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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Itamar e o passado que não passa



Há uns dias, o ex-presidente Itamar Franco deu uma entrevista à revista Época. O tema de suas declarações é a acusação de que Lula enfraquece o Legislativo. A idéia tem fundamento e Itamar poderia justificá-la de várias maneiras. Porém, ele envereda num raciocínio tortuoso que ilustra a deferência com a qual boa parte da elite política trata a ditadura.
Cito sua explicação sobre a atitude de Lula frente ao Legislativo.
“Primeiro, o presidente foi um parlamentar obscuro. Como parlamentar, ele qualificou que lá havia 300 e tantos picaretas. Esquecendo que ele também estava lá...Como a pessoa [Lula] não conhece a história democrática do país... Ele não tem a mínima consideração pelo Legislativo. Quando o presidente tenta impedir uma CPI, como foi a CPI da Petrobras, é outra interferência indevida. No regime militar, em 1975, havia uma questão tão importante para o presidente Geisel quanto a Petrobras hoje: era o acordo nuclear (do Brasil com a Alemanha Ocidental). Numa proposta do então senador Paulo Brossard, criou-se uma CPI para examinar o acordo. E a CPI não foi impedida, apesar de ser um regime militar. E era igualzinho hoje: nós éramos 3 senadores da oposição e 8 do governo. E mais ainda: se permitiu que um senador da oposição, coincidentemente eu, presidisse a CPI. Aqui, não. Com um erro que nem os militares fizeram: o presidente e o relator (da CPI da Petrobras) são do governo.”
Hoje, Itamar retomou seus argumentos numa entrevista do
Estadão, que teve repercussão na Folhaonline
Como muita gente, e talvez mesmo, a maioria dos brasileiros, Itamar chama o período mais sinistro e autoritário de nossa história nacional de “regime militar”. Por isso, ele pode partir para este tipo de comparações extravagantes.
Assim, a idéia que a ditadura – responsável pela cassação, encarceramento e exílio de parlamentares, pela tortura e assassinato de ex-parlamentares, pelo fechamento do Congresso e a proibição dos partidos políticos – seria liberal, é propagada por um velho senador da República. Por um ex-presidente que gaba-se de conhecer a “história democrática do país”. É o passado que não passa. Itamar pensa que a ditadura faz parte de uma normalidade institucional alternando períodos democráticos e períodos de pura boçalidade. Itamar pensa que no Brasil a democracia é contingente.
P.S.Para complementar este tópico, leia-se o perfil do senador Marco Maciel publicado na Carta Capital do dia 28/08. A jornalista Cynara Menezes, autora do artigo, menciona que o “monge do Parlamento” (sic) pertenceu à Arena. Mas não diz que ele foi um fiel serviçal da ditadura. Assim, o “monge” presidia a Câmara dos Deputados quando o ditador Geisel decretou o “Pacote de Abril” (13/04/1977), fechando o Congresso e instaurando truculências (como os senadores biônicos) que prolongaram o regime autoritário no Brasil. A jornalista pensa que a maior qualidade moral do senador pernambucano reside na modéstia de seu patrimônio, após 50 anos de vida pública. Para ela, desde que não se roube, está tudo bem.

domingo, 5 de abril de 2009

Lá se foi Marcito


Márcio Moreira Alves conviveu conosco e foi muito ativo em Paris e em Havana na oposição à ditadura. “Conosco”, quer dizer a tchurma de Miguel Arraes e de Violeta Gervaiseau (irmã de Miguel, que faleceu no ano passado e nos deixou zangados: ela não devia ter morrido: faz muita falta). Violeta, figuraça e chefe de todos nós, falava no telefone nos anos 70, e dai pra frente, com um código facilzinho para despistar eventuais escutas da polícia francesa: Marcito era o “deputado”, Miguel o “doutor”, Celso Furtado o “ministro”, Samuel Wainer “ o “profeta”, Glauber Rocha o “cineasta”, Fernando Henrique o “sociólogo”, Roberto Schwarz o “ professor”. Ela própria, Violeta, nós a chamávamos “Madame”, seguindo a alcunha dada pelo “doutor”. Um dia, numa reunião na casa de Madame, Marcito, vindo de Havana, trouxe uma notícia sombria: os cubanos avisavam que o “doutor” (que morava em Argel mas vinha sempre à Paris) estava numa lista de líderes da esquerda latino-americana que podiam ser assassinados pela operação Condor (a gente ainda não sabia o nome desta quadrilha de assassinos): Orlando Letelier, ex-chanceler e embaixador do Chili de Allende em Washington, foi assassinado na capital americana em 1976, à duas quadras na Casa Branca (e Bush pai, diretor da CIA na época, não soube de nada!), e mais, o ex-senador da esquerda uruguaia Michelini, o presidente da camara dos deputados uruguaio, Guterriez, e o ex-presidente boliviano, Torres, foram assassinados em Buenos Aires no mesmo ano e Prats, general allendista, também havia sido assassinado em Buenos Aires em 1974. Com a informação sobre o “doutor”, Madame ficou abalada, e Marcito se emocionou. Nosotros también.
O “deputado” era um cara cheio de nuances. Tinha uma voz impositiva e um jeito arrogante, mas não era nada assim: falava um disparate e depois fazia um sorriso simpático, todo disponível para escutar uma réplica e uma explicação (as moças eram bastante receptivas ao sorriso dele). Quando ele defendeu a tese de doutorado aqui em Paris, o “ministro”, que fazia parte da banca, e era um intelectual rigoroso, sobretudo na banca de amigos, fez críticas de grande calibre. Mas o “deputado” não levou a mal, nem na hora, nem nos anos seguintes. Quando Collor tomou posse, Marcito escreveu um artigo elogiando o “Plano Collor” na mesma página do JB onde eu publicava um texto dando um pau no dito cujo. Mas ele me encontrou depois com o mesmo sorriso simpático.
Ele sabia “encaisser le coup”. Porém, a confusão do AI - 5 ainda pesava nas suas costas . Anos antes, em Paris, eu morava num apê mínimo, rue du Dragon, e ele veio encontrar um amigo que dormia na minha saleta (mais por causa do ponto do que pelo conforto) entre uma viagem e outra de Havana a Paris. Apoiou-se numa mesinha onde tinha umas caixas de sapatos, cheias de fichas sobre documentos do Brasil no século XIX, e derrubou tudo no chão. Apanhei tudo numa boa, mas levei tempo para não misturar coisa com coisa. E fiz cara feia. Márcio ficou passado e depois disse para nosso amigo: “porra, faço tudo errado! Cheguei lá e logo derrubei as fichas dele!”. Ora Marcito, não é verdade: você fazia tudo certo: Acabei reorganizando minhas fichas de um jeito melhor!

