domingo, 9 de março de 2008

A crise das Farc: making of de um artigo

Crianças colombianas mobilizadas na 'Guerra de los mil dias" (1899-1902)
O Estadão me convidou no começo da semana para escrever, para o caderno dominical Aliás, um artigo sobre as Farc e as tensões regionais geradas pelo ataque colombiano em solo equatoriano. Como a crise evoluía muito rapidamente, passei a semana coletando material. Mas só comecei a redigir o texto na sexta-feira de manhã (o deadline do jornal era às 18 horas, horário brasileiro): esperava não ser surpreendido por nenhuma novidade que desmontasse os argumentos desenvolvidos no texto.
Zapeando no meