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sábado, 26 de junho de 2010

Viva o Celso Furtado !

Foto Transpetro, divulgação
Foi lançado ao mar na quinta-feira, dia 24, o Celso Furtado, navio petroleiro de 183 metros e com capacidade para 48.300 toneladas de porte bruto. Embora tenha sido o primeiro dos 16 navios construídos no Rio de Janeiro (outros 30 navios sairão de outros estaleiros brasileiros) no Programa de Modernização e Expansão da Frota (Promef), da Transpetro, que criará, só no estado do Rio de Janeiro, 10.000 empregos diretos e 40.000 indiretos, o noticiário na imprensa foi pífio.

Em « O Globo », uma notícia curta dá destaque a outro tema: o relançamento da indústria naval brasileira pode levar a um aumento das importações de aço (pimba, acharam uma coisa errada na empreitada). O Dia fez uma boa reportagem e Zero Hora publicou uma matéria pequena mas bem feita. Exame deu uma notícia mais formal. Na Folha, nada. Nadinha. Nem no Folhaonline. Vazio que retrata pobreza jornalística e intelectual.
Lula não participou do evento porque teve que se deslocar para as zonas sinistradas do Nordeste, como explicou uma notícia do
Estadão que falava de outro outro assunto. A mais alta autoridade federal presente foi o apagado ministro da Secretaria Especial de Portos, Pedro Brito. Talvez tenha sido esta a razão pela qual o governador Sérgio Cabral, o prefeito do Rio e o prefeito de Nitérói também não deram o ar de sua graça.
Na Europa e nos Estados Unidos, um pequeno empresário inaugura um galinheiro que gera 13 empregos numa cidade qualquer e lá aparecem as TVs, o presidente ou o primeiro-ministro, ministros, cardeais, rabinos, imãs, starlettes e cantores de ópera contratados para benzer as galinhas e celebrar a espantosa ofensiva levada a cabo contra o desemprego. No Rio de Janeiro, serão criados 50.000 empregos e o governador do Estado, e os prefeitos nem se dão conta, nem aparecem. Caramba! Estão se achando!: pensam que são grandes estadistas, que seus governos são do balacobaco! Efeito perverso do carisma presidencial: se Lula não vai, ninguém vem. Mas o governador Sérgio Cabral faz campanha para sua reeleição: sua ausência é burra e escandalosa.De lá de onde está, Celso Furtado nem deve ter se importado com ausência destas figurinhas. E deve ter ficado feliz com a presença e a alegria dos 5 mil operários, dos sindicalistas e dos metalúrgicos que estiveram envolvidos na construção do navio.
Porém, tinha que ter vindo mais gente. Gente do governo federal, das Universidades, do PT, do PMDB, que tanto deve à vida e à obra de Celso Furtado. Gente dos sindicatos. Se Stédile estivesse lá teria marcado presença. Deixaria claro que honra a memória do ilustre brasileiro, defensor constante, convicto e convincente do MST no Brasil e no exterior, e assinalaria que a defesa dos trabalhadores industriais é irmã da reforma agrária e da defesa dos trabalhadores rurais.
Mas quem marcou bobeira mesmo não dando as caras foram os dois candidatos que angariam votos em qualquer baile municipal: Dilma Roussef e José Serra. Dilma, que estudou no Instituto de Economia da Unicamp, do qual Celso Furtado foi patrono, grande guia intelectual e doutor honoris causa, explicita sua filiação ao pensamento furtadiano na campanha presidencial, mas deixou de comparecer ao evento que marca o renascimento da indústria naval brasileira pelas mãos de uma grande empresa pública, a Petrobrás. Serra, que foi professor do IE da Unicamp, que era amigo pessoal do fundador da Sudene, e disse um dia, saindo da casa de Furtado em Paris, que resolvera se tornar economista depois de ler «
Formação Econômica do Brasil », também não veio. Além do respeito ao seu mestre, poderia ter mostrado que apóia a intervenção estatal para dinamizar setores chaves da economia. Sutilmente, sua simples presença mostraria que o candidato tucano se afasta mesmo da política econômica do governo do qual ele fez parte como ministro do Planejamento e da Saúde. Governo que desmantelou a indústria naval agora resgatada, sustentada, corrigida e libertada com
o Celso Furtado singrando os verdes mares de Norte a Sul.

P.S.- Para os cariocas que não sabem do amor de Celso Furtado pelo Rio de Janeiro, onde morava quando estava no Brasil, deixo no post abaixo, citação extraída do prefácio que redigi para a edição comemorativa dos 50 anos de Formação Econômica do Brasil. Veja aqui o navio entrando no mar.

sábado, 21 de março de 2009

VAI FALTAR AGUA MADAME!

Há 25 anos assistí em Paris, com uns amigos este programa da candidatura de René Dumont à presidência da França. No final, nossa tchurma vaiou o véio : a gente sabia tudo, a gente era mocinho, a gente era mitterrandista, a gente era pra-frentista ou anarquista, e ainda por cima bonitinhos: o papo dele era furado ! Mas o papo bateu na minha cachola: o véio tinha razão antes de todo o mundo: vai faltar água!! Alguns amigos que estavam lá comigo viraram logo depois ecologistas -, uma forma light mas consistente de anticapitalismo. Agora leio esta notícia no Estadão sobre o problema mundial da falta d'água e lembro de novo que o véio tinha razão. Salve René Dumont !!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Qual é a graça?

Foto Wilson Junior, Agência Estado
Passei o dia trabalhando no escritório, olhando, sem querer e constrangido, a página do sitio do Estadão com a Sérgio Cabral rindo do dedo vazio da luva de Lula. Quando se vive muito tempo fora do Brasil, há coisas banais do cotidiano dai que provocam um estranhamento com a nossa própria cultura. Na época das presidenciais de 2006, um tribunal eleitoral, muito justamente, vetou a difusão de um cartaz de uns sacanas que usavam um desenho com a mão de Lula mutilada para atacar sua candidatura. Nos anos 70, me contaram a história de uns exilados brasileiros na Suécia que tinham levado um gelo dos companheiros suecos por causa de uma piada besta a respeito de um aleijado na rua (“olha o “deixa-que-eu-chuto”, ou coisa do genero). Lula leva numa boa as piadas sobre seu dedo mutilado. Haverá até quem pense que a atitude do governador do Rio é boa porque tira o eventual constrangimento de Lula. Mas passei esta terça-feira irritado com a vista desta risada meio boçal do governador Sérgio Cabral.

sábado, 19 de abril de 2008

Déjà vu


Outro dia foi anunciada uma grande 'descoberta' feita por pesquisadores do Center for Economic Policy Research (CEPR), de Londres: veiculando um padrão de família com poucos filhos, as novelas da Globo tiveram impacto na forte queda da taxa de fecundidade constatada no Brasil nas últimas décadas. Anunciada pela BBC, a notícia repercutiu pelo mundo afora, no Globo, na Folhaonline, no SkyNews, no New York Daily News e nas agências de notícias.

Embora ainda fosse madrugada por aqui, a leitura da « novidade » me deixou embatucado. Explico: desde o final dos anos 1980 e nos anos 1990 participei de seminários e debates no Cebrap em que Vilmar Faria -, autor do primeiro estudo sobre o assunto em 1989 -, e Elza Berquó, grande demógrafa e fundadora do Cebrap, discutiam e organizavam pesquisas sobre o tema. Joseph Potter, da Universidade do Texas, juntou-se às pesquisas iniciadas por Vilmar e em 1998 os dois publicaram um artigo intitulado : “Television, Telenovelas, and Fertility Change in North-East Brazil”,(in Richard Leete (ed.), Dynamics of Values in Fertility Change, Oxford: Oxford University Press, 1998). O ensaio teve impacto imediato e -, coisa muito rara -, foi citado num editorial do The New York Times, em junho de 1998. O texto foi depois publicado na revista do Cebrap em março de 2002. A tése dos autores, fundamentada em pesquisas, era basicamente a mesma que está sendo 'descoberta' 10 anos depois.

