quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

III - Passado e futuro


As circunstâncias que marcaram a deportação dos africanos e sua escravização, pesam no processo de integração dos afro-brasileiros à cidadania. Na verdade, os negros estarão sempre reduzidos a se referir à identidade -, portentosa no seu conteúdo, mas angustiante na sua generalidade -, de sua origem africana.
Carioca da gema e escritor maior da pátria, o afro-brasileiro
Lima Barreto (1881-1922, foto ao lado), deixou registrada no seu Diário Íntimo (publicado em 1953), uma nobre interpretação sobre o desterro dos negros. Escrevendo no auge da política imigrantista, Lima Barreto concluía que os negros e os mulatos -, sendo os únicos brasileiros que não podiam se prevalecer da influência de suas pátrias de origem, pois não tinham para onde voltar porque não sabiam de onde vinham -, eram os que se uniam com mais força ao destino do Brasil.
A propósito da literatura de Lima Barreto, deve-se sublinhar a contribuição africana e afro-brasileira à formação de nossa língua nacional. Até 1850, na maior parte das regiões brasileiras, e nas cidades do Rio de Janeiro, Salvador, Niterói, Campos e muitas outras, a população africana e afro-brasileira sobrepujava a população de origem européia ou indígena.
Desse modo, a língua brasileira contém a presença marcante de várias línguas africanas, geralmente ignoradas pelos dicionaristas. Diferentes dicionários, glossários, manuais e catecismos utilizados pela administração colonial e pelos missionários na África – elaborados e editados entre o século XVI e o século XX - têm a contribuição de africanos e afro-brasileiros, de moradores do Brasil, onde certas línguas africanas e, em particular, o quimbundo, língua da família banto muito falada em Angola, eram conhecidas e praticadas. Tal tradição torna-se essencial para o entendimento da evolução de nossa língua e para o estudo da História da África, atualmente estimulada nas universidades.
Sem abordar os estudos que descrevem s desigualdades vitimando os afro-brasileiros, convém lembrar os efeitos duradouros da proibição de voto dos analfabetos. Instaurada pela chamada Lei Saraiva em 1881 e mantida até 1985, a exclusão dos analfabetos adultos do processo eleitoral atingiu, certamente, a generalidade da população. No entanto, os estudos demonstram que a população negra, na qual a taxa de analfabetismo era maior, foi proporcionalmente mais vitimada do que a população branca pelo embargo de cidadania resultante desta legislação.
Enfim e sobretudo, perfila-se uma evolução demográfica decisiva. Como é sabido, observa-se um declínio das taxas de fecundida das brasileiras. Mas esta queda é mais lenta no contingente das mulheres negras (incluídas as “pretas” e as “pardas”, na nomenclatura do IBGE). Num momento mais ou menos próximo, o conjunto da população afro-brasileira, que já se avizinha da proporção representada pela população branca, passará a ser majoritário.
Em conclusão, voltaremos, nos próximos anos, a ser o que já fomos até 1870, uma nação majoritariamente negra. A maior do mundo num país fora da África.

2 comentários:

Anônimo disse...

Legal, a idéia de Lima Barreto

João Paulo Rodrigues disse...

Essa luta pela negritude ou branqueamento do Brasil é um misto de importação americana, em que um hifenismo sem lastro social (ninguém fala em afro-brasileiro ou em nipo-brasileiro fora de certos círculos letrados) se alia a uma refirmação do racialismo, na medida em que lutas universalistas perdem prestígio.
Num país misturado e com outra compreensão da importância da cor (ainda que muito racista), insistir numa pedagogia da raça vai dar num misto de manutenção do racismo com fatuidade das medidas cotistas, tal como se avizinha.
E o mais triste é ver a imposição da dicotomia preto-branco, mal mascarada pela manipulação da categoria (sic) pardo em dados oficiais.