboa, participando em reuniões com os militares de esquerda que dirigiam Portugal após a Revolução dos cravos. Entrementes, a situação política brasileira se modificava, após a vitória obtida pelo MDB em 1974. Arraes viaja então frequemente para Paris, unindo os laços entre a esquerda francesa e a nova oposição que emergia no Brasil.
Com a anistia de 1979, ele retorna a Recife onde é acolhido num grande comício popular... Com a morte de Miguel Arraes, a esquerda brasileira perde um de seus líderes mais prestigiosos e um dos seus raros dirigentes a ter participado do movimento de independência das colônias portuguesas na África."