Os autores do estudo do CEPR citam 3 vezes (no estudo, não nas entrevistas aqui citadas) o ensaio de Vilmar e Potter. Mas, francamente, não avançam muito além das análises publicadas pelos dois. Acho até que as conclusões de Vilmar e Potter são mais complexas e sofisticadas que as do CEPR. Quem quiser, pode conferir. Mais ainda, o estudo do CEPR (feito por La Ferrara, Chong e Duryea) aparentemente ignora o grande estudo orientado por Vilmar, Potter e Elza, entre 1992 e 2000, cujo resumo transcrevo: “O projeto 'O Impacto Social da Televisão no Comportamento Reprodutivo no Brasil' é um projeto multi-disciplinar e multi-institucional que envolve, além do CEDEPLAR/UFMG, o NEPO/UNICAMP, o CEBRAP, a ECA/USP, além da University of Texas at Austin e Santa Clara University. O objetivo do projeto é mostrar como a televisão teve impacto nas mudanças reprodutivas observadas no Brasil recentemente, incluindo a queda da fecundidade propriamente dita e as mudanças ideacionais (ideational changes) com relação à reprodução, sexualidade e uso de contraceptivos. O argumento, inicialmente proposto por Faria (1989), é de que a política governamental de incentivo à expansão dos meios de comunicação de massa, aliada à ampliação do crédito ao consumidor e à medicalização, geraram efeitos não intencionais e não esperados sobre a fecundidade e as práticas contraceptivas. O projeto teve início em fevereiro de 1992 com um workshop em Austin, Texas. ... A pesquisa de campo propriamente dita foi feita entre junho de 1996 e fevereiro de 1997, enquanto a novela das 8 da Rede Globo O Rei do Gado esteve no ar. ».

Este projetaço, discutido em universidades americanas e brasileiras, teve trabalho de campo e pesquisas derivadas publicadas dentro e fora do país. A melhor prova que a pesquisa do CEPR não « descobriu » nada de tão novo assim, pode ser verificada nos resumos das duas pesquisas, publicados na mídia novaiorquina com dez anos de intervalo.

Em 1998, o editorial do New York Times dizia: “Vilmar Faria, a Brazilian sociologist, and Joseph Potter, a University of Texas sociologist, argue that the drop in fertility tracks the spread of television -- dominated by the universally popular nightly soap operas known as telenovelas. For many poor, the telenovelas provided their first glimpse of small, less authoritarian families and of consumer culture. Women realized they could choose fewer children, and that children had a cost ».

Há três dias, o New York Daily News, jornal de 2a. divisão de Nova York, afirmou, num tom mais vulgar, no meio do noticiário geral: Soap operas are contributing to a population decline in Brazil, according to a new study - and not just because people are too busy watching TV to get busy in the bedroom. A study by the Center for Economic Policy Research (CEPR) says that Brazil's national addiction to soap operas is to blame for a drastic decline in fertility rates there over the past four decades. The small families depicted on the soaps, the study says, are causing real women to want fewer children of their own.

Dez anos atrás, trouxe de NY para Vilmar o exemplar do NYT com a primeira citação. Ele ficou feliz. Agora, ponho as duas citações lado a lado neste post. Espero que ele também tenha ficado contente, lá onde se encontra.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Buenos Aires?


Chega hoje no Brasil, para uma visita oficial de dois dias, Condoleezza Rice. Vai à Brasília encontrar Lula, conversar sobre etanol, Oriente Médio, Chávez, Uribe y otras cositas más. Depois vai para a Bahia, cada vez mais legitimada como capital da Afro-América. Eliane Catanhêde que, junto com Jânio de Freitas, foi a única jornalista a salientar a importância do encontro Países Árabes-América do Sul organizado em Brasília em 2005 (e escarnecido pelo restante da mídia), faz um comentário bem centrado sobre a viagem de Rice. Mas, salvo engano, não há nenhuma notícia nos jornais brasileiros sobre um ponto essencial, analisado pelo New York Times: Condoleezza renova o gelo que os EUA davam na Argentina de Nestor Kirchner, evitando encontrar-se com Cristina Kirchner, eleita há pouco tempo. Ela irá ainda ao Chile, mas não passa por Buenos Aires. !Assim reiterada, a crise entre Washington e Buenos Aires assume proporções inéditas nas relações entre os dois países. Fato que dá outro destaque à situação diplomática do Brasil. Ao não dar por isso, o jornalismo brasileiro consolida o analfabetismo sobre assuntos internacionais existente na opinião pública nacional. Quase todas as matérias importantes sobre política internacional publicadas na imprensa brasileira são traduzidas dos jornais americanos e europeus. E podem ser lidas na véspera nos próprios sítios destes mesmos jornais pelos leitores brasileiros mais curiosos.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Coisas Vistas II


Alinho de maneira aleatória algumas notas escritas durante a viagem pelo Brasil.

A carpete do anexo do aeroporto Santos Dumont, inaugurado há alguns meses, já está rota como um tapete de bordel. As paredes externas da parte recentemente reformada de Congonhas parecem ter mais de cem anos. Não dá para entender a falta de cuidado.
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Andei bastante no metrô de SP e do Rio. Em geral, me parecem limpos, rápidos e seguros. É verdade que outro dia um passageiro foi assaltado e levou um tiro na saída da estação Trianon-Masp, em SP. Mas ele já estava fora do metrô. Talvez seja esta violência extramuros que torna o metrô brasileiro seguro. Explico-me: como os roubos são quase sempre à mão armada e podem gerar tiroteio (com a polícia, com os seguranças e com eventuais passageiros armados), o risco assumido por qualquer ladrão dentro do metrô é muito elevado. O vulgar batedor de carteira, o pickpocket – encontradiço nos metrôs de Paris, Londres e Nova York - cuja maneira de agir baseia-se na na discrição absoluta, segue um método absolutamente incompatível com a estrepitosa violência urbana brasileira (veja-se a crítica de Roberto Ribeiro ao célebre filme
Pickpocket (1959), de Robert Bresson). Daí o fato de haver poucos roubos destes – comparando por exemplo com Paris – no metrô de SP e do Rio.
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A TV mostra publicidades do balacobaco. Há um anúncio de um grande banco estrangeiro espalhado pelo Brasil, alegando que um sujeito com cara de palerma, atendendo pelo nome de Beto, “se apaixonou pelo mercado financeiro” depois de utilizar os serviços do dito banco. Até quando vai passar esta pornografia no horário livre?
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Fiquei perplexo com a tarifas extorsivas e despropositadas cobradas no Brasil e, sobretudo, pelas taxas escandalosas do ‘roaming’ de um município para o outro. Hoje no Herald Tribune há uma matéria mostrando como a União Européia botou pra quebrar e forçou as companhias de celulares daqui a baixarem as tarifas de « roaming »
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Canal Brasil é a melhor coisa que existe na TV brasileira. Sobretudo quando você está num apê frio numa praia no inverno. Vi coisas que gostaria de ter visto quando não morava mais no Brasil, outros filmes de que tinha ouvido falar e outros que nem conhecia. Vi, entre outros, Floradas da Serra,(1954) de Luciano Salce, com Jardel Filho e Cacilda Becker: é ruim, mas é bom. A jovem Cacilda Becker, visivelmente vestida e penteada para parecer com Katherine Hepburn, é de uma beleza estonteante. O filme se passa em Campos de Jordão, filmado como se fosse um resort europeu ou americano. Deve ser por isso que não aparece nenhum negro nos 100 minutos da película: nem mesmo como garçom ou engraxate. Os caras queriam, de qualquer jeito, fazer o Brasil parecer um país de brancos. Nos anos 50 esse tipo de tramóia ainda colava.

P.S. - Estou migrando meu blog para o UOL. Onde colaboro no UOLNews. A ferramenta é diferente: deu para levar os meus posts, mas não os comentários dos leitores. Durante algum tempo ficarei postando nos dois lugares.