domingo, 14 de dezembro de 2008

A Respeito dos 40 anos do AI-5


Vou voltando devagarinho ao blog. Agora, com este texto sobre a ditadura, publicado no começo da campanha das presidenciais de 1994. Mudou alguma coisa, mas a análise sobre o golpe de 64 e o AI-5 de 1968 pode completar outros artigos publicados neste fim de semana no Brasil sobre os 40 anos do AI-5.


1964: POR QUEM DOBRAM OS SINOS?


Folha de S. Paulo 16/05/1994


Luiz Felipe de Alencastro


Um equívoco se introduziu no balanço geralmente estabelecido a respeito do golpe de 1964. Quando aparece gente –tão rara quanto os micos-leões– lembrando as atrocidades cometidas pela ditadura, surge um mal-estar que toca até democratas tarimbados. Quase sempre, os rememoracionistas são informados que a transição não incorporou este tipo de cobrança, que os responsáveis pelo regime militar são hoje autênticos liberais. Como sói acontecer entre nós, estes eventos dramáticos teriam perdido seu nexo histórico. Não aviltam, nem preocupam mais a nação. Se transformaram apenas em culto doméstico das famílias das vítimas. Quem quiser tratar do assunto que o faça literariamente. Que escreva um desses romances de formação, meio autobiográficos. E estamos conversados. Ainda assim, com recursos de escrevinhador e assumindo o risco de ser inconveniente, é possível insistir. Para além do revanchismo, deve haver espaço para uma análise das consequências atuais da tirania que se abateu sobre o país 30 anos atrás. Paradoxalmente, o golpe de 1964 trouxe no bojo um elemento revolucionário: rompeu as cadeias de solidariedade de classe, de estatuto, de educação, de profissão tecidas entre as camadas privilegiadas. Durante um século e meio estas cadeias de solidariedade pairavam acima dos conflitos que atravessavam a nação. Decerto, foram sangrentos os choques interoligárquicos pelo controle dos Estados. Na ditadura varguista surgiu um patamar mais avançado no processo repressivo. Porém, predominavam as operações de polícia, sem envolvimento direto do Exército. Operações que não chegavam a se generalizar. Alguns interventores protegeram parte da esquerda. Impediram que os setores dissidentes da oligarquia fossem alcançados pela polícia do Estado Novo.1964 quebra o ascenso da esquerda, mas também esfrangalha a conciliação das elites. Não foi um processo simples. Foi preciso primeiro –novidade– que a ditadura internacionalizasse os conflitos brasileiros. Para isso contou com as mudanças da conjuntura mundial. Havana empurrava a América Latina para a Guerra Fria. Washington alterava suas alianças no Terceiro Mundo. Aqui e alhures a direita tradicional era ultrapassada por eventos que escapavam às relações de forças internas. Perpetrado o golpe, o guerrilheirismo ganha espaço à esquerda, trazendo água para o moinho dos autoritários. De fora e de dentro, intervinham fatores ou extremavam as análises. Existia, é claro, a aposta militarista cubana, fornecendo aberrante apoio à luta armada. Mas o radicalismo de esquerda se alimentava ainda dos interditos internos –censura de imprensa, prisões, cassações, fraudes– impostos à constituição de uma frente eleitoral contrária ao regime militar.Não estava inscrito no mapa astral brasileiro que os acontecimentos devessem tomar este rumo sinistro. A resposta inicial dos Estados Unidos às teses castristas sobre a América Latina fora uma proposta de reformas sociais, a "Aliança para o Progresso". Algo similar ("A Operação Pan-Americana") tinha sido formulado por Juscelino. Havia campo para uma aliança reformista de contenção ao castrismo. Por razões difíceis de resumir, entre as quais pesou o extremismo dos neoconservadores brasileiros, emplacou a aliança autoritária.


