segunda-feira, 21 de maio de 2007

Poder ter poder

Foto da Reuters no Libération
Estas fotos de Sarkozy entrando no palais de l’Elysée de bermudas, vindo do seu jogging, um dia depois de sua posse na presidência, sugerem inevitávelmente ao leitor brasileiro a lembrança delle. Nos dias seguintes, o espalhafato em torno de Sarkozy, de sua família e de suas corridinhas em outros paradeiros presidencias pareceu confirmar o paralelo com elle. Decerto, Sarkozy entretem comportamentos de maquinação midiática que -, de John Kennedy (os vestidos chics de sua mulher, os passeios de veleiros em Cape Cod, a foto com o filho pequeno debaixo da escrivaninha) a Collor -, incorporaram-se ao exercício do poder contemporâneo. Aliás, nem tão contemporâneo assim. Quem conhece, mesmo sem ter lido, o assunto das Mémoires de Saint-Simon sobre a corte de Luís XIV (8 grossos volumes em papel bíblia da coleção La Pléiade, da Gallimard!), ou viu o magnífico documentário de Rosselini sobre a tomada do poder por Luís XIV, sabe que o espetáculo do poder é consubstancial ao exercício do poder.
Não obstante, o projeto de Sarkozy vai bem além das aparências modernosas e se inscreve no longo prazo.
De imediato, assinalo algumas tacadas dele que viraram o jogo pesadamente em seu favor e destabilizam o PS e a esquerda às vésperas da campanha para as Legislativas. A evocação da Resistência, e de um resistente comunista de 17 anos, Guy Môquet, fuzilado pelos nazistas em 1941; a viagem rápida a Berlim para encontrar Angela Merckel e tentar relançar a União Européia; as seis mulheres dirigindo ministérios importantes e outra ainda num ministério secundário; a principal, Rachida Dati, juíza e nova ministra da Justiça, é filha de um pedreiro marroquino e de uma argelina; a nomeação de Bernard Kouchner no ministério das Relações Exteriores e a adesão de outras personalidades socialistas ao governo. Falei um pouco disso no meu comentário semanal no UOL News e voltarei ao assunto.

4 comentários:

milton ohata disse...

Caro prof. Alencastro,

por certo, o Poder sempre precisou de espetáculo - seja em Versalhes, na Casa Branca ou no lago Paranoá. Mas o republicanismo histórico pressupôs uma certa austeridade pública, a despeito dos holofotes, não? No caso francês, basta lembrar as cenas de De Gaulle na volta a Paris depois da Segunda Guerra, alto e magro, desfilando à pé na grande Avenida, os dois braços semi-levantados, saudando contidamente a multidão. Há ali uma "grandeur" que dignifica a sua presença pública. "Austeridade", "contidamente", "dignifica", "grandeur". Temo parecer ridículo ao usar essas expressões numa era em que a regra é a "evasão de privacidade" (Ziraldo, em Bundas, criticando o exibicionismo assumido pelas pessoas em Caras). Mas parece que vivemos uma crise e, como no nazismo (que usou e abusou do recurso), a política "tradicional" fica impotente diante do que vem por aí. Elle sempre soube disso.

Danilo disse...

O Sarkozy está seguindo a cartilha do Lula, mas com sinais invertidos, ou seja, roubando as bandeiras da oposição para desarticulá-la. Da mesma forma que Lula empunhou a bandeira da estabilidade monetária, Sarkozy nomeou mulheres e ao que parece vai empunhar a bandeira verde. É assim que se faz...

José da Silva disse...

Pelo que entendi, parte da esquerda está aderindo a um governo supostamente de direita. Se isso acontece na França, é cada vez mais pertinente colocar sob suspeita as noções de esquerda e direita. Mesmo na teoria, há pouca clareza de quem é quem. Na prática, então...

Fernando Borges de Moraes disse...

They are the same, all over the world...