domingo, 26 de agosto de 2007

O atraso do censo do IBGE

Residência à beira do rio Negro esperando o recenseador do IBGE

Há tantas coisas pra aprender sobre o Brasil que até o modo de aprender faz a gente aprender coisas.
Veja-se, por exemplo, duas notícias da Folha a respeito do censo populacional organizado pelo IBGE. A
primeira informa que o uso de computadores de mão com GPS - grande novidade do atual censo – está dando problemas no Norte e no Nordeste. A nova tecnologia trouxe recenseadores mais qualificados que têm menos facilidades para se relacionar com a população do interior. Segundo Maria Wilma Garcia, coordenadora do censo, os novos recenseadores vem do meio urbano e desconhecem as pessoas com quem estão lidando.
"Perdemos os caboclos da região porque eles não sabiam mexer nos computadores. Antes, eles pegavam a pastinha, caíam no mundo e voltavam depois de um mês com tudo pronto. Andavam a pé, a cavalo, de bicicleta, pegavam carona, dormiam nas casas das pessoas e eram conhecidos de todos." É uma frase bonita com um sentido triste. O recenseador “caboclo” entretinha com os habitantes a proximidade cultural que legitimava a demanda do IBGE, do poder público. Mal treinado, mal instruído pelo Estado ele perde o emprego, é excluído e o recenseamento empaca.
A segunda notícia, vem da reporter Malu Toledo, e descreve outra situação em que os agentes do IBGE não conseguem preencher os dados e atrasam o censo: os moradores de condomínios de alto padrão em São Paulo (como Alphaville), em Teresina e em Maceió, não deixam os recenseadores entrar ou recusam-se a falar com eles (assinante UOL clique
aqui)
É do balacobaco!
O tal do Abadia, megatraficante colombiano, comprou palacetes nestes condomínios com dinheiro vivo – prática perfeitamente ilegal segundo a
procuradoria federal - e tudo estava nos conformes. Nenhum grupo de proprietários ou administrador de condomínio botou defeito. Mas o funcionário público, no exercício de uma atividade elementar para o bom funcionamento da cidadania e do Estado, é barrado na porteira do condomínio. Durma-se com um capitalismo destes!
A antropóloga Teresa Caldeira, que foi minha colega nos bons tempos do Cebrap, tem um importante livro sobre o
assunto e escreve com propriedade: “Não é a cidade, por maior e mais diversa que seja, que se deve temer, mas sim a ausência de uma ordem pública e do respeito aos direitos dos cidadãos. Minar essa ordem para construir enclaves privados não pode dar mais do que a ilusão de proteção. A proteção ou é coletiva ou não será”.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

O reacionarismo paulista e o caminho das pedras


Desde os anos 1970, quando se tornou o centro político do país nação (em 1965, a eleição direta de Negrão de Lima – juscelinista declarado – para o governo da Guanabara, abalou a ditadura e mostrou que o Rio ainda era a capital política nacional), São Paulo elege o que há de pior e de melhor no Brasil. Jânio, Maluf, Enéas, Clodovil representam a primeira categoria. Ulysses, FHC, Suplicy, e Lula, cuja iniciação política deu-se em São Paulo, aparecem, conforme o gosto do freguês, como o que há de melhor. Num artigo na Folha em 23/10/2005 (assinantes UOL clicar aqui), procurei mostrar que este paradoxo constitui um dos componentes da “desordem paulista” que tumultua o quadro político nacional.
Dentre as coisas ruins da Paulicéia, existe, ainda e sempre, um tipo de reacionarismo proto-separatista sem paralelos no Brasil.
Assim, um artigo do deputado estadual paulista João Mellão Neto (“Os perigos da incomPeTência”), do DEM, publicado no Estadão em 3/08/2007, critica (com razão) a ausência de Lula junto às famílias das vítimas do Airbus em São Paulo, mas conclui com a seguinte reflexão: “Nada contra o fato de o presidente se refugiar nos Estados nordestinos. Afinal, é neles que se encontra a grande maioria de seus eleitores, todos eles devidamente subornados pelo Bolsa-Família. Mas, a bem da Nação, a sua passagem deveria ser só de ida. Chegou a hora de dizer: Basta!”
Subornados? BNH, correção monetária, juros altos para os bancos, juros negativos e perdão de dívidas para os usineiros, Proer, tudo que engordou a conta da classe média e de muita gente rica durante décadas desaparece diante do “suborno” do Bolsa-Família. Ora, como escreveu outro dia
Fernando Canzian no Folhaonline, “O difamado Bolsa Família é apenas uma fração dos juros pagos a quem tem dinheiro no banco, são 0,4% do PIB contra quase 7%”.
O raciocínio cerebrino do deputado pressupõe que a legitimidade presidencial só existe nas regiões onde Lula obteve maioria eleitoral. Lula venceu na maioria dos Estados do Norte e do Nordeste, mas ganhou também em Brasília, Goiás, Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Nestes 5 Estados ele obteve uma vantagem de 7.291.000 votos sobre Alckmin no segundo turno. Ou seja, mesmo que todos os brasileiros do Norte e do Nordeste tivessem ficado em casa, ou pertencessem a um outro país, Lula ainda dava de lavada no candidato tucano no segundo turno. Para ser coerente, o deputado do DEM deveria também incluir todos os brasilienses, goianos, capixabas, mineiros e cariocas no seu ‘chega pra lá’ excludente e preconceituoso. De quebra, poderia agregar ainda, neste mesmo grupo de “subornados” cujo voto vale menos que o dele e de seus amigos, e que não pertence à "Nação" deles, todos os eleitores da Baixada Santista e da Grande São Paulo, que também deram a maioria de seus votos a Lula.
Falta quanto tempo ainda para a direita brasileira aprender o caminho das pedras da prática democrática?
P.S. -« O documento impressiona não apenas por revelar a amplitude a que chegou o programa [do Bolsa-Família] em um punhado de anos e sua focalização em geral adequada – uma proeza nada desprezível considerando a extensão do território coberto, o formidável contigente alcançado e o histórico brasileiro de monumentais desvios de verba no assistencialismo tradicional”, [mas impressiona ainda porque] “80% dos quase R$ 8,8 bilhões desembolsados pelo governo aliviam efetivamente a situação dos 40% mais pobres entre os brasileiros. E, desde o advento do programa, a concentração de renda diminuiu 4% no país”.
Os trechos acima foram extraídos do editorial equilibrado e pertinente do Estadão de 23/08/2007 que comenta estudos do Ministério do Desenvolvimento Social e do Ipea sobre o Bolsa-Família (“O Brasil do Bolsa-Família”)

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Desordem no ar

A série de desastres, de apagões nos aeroportos, de descontroles dos controladores de vôo, de afrontas das companhias de aviação e de declarações estapafúrdias dos membros do governo revela algo mais que o caos aéreo.
Falastrão incorrigível, o ministro Mantega afirma que a confusão nos aeroportos é sinal de progresso. Sobre o mesmo assunto, a ministra Marta Suplicy fez uma piada grotesca pela qual se desculpou. Porém, depois do crash de Congonhas, quando foi interrogada, disse que nada tinha a declarar. Caramba! Nada a declarar depois de um drama destas dimensões?! O ministro Waldyr Pires, homem decente que já deveria ter se retirado do ministério se seguisse seu antigo bom senso político, vem à TV eximir-se das responsabilidades inerentes à sua pasta. Marco Aurélio Garcia fez um gesto obsceno na privacidade de seu escritório. A carta de um leitor da Folha de S. Paulo, publicada hoje, pretende que se tratou de um “desabafo” contra acusações indevidas ao governo. Tudo bem. Mas as justificações dadas em seguida por Marco Aurélio denotam, no mínimo, falta de juízo político. No mesmo pique, ninguém no governo se tocou sobre o fato de que não era oportuno condecorar agora dois altos dirigentes da ANAC. Enfim, Lula esperou sarar do terçolho para dar satisfações à nação e apresentar suas condolências às famílias que choravam seus mortos há mais de três dias.
Separadamente, cada um destes fatos pode ser atribuído à falhas de assessoria. Postos lado a lado, eles revelam a realidade mais patética e mais grave de um governo que parece descolado das preocupações do país e dos sentimentos da população.
Como pequena contribuição ao inventário da baderna no ar, incluo a foto acima, retratando um incidente ocorrido num táxi aéreo em que viajei na semana passada na Amazônia. O bimotor ia levantando vôo com a tampa de um dos 2 tanques de querosene aberta (cf. o pequeno ponto preto sobre a asa). Voltou da ponta da pista para fechar o tanque depois do alerta de um de meus companheiros de viagem.
Noutro registro, cabe assinalar que o desgoverno aéreo junta-se às pauleiras envolvendo atletas brasileiros no Pan e à grossura de uma parte do público carioca para comprometer as chances de o Brasil organizar as próximas
Olimpíadas e a Copa do Mundo.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Civilização x Selvageria