A primeira vítima importante da radicalização foi, justamente, Juscelino. De começo, JK se acumpliciou à ruptura constitucional. Acreditou nos dirigentes que lhe garantiam ser o golpe uma ação preventiva para firmar as presidenciais de 1965. Falhou a tal perspicácia mineira e o Brasil amargou o resto. Como não ver, retrospectivamente, que Jango constituía apenas o alvo inicial –mas secundário–, dos golpistas? Como esquecer a artilharia montada para atingir JK, o alvo principal? Na altura, a direita autoritária já tinha rifado a direita moderada. Indo em frente, extinguiu os partidos políticos, derrubou JK, candidato imbatível nas eleições previstas para 1965. Saltando para fora dos parâmetros conservadores, o "putsch" virou ditadura.Texto meditado, o AI-5 se apresenta, por si só, como um desmentido às interpretações visando a descarregar a responsabilidade pelos "excessos" do regime nas costas de subalternos. Veio do vértice do Estado –de uma reunião solene do Conselho de Segurança Nacional composto pelos principais ministros e pela hierarquia militar– a cobertura política e legal para afrontar as liberdades públicas, os direitos individuais. Da mesma forma, não se deve atribuir a concepção do AI-5 a alguns coronéis nordestinos e a outros tantos coronéis do Exército. Veio do centro-sul economicamente avançado o estímulo e a sustentação à deriva autoritária. Dois membros do "establishment" paulista, dois civis, catedráticos da USP, tiveram um papel crucial na implementação do texto mais celerado da história brasileira: o ex-reitor Gama e Silva, ministro de Justiça, que açulou a crise e urdiu o conteúdo do Ato Institucional, e Delfim Netto, ministro da Fazenda. Foi o sr. Delfim Netto que trouxe a um Costa e Silva ainda hesitante a garantia de que o AI-5 não encontraria oposição entre o empresariado, "podendo ser o Ato editado tranquilamente" (testemunho do general Portella, citado por Zuenir Ventura). Com sua habitual lucidez, o então ministro da Fazenda fez juízo certo. Comprometidos pelas benesses estatais e a pusilanimidade cívica –fatores característicos de nosso capitalismo postiço– as organizações patronais aprovaram a guinada autoritária.


O AI-5 derruba o padrão político evolutivo plantado desde a independência pelos herdeiros do despotismo ilustrado pombalino. Este padrão pressupunha um espraiamento progressivo das liberdades reservadas à burocracia do Império e às oligarquias. Instituições embrionariamente democráticas iriam ampliando seu escopo, à medida que a população fosse "civilizada" pelas elites. Doravante, a regra não tinha mais validade. A "evolução civilizadora" foi rompida por elites que enveredavam pela barbárie.Medrou então um mostrengo nunca visto nas paragens. Uma direita capaz de atropelar as oligarquias, centralizar o poder, comprometer as Forças Armadas. Um regime apto, enfim, a nacionalizar a repressão. Status, galões, apadrinhamentos, tudo ia para espaço quando a "subversão" entrava em linha de conta. Tal é o cerne do problema histórico que se criou. Sem medo de ser feliz, uma parte substancial das elites decidiu bancar a ditadura. Como fica tudo isso hoje, às vésperas de uma difícil eleição presidencial? Embora a prática constitucional tenha ascendido a um nível inédito, não se pode dizer que os neoconservadores estejam definitivamente comprometidos com o jogo democrático. Impossível dissimular: o assalto de Fernando Collor e seus bandoleiros aos cofres públicos –ousada operação de pirataria montada para destruir nosso país– viabilizou-se por causa do apoio que os partidos conservadores, o patronato, a Rede Globo proporcionaram ao grotesco "caçador de marajás". Do lado oposto, a candidatura de Lula, portadora de um programa de reformas, deflagra de novo a paranóia neoconservadora. Parte da direção petista aumenta a tensão ao propugnar a vitória no primeiro turno. Desconsiderar as alianças políticas em favor da aritmética eleitoral constitui, de fato, um erro grosseiro. Matematicamente concebível, eleitoralmente possível, a vitória de Lula no primeiro turno seria politicamente desastrosa. Dispensado de debater a fundo seu programa, seu ministério, desprovido de alianças de centro no Congresso e nos Estados, o governo do PT –alçado pela primeira vez à administração extramunicipal– estaria entregue à sua própria sorte. Todas as condições se alinhariam para tornar o governo federal refém do presidencialismo mais primitivo, mais vulnerável ao golpe.Desde logo, parece legítimo formular algumas questões. Existe, nos círculos do poder, a percepção de que a guerrilha dos anos 1970 acabou de vez, não pelo terror da Oban e dos DOI-Codi, mas por causa da revolução eleitoral desencadeada em 1974 pela acachapante vitória do MDB de Ulysses Guimarães? Está bem aceite que foi esta mesma vitória levou a ditadura à breca? Sem a carga negativa irradiada do pólo externo sovieto-cubano o pólo interno da direita autoritária definhará? A sociedade civil impediria hoje um ministro da Fazenda de garantir a um eventual ditador que um texto como o AI-5 poderia ser "tranquilamente editado"? Pode ser que sim. Na circunstância, a memória dos "desaparecidos" ficaria de fato circunscrita ao luto mal resolvido dos sobreviventes.Outra hipótese merece entretanto ser considerada. Talvez o mostrengo ainda se remexa. Talvez, a direita nacional –sempre ruim de voto– estiolasse suas redes eleitorais no vaivém entre o autoritarismo e os candidatos aventureiros, tipo Jânio e Collor. Talvez, ao declarar que haverá golpe se Lula vencer, o sr. Antonio Carlos Magalhães não esteja blefando. Nesse caso, a memória dos desaparecidos extravasa o culto familiar, avilta a nação, ganha lancinante atualidade. Nesse caso, os sinos não dobram apenas pelos corpos sem nome amortalhados nas águas da Guanabara, nas ribanceiras do Araguaia, nos sítios de tortura. Dobram também por nós, pobres coitados, cidadãos de um país onde a democracia é contingente, os direitos civis transitórios. Onde o passado não passa.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Ditadura é Ditadura

Francis Bacon, Autoportrait, 1976, JSC Gallery

No 'Painel do Leitor' da Folha de São Paulo de 08/01/2008 saiu uma carta em que comento a coluna de Elio Gaspari, publicada na mesma Folha do dia 06/01/2008. Para quem não tem acesso ao UOL, segue abaixo o texto da carta.

"É a segunda vez que Elio Gaspari (6/1, pág. A10) escreve sobre a história de um irmão do marechal Castello Branco, demitido da Receita Federal porque o então ditador-presidente não gostou que ele tivesse sido presenteado com um carro por seus colegas de repartição pública. Ora, a torpeza dos regimes autoritários não depende da maior ou menor propensão dos ditadores ao roubo e à pilhagem dos bens nacionais. Salazar, opressor de Portugal, Angola e Moçambique, não enriqueceu nos seus 40 anos de ditadura. No que nos concerne, Castello Branco comandou um golpe de Estado que instalou a pior ditadura que o Brasil conheceu nos seus quase dois séculos de nação independente. É um grande disparate apresentá-lo como um estadista e um exemplo de moralidade pública."

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

O IPEA de ontem e de hoje

Tim Hawkinson, Emotor (detalhe), 2001, Coleção particular, Courtesy Ace Gallery, Los Angeles

A polêmica sobre as demissões no Ipea envolve vários problemas. Conheço Márcio Pochman, meu colega durante anos no Instituto de Economia da UNICAMP. É um economista sério e competente, que nunca foi sectário. Creio que muitos de meus colegas da UNICAMP compartilham esta opinião. As acusações de que ele estaria fazendo um “expurgo” no Ipea me parecem injustas. Os motivos levando à rescisão ou ao questionamento dos contratos de alguns economistas do Ipea tem fundamentos jurídicos ou administrativos que não foram -, aparentemente -, contestados pelos próprios interessados. No entanto, na sua coluna na Folha, José Alexandre Scheinkman sugere que a equipe de Paes e Barros, o PB, estaria sendo perseguida. Caso isto se confirme, trata-se de algo mais grave. Penso que PB e Pochman deveriam esclarecer este assunto.
No meio da polêmica veio uma declaração de Delfim Netto que também merece comentário: “Nunca houve censura de nenhuma natureza no Ipea. No período da ditadura, eles atacavam a ditadura à vontade e ainda recebiam aumento de salário. O que espero é que não haja nenhuma censura à pesquisa acadêmica que o Ipea tem produzido” (Folha de 15/11/2007).
Fica parecendo, sobretudo para os leitores mais jovens, que a ditadura respeitava opiniões divergentes, não sendo tão ditadura assim (“até recebiam aumento de salário”). Mesmo vazada em tom cínico, a afirmação foi retomada tal qual, sem nuances, por outros jornais e vários blogs.
Ora, a ditadura – da qual Delfim Netto foi um dos pilares e continua sendo um obstinado defensor - era uma ditadura. Expurgava o Brasil inteiro. Matava, torturava, estropiava, reprimia, censurava e cassava os direitos políticos de quem queria, quando queria. Para ficar só no quadro das personalidades mais conhecidas, lembro os economistas punidos pela ditadura por puro delito de opinião: Paulo Singer, Maria Conceição Tavares, prêsos, ameaçados e humilhados. Chico Oliveira, prêso e torturado, Celso Furtado e José Serra, exilados com seus direitos políticos cassados e perseguidos fora do Brasil pela sanha de diplomatas-meganhas.
Pochman parece ter esquecido disso quando convidou Delfim Netto para fazer parte do Conselho do Ipea.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

OS MASSACRES DE 1937

Como já escrevi abaixo, não tenho a menor simpatia por Putin. Todos os democratas da Rússia, Oropa e Bahia têm mêdo do autoritarismo deste ex-meganha do KGB. Mêdo que ele feche ainda mais o frágil sistema político russo. Mas, na semana passada, o homem prestou um serviço relevante ao seu país e à democracia. Homenageava-se as milhares vítimas dos massacres perpetrados em 1937 por Stalin. Num discurso em Butovo, perto de Moscou, onde milhares de pessoas – camponeses, operários, intelectuais, donas de casa – foram fuziladas, Putin lembrou as vítimas e afirmou que estas tragédias acontecem quando “idéias ostentivamente atrativas mas vazias são postas acima de valores fundamentais, valores da vida humana, de direitos e de liberdade”. O New York Times fez um editorial sobre o assunto, retomado no Herald Tribune. Outros jornais também falaram nisso.
No Brasil este tipo de notícia não atrai a atenção de nenhum editorialista. A propósito, lembro-me de ter visto num canal brasileiro uma longa entrevista de Prestes. De 1931 a 1934, ele vivia na URSS e trabalhava lá como engenheiro. No meio da entrevista ele disse que o período – que desembocaria nos grandes massacres de 1937-1938 - era complicado porque havia “muita sabotagem” nas obras feitas na URSS. Putizgrila! “Muita sabotagem” era precisamente o termo usado por Stalin e sua polícia para justificar matanças pelo país afora. A coisa era assim: uma equipe de engenheiros e operários fazia uma ponte com prazo marcadinho para acabar, mas não havia cimento na quantidade certa. Com mêdo de ir para o Gulag, os caras terminavam a ponte de qualquer jeito. Aí, quando ela rachava, todo mundo era fuzilado sob a acusação de “sabotagem”. Prestes falou em “sabotagens” na maior cara limpa e o entrevistador (não me lembro quem era) nem piou. A entrevista continua passando nos canais aí no Brasil. A moçada e os velhos desinformados engolem numa boa a mentira criminosa de Prestes e a omissão do entrevistador.
O cartaz acima é tirado do blog do jovem russo
Alexander Zakharov, onde há uma grande coleção de cartazes da URSS. Tirei a informação do Le Monde.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