No Globo de hoje, Miguel Conde dá notícias da Flip e menciona minha crítica ao comentário do governador Sérgio Cabral sobre a ação da polícia no Complexo do Alemão.
A coisa é assim: minha
participação em Paraty foi para comentar ontem, domingo, a novela “No coração das trevas” (1902), em homenagem aos 150 do nascimento de Joseph Conrad. Tentei mostrar que Conrad, escrevendo a respeito da pilhagem do Congo pelo rei Leopoldo II da Bélgica, ilustrava o esgotamento da idéia de “civilização” que até então servira de justificação ideológica à expansão colonial européia.
No final, citei a entrevista de Sérgio Cabral, em O Globo, do dia 1 de julho, sobre a guerra no Complexo do Alemão :”ninguém agüenta mais isso, temos uma bifurcação que eu enxergo clara: ou é o caminho civilizatório ou é o da selvageria”. Penso que se trata de um vocabulário de outros tempos, cunhado no contexto colonial para sujeitar nativos ameríndios, africanos ou asiáticos. Numa democracia, numa república, onde os cidadãos elegem seus representantes, nenhum governador, nenhum dirigente político pode se arvorar em condutor de qualquer “caminho civilizatório”.

P.S. – O laudo da OAB, divulgado dia 12/07, confirma a sinistra realidade: algumas das 19 pessoas mortas pela polícia no Complexo do Alemão foram executadas a sangue-frio.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Coisas do Balacobaco

O Profeta Jonas despejado pela baleia, Anônimo, ícone do século XX, Holy Transfiguration Monastery Brookline, MA, EUA
Esta é uma nova seção deste blog. Sob inspiração do profeta Jonas, que viajou três dias e três noites dentro da barriga de uma baleia (um passeio do balacobaco!), e em homenagem ao crítico de arte Rodrigo Naves. Aqui vou comentar coisas sem sentido pra uns, com sentido pra outros, mesmo que não façam sentido em geral.
A primeira delas, origem da idéia de abrir a seção, descobri agora, preparando o material sobre o livro Heart of Darkness (No Coração das Trevas), de Joseph Conrad, que irei comentar no dia 8 de julho na
Festa Literária Internacional - Flip, em Paraty. Em 1889, Conrad, funcionário da companhia belga Société Anonyme pour le Commerce du Haut-Congo se dirige para o Congo, onde ele observará fatos e pessoas que aparecem na trama de Heart of Darkness, publicado dez anos mais tarde (1899-1902). O navio francês no qual ele embarca em Bordeaux, no litoral atlântico da França, para chegar até Matadi (porto fluvial na margem esquerda do rio Congo, hoje situado no Congo Kinshasa, na fronteira com Angola, minha terra), chamava-se Ville de Maceió. Conrad foi para o Congo, de onde tirou Heart of Darkness, embarcado no vapor Maceió! Taí algo do balacobaco.
P.S. Do balacobaco é também a proposta do ministro da Educação da Polônia, Roman Giertych, solene energúmeno, extremista católico, que quer retirar as obras de Conrad, Witold Gombrowicz, Goethe e Kafka do ensino escolar polonês. Tudo isso para aumentar a carolice inculcada nos jovens com escritores como João Paulo II “e outros autores desconhecidos que darão só uma resposta, a resposta correta deles, para todos os dilemas...”. Palavras do energúmeno, segundo o The Times.
Quem estiver trancado no trânsito, num aeroporto ou num barco subindo o rio Madeira com fazendeiros armados para atirar nos natives sem-terra, e tiver Wi-Fi, pode ouvir Heart of Darkness lido pelo ator inglês Toby Stephens, com o autêntico sotaque british que Conrad nunca conseguiu capturar. Se quiser também pode ler o livro inteiro.