O "caso Lamarca" e o editorial da Folha

Lido aqui de manhã cedo, quando no Brasil ainda é alta madrugada, o editorial de hoje da Folha, “O caso Lamarca”, me deixa perplexo. Os argumentos avançados no texto, contrários à decisão de promover Lamarca a coronel e indenizar sua família, parecem coerentes. Mas em nenhum momento fazem referência à fundamentação jurídica seguida pela Comissão de Anistia.
Noutra página do jornal, vem resumido o histórico da decisão. “O primeiro reconhecimento da responsabilidade do Estado pela morte de Carlos Lamarca foi em 1996, quando a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério da Justiça determinou o pagamento de indenização à família.A decisão foi inovadora, já que a lei vigente limitava o pagamento às famílias dos mortos em dependência policial. Morto em campo aberto, entendeu-se que Lamarca já estava sob o cerco de agentes do Estado, sem condição de reagir. Em 2004, a lei foi alterada e as possibilidades de indenização, ampliadas. Anteontem, a Comissão de Anistia determinou o pagamento de pensão de R$ 12.152,61 à viúva. Os crimes ou a deserção do Exército não entraram em discussão porque, em 1979, o país aprovou a Lei da Anistia, que perdoou os crimes cometidos durante o regime militar.”
O julgamento dá lugar a controvérsias. Porém, o editorial da Folha enviesa o debate e termina com uma conclusão bizarra: “Por tratar-se de um prêmio à deserção, ademais, a equiparação de seus vencimentos ao de um general afronta os princípios de disciplina e subordinação, pilares das Forças Armadas”.

Faltou serenidade e sobrou ambigüidade. O editorial desconsidera o fato de que o caso estava praticamente julgado desde 1996, e que o crime de deserção fora apagado, anistiado, pela Lei de 1979. Não há, em espécie, nenhum “prêmio à deserção” ou qualquer “afronta” à disciplina militar. Mesmo porque os "pilares" das Forças Armadas, da CBF, do ensino escolar e do cotidiano brasileiro são o respeito ao Estado de Direito e à Constituição dele procedente. Quem não estiver de acordo deve recorrer aos tribunais.

domingo, 22 de abril de 2007

Pequim, Havana e Yahoo

A foto foi publicada no jornal cubano Granma e reproduzida no portal de O Globo. Fidel recebe uma delegação oficial chinesa dirigida por Wu Guanzheng, manda-chuva do PC da China.
A roupa vermelha, a barba longa e esbranquiçada, o rosto espanholado, a ponta capitelada de sua cadeira, o fundo branco, dão a Fidel a aparência de um velho cardeal da Cúria romana que lê orientações para os emissários de uma diocese asiática. Mas o assunto da conversa deles certamente não foi religião.
Talvez, Fidel tenha perguntado a Wu: como vocês fazem para se darem tão bem com os EUA? Sai Nixon, vem Ford, entra Carter, chega Reagan, surge Bush pai, ganha Clinton, sobe Bush filho e vocês continuam numa boa? Fazendo muitos bons negócios e dando tapinhas nas costas. ¡Caramba!, ¡Caracoles! Ustedes não exercem uma ditadura do proletariado tão leninista como a minha? Não são tão comunistas quanto eu? Por que só eu amargo 45 anos de embargo comercial e a hostilidade pertinaz de los gringos?
E Wu respondeu: Por causa da economia, estúpido! Porque o nosso mercado é imensamente maior que o seu! Porque, como disse um fabricante de cosméticos americano, temos 3 bilhões de sovacos esperando por desodorante! Porque nós compramos bônus do Tesouro americano pra xuxú! Porque o que conta mesmo é o número de consumidores chineses e não o número dos prisioneiros políticos chineses!
Segundo informa o Granma, Wu é Secretario de la Comisión Central de Control Disciplinario del Partido Comunista Chino
. Assim, a conversa pode ter abordado também a dificuldade de exercer o Control Disciplinario nestes tempos de Internet invasiva e blogosfera febricitante.
Aliás, Wu contou a Fidel que está incomodado. O processo que Wang Xiaoning abriu num tribunal de San Francisco pode dar rolo na Comisión Central de Control Disciplinario e gerar chiadeira contra a China nos EUA. Curioso, Fidel perguntou: mas o que aprontou este tal de Wang, Wu? Vê aí no Google News, disse Wu. Fidel gugou sem querer nas “news” brasileiras (vira e mexe, o Internet cubano dá estes paus) e só achou uma notícia merreca na parte de informática do Folhaonline
e chamadinhas noutras seções de informática. Gugou então em inglês e pescou o artigo do Herald Tribune onde está tudo explicado.
Por intermédio de sua mulher, Yu Ling, residente na Califórnia, Wang está processando Yahoo por fornecer à polícia política chinesa dados que permitiram o seu rastreamento e a sua prisão. Oposicionista que se exprimia na blogosfera, Wang pegou dez anos de cadeia. Na operação, outros dissidentes também foram presos e condenados.
Fidel leu a notícia cabreiro até chegar na declaração de Jim Cullinan, porta-voz de Yahoo. Aí deu um sorriso e disse para Wu : ¡Todo está bien!
De fato, conforme está escrito no Herald, Cullinan declarou:«As companhias fazendo negócio na China são forçadas a seguir as leis chinesas … Yahoo não sabe se o pedido de informações destina-se à investigações criminais legítimas ou vai ser usado para perseguir dissidentes políticos. »
A declaração segue uma lógica irrepreensível. E lança o argumento que servirá de base ao fascismo cibernético.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Passado recente: 13,94% = 74

Ontem, numa entrevista em Suape (Pernambuco), publicada pela Agência Estado, Lula fez uma comparação entre o crescimento econômico no seu governo e nos governos de JK e da ditadura.
"Em 1973, o Brasil cresceu 13,94% ao ano, mas o salário mínimo decresceu 3,4%"... "Na época de Juscelino (1956-1961),o Brasil cresceu 7%, mas o salário mínimo não acompanhou".E completou, "o milagre é trabalharmos com responsabilidade para permitirmos não só o crescimento do PIB, mas também a melhoria das condições de vida dos 190 milhões de brasileiros".
Assim, o presidente repetiu em Pernambuco a comparação que fizera em Davos, segundo o relato de Clóvis Rossi na Folha de São Paulo.
Acontece que no discurso de lançamento do PAC, de maneira muitíssimo mais pertinente, Lula havia explicitado a dimensão essencial daquilo que os filósofos da modernidade chamam de "bom governo". De fato, na ocasião ele salientou que o crescimento econômico na sua presidência se fazia em plena democracia e com o reforço das instituições democráticas. Justamente saudada em editorial pela Folha de São Paulo, a fala presidencial foi interpretada como um distanciamento de Chávez, que parece estar preparando uma transição para a ditadura na Venezuela.
Qual o motivo que leva Lula a não aplicar o mesmo critério essencial da democracia na avaliação do passado recente do Brasil? Por que nivelar a ditadura -, regime só comparável a tiranias da mesma laia, precisamente denominadas "regimes de exceção" -, à plena democracia em que vivemos hoje e à legalidade constitucional do governo JK?
Lula desvaloriza sua luta, a luta do PT e de todo o movimento democrático, e deseduca o país, ao misturar governos antagônicos na sua prática e na sua essência.
Fica então o registro de um fato crucial que deveria ser ensinado nas escolas e, principalmente, nas escolas de Economia: com 13,94% de aumento do PIB, 1973 terá sido o ano em que o Brasil mais cresceu. Com arrocho salarial, repressão anti-sindical, censura de imprensa e suspensão de direitos civís, a economia do país aumentou. E 1973, foi também o ano em que houve um “record” sinistro: 74 opositores à ditadura, cujas biografias vão listadas abaixo, foram assassinados ou “desapareceram” para sempre.

Afora os períodos de guerra civil, nunca na história deste país tantos oposicionistas foram massacrados pelo governo em tão pouco tempo!

Adriano Fonseca Filho
Alexandre Vannucchi Leme
Almir Custódio de Lima
Anatália de Souza Melo Alves
André Grabois
Antônio Alfredo de Lima
Antônio Carlos Bicalho Lana
Antônio Guilherme Ribeiro Ribas
Antônio Teodoro de Castro
Arildo Valadão
Arnaldo Cardoso Rocha
Caiuby Alves de Castro
Cilon da Cunha Brun
Custódio Saraiva Neto
Dinaelza Soares Santana Coqueiro
Dinalva Oliveira Teixeira
Divino Ferreira de Souza
Durvalino de Souza
Edgard Aquino Duarte
Elmo Corrêa
Emanuel Bezerra dos Santos
Eudaldo Gomes da Silva
Evaldo Luiz Ferreira de Souza
Francisco Emanoel Penteado
Francisco Seiko Okama
Geraldo Magela Torres Fernandes da Costa
Gilberto Olímpio Maria
Gildo Macedo Lacerda
Guilherme Gomes Lund
Helber José Gomes Goulart
Henrique Cintra Ferreira de Ornellas
Honestino Monteiro Guimarães
Jaime Petit da Silva
Jarbas Pereira Marques
João Batista Rita
João Gualberto Calatroni
Joaquim Pires Cerveira
Joel José de Carvalho
Joel Vasconcelos Santos
José Carlos Novaes da Mata Machado
José Huberto Bronca
José Lima Piauhy Dourado
José Manoel da Silva
José Mendes de Sá Roriz
José Porfírio de Souza
Líbero Giancarlo Castiglia
Lincoln Bicalho Roque
Lúcia Maria de Souza
Lúcio Petit da Silva
Luíz Guilhardini
Luiz José da Cunha
Luíza Augusta Garlippe
Manoel Aleixo da Silva
Manoel Lisboa de Moura
Márcio Beck Machado
Marcos José de Lima
Maria Augusta Thomaz
Maurício Grabois
Merival Araújo
Orlando Momente
Pauline Reichstul
Paulo Mendes Rodrigues
Paulo Roberto Pereira Marques
Paulo Stuart Wright
Ramires Maranhão do Vale
Ranúsia Alves Rodrigues
Ronaldo Mouth Queiroz
Rosalindo Souza
Soledad Barret Viedma
Sônia Maria Lopes de Moraes Angel Jones
Suely Yumiko Kanayama
Umberto Albuquerque Câmara Neto
Vitorino Alves Moitinho
Walkíria Afonso Costa

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Memórias do século passado


Saiu hoje na Folha de São Paulo um artigo meu sobre a eventual entrada de Delfim Netto no governo do segundo mandato de Lula. Estava há algum tempo com este artigo entalado na ponta dos dedos e tinha falado sobre o assunto em palestras feitas em agôsto e setembro, no Rio, em Curitiba, em São Paulo e em Belo Horizonte, no ciclo "Esquecimento e Memória", organizado por Adauto Novaes. Na altura, houve uma reportagem sobre a palestra na Maison de France, no Rio.
Memórias do século passado
- Eventual ascensão de Delfim Netto ao governo Lula seria flagrante traição política, um acinte a uma parte dos que combateram a ditadura -

NO NOTICIÁRIO sobre o novo governo, um nome aparece freqüentemente: Delfim Netto. Ungido por consagradora reeleição e índice de aprovação jamais igualados, Lula deve pensar que pode nomear quem quiser em qualquer lugar. Assim, com a admiração unânime dos povos e aplauso geral da nação, Delfim Netto poderá ser novamente alçado a um ministério. Desta vez, num governo presidido pelo PT. A eventualidade dessa nomeação suscitou alguns sarcasmos e perplexidades. Fernando Henrique, após classificar Delfim Netto de "algoz da ditadura", ironizou a nova amizade entre o ex-ministro e Lula. Mas suas palavras fariam mais sentido se ele próprio não tivesse nomeado Pratini de Moraes -também integrante do governo do sinistro ditador Médici- no seu segundo mandato na Presidência e não tivesse introduzido Jarbas Passarinho, também estadista do AI-5, no conselho político de sua campanha de reeleição, em 1998..."

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domingo, 24 de dezembro de 2006

Passado recente


No G1, sítio de informação online da Globo, há um vídeo interessante sobre o passado recente brasileiro. Trata-se da notícia da morte do general-presidente Figueiredo, em 1999.
Fátima Bernardes faz uma síntese razoável do destrambelho que foi a última presidência da ditadura. No final, ela repete a frase que este ditador patético deixou como balanço de seu desastroso mandato usurpado aos cidadãos brasileiros: “Espero que me esqueçam!”. Mas há uma declaração mais grotesca ainda. No último dia de seu mandato, numa seqüência filmada pela finada TV Manchete, o jornalista (talvez Alexandre Garcia, se não me falha a memória) perguntava a Figueiredo algo do gênero: “ o quê o senhor teria a dizer ao povo brasileiro”. E aí, supremo esculacho, Figueiredo declara a uma nação de 180 milhões de habitantes, independente há quase dois séculos: “aqui ó pra ocês!” e o homem nos dá uma banana!
Foi assim -, senhoras e senhores -, que acabou a ditadura. Da maneira mais réles. Estas imagens, que pertencem ao espólio da TV Manchete, podem ter sido destruídas. Obviamente, a TV Globo nem menciona a declaração filmada pela TV Manchete.
A propósito, quando é que vai acabar, no Brasil, esta baixaria de os jornais e a mídia em geral não citar notícias publicadas por seus concorrentes locais?
Quando Bush se preparava para visitar o Brasil (antes da viagem à cúpula de Mar del Plata,novembro 2005), ele deu uma coletiva em Washington a correspondentes latino-americanos sorteados para participar do evento. No caso, o brasileiro sorteado foi o correspondente de um jornal paulista, o qual publicou no dia seguinte, todas as declarações do presidente dos EUA. Outro jornal paulista, para não citar a matéria do concorrente, reproduziu as declarações do presidente americano a partir da reportagem publicada no jornal El Clarín, de Buenos Aires.
P.S. No blog do Alon Feuerwerker, que indicou generosamente meu blog, trazendo-me muitos leitores, apareceu outro dia uma entrevista minha sobre o liberalismo no Brasil.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Pinochet e as esquerdas na América Latina e na Europa


Há uma entrevista minha na Folha de São Paulo de hoje sobre a morte de Pinochet. Segue o texto.

Pinochet dividiu as esquerdas na Europa
Para historiador, "capítulo negro" representado pelo golpe de 1973 no Chile teve reflexos políticos mundiais.
Rafael Cariello, da Reportagem Local
"Encerrou-se um capítulo negro da história da América Latina", diz o professor de história do Brasil na Universidade de Paris-Sorbonne, Luiz Felipe de Alencastro, sobre a morte do general Augusto Pinochet. Para ele, o golpe de 1973 no Chile foi "algo sombrio" não só para os países da região mas para as esquerdas do mundo todo, particularmente na Europa. Partidos progressistas tiveram que reavaliar, diz ele, a viabilidade de reformas profundas como as propostas por Salvador Allende, destituído por Pinochet, a partir de uma maioria frágil. Terminaram se dividindo entre os que pregavam amplas alianças, como o Partido Comunista Italiano, e os que partiram para a radicalização e a luta armada, como as Brigadas Vermelhas.


FOLHA - O que o general Pinochet representou para a história da América Latina?
LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO - Para a história do Chile, em primeiro lugar, e aí para a América Latina, foi um fato muito surpreendente. Porque se tratava do país da região que tinha a vida política mais bem estruturada. Tanto o Brasil quanto a Argentina já tinham tido golpes e tumultos antes, mas o Chile, não. A eleição de Salvador Allende [1908-1973] aparecia como a chegada ao poder, pela via democrática, de um presidente assumidamente marxista, com uma aliança de união de esquerda e que prefigurava um pouco o debate que ocorria na Europa, na França e na Itália, a respeito de candidaturas similares de esquerda. No caso da França, a identificação com o [François] Mitterrand [1916-1996] era grande. Allende tinha um perfil bastante próximo daquele do político francês de esquerda: era laico, era maçom, o que criava outra rede de simpatias e de alianças, era um homem muito aberto. Na América Latina foi um choque, o sinal de que nada escapava a essa vaga de golpes e de ditaduras -que na realidade tinha começado com o Brasil. Na França e na Itália, principalmente, foi um alerta muito grande, na medida em que se percebia que não se podia avançar em transformações sociais muito radicais, mesmo sendo eleito, com maioria simples de votos. Que era preciso uma aliança mais ampla. Foi isso que levou o Partido Comunista Italiano a propor o compromisso histórico, uma aliança com a Democracia Cristã. Aí suscitou também uma radicalização da extrema esquerda contra isso, o que acabou no assassinato de Aldo Moro [primeiro-ministro italiano, seqüestrado e morto pelas Brigadas Vermelhas em 1978]. O golpe do Chile foi, portanto, exemplar a duplo título. Para nós, foi essa coisa sombria, essa escuridão que se abatia sobre a América Latina inteira. Tanto mais que nesse caso a implicação da CIA e do governo americano foi uma coisa muito mais explícita. Na Europa, na esquerda, foi um alerta pesado -e daí a comoção muito grande que houve aqui e o acolhimento que se fez aos exilados chilenos, com os quais vieram muitos argentinos e brasileiros.
FOLHA - A morte de Pinochet pode trazer alguma conseqüência política atual para o Chile, para o modo como a sociedade chilena se relaciona com seu passado de ditadura?
ALENCASTRO - O caso do Chile é exemplar, do ponto de vista das ditaduras, porque o país foi um dos articuladores da Operação Condor -que era a operação de cooperação internacional das ditaduras, da qual o governo brasileiro também participou. Foi uma coisa extremamente audaciosa de terrorismo internacional. Isso criou uma série de problemas jurídicos depois -o fato de terem torturado, matado e desaparecido com vários estrangeiros. O mesmo no caso da Argentina. Foi isso que levou a ações como a do juiz Baltasar Garzón e outras. Porque tinha havido assassinato de espanhóis e de pessoas de outras nacionalidades. Isso criou um problema jurídico mais duro de roer para o governo chileno. Tornou-o mais vulnerável. Os chilenos sempre insistiram em que eles é que deveriam julgar o Pinochet. O fato é que as ações judiciais começaram fora do Chile. Mas já houve, por lá, prisão de gente implicada em assassinatos, por exemplo, há interrogatórios e várias pessoas que não podem sair do Chile.
FOLHA - A morte de Pinochet muda alguma coisa?
ALENCASTRO - Encerrou-se um capítulo negro da história da América Latina e do Chile.
FOLHA - Por que Argentina e Chile lidaram de modo diferente com o passado de ditadura do que o Brasil?

ALENCASTRO - Porque a desproporção da repressão é muito grande. No Brasil deve haver uns 300 desaparecidos. Na Argentina fala-se de pelo menos 15 mil, e tem gente que fala em 20 mil, 30 mil. No Chile se fala em 5.000. Houve muito mais exilados, proporcionalmente, na Argentina e no Chile.
FOLHA - Qual a ligação entre essas várias experiências ditatoriais? Elas estão definitivamente afastadas?
ALENCASTRO - Esse ciclo mais recente tem a ver com a Revolução Cubana e a entrada da Guerra Fria na região. Com seu final, não há mais esse dínamo por trás dessas crises todas que possa haver aqui e ali.



sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

Jornais boreais IV: croissants e marxismo



O International Herald Tribune publica hoje uma reportagem sobre as ligações entre Montargis, pequena cidade francesa situada a 100 kms ao sul de Paris, e alguns líderes da Revolução Chinesa. Nos anos 1920 -, Zhou Enlai (o segundo homem mais importante da China contemporânea e primeiro-ministro de 1949 até sua morte em 1976), Li Fuchun (o principal economista do Partido Comunista Chinês), Li Weihan (um dos comandantes da Grande Marcha e vice-presidente do Senado), Chen Yi (futuro chanceler), o grande romancista Ba Jin e Deng Xiaoping, que mandou no país entre 1981 e 2002 e transformou a China na mastodôntica potência econômica de hoje -, estudaram e trabalharam em Montargis. Na França, conheceram e apreciaram o marxismo e os croissants (que os chineses que preferem agora estudar nos EUA, chamam, como muitos americanos, de French donuts).
Passando batido sobre a influência dos operários e da esquerda francesa na politização dos futuros líderes chineses, o IHT insiste sobre o gôsto de Deng Xiaping e de Zhou Enlai pelos croissants. Enquanto o
Le Monde, numa reportagem de alguns meses atrás, menciona a importância da influência cultural francesa sobre os jovens chineses. E diz até que o Partido Comunista da China teve suas origens em Montargis.
Por traz da matéria do Le Monde há, talvez, a nostalgia do tempo sem retôrno em que muitos futuros líderes mundiais vinham estudar na França. Mas a reportagem do IHT mostra como este jornal piorou. Trata-se de uma matéria não assinada, requentada do artigo anterior do Le Monde e copiada da Associated Press. Sediado em Paris desde 1887, o IHT tinha redação própria. Em certa época, foi propriedade do Washington Post e do New York Times. Acho que foi seu melhor período. Alguns assuntos - como a crise do Watergate – eram cobertos com mais continuidade no IHT do que em qualquer jornal dos EUA. Depois o NYT comprou a parte do WP, desmontou a redação parisiense do IHT, transformando-o numa filial européia para reproduzir artigos da redação nova-iorquina. Agora é um jornal que ainda dá para ler de manhã, quando não se pode acessar o site do NYT. Mas não tem nada a ver com o que já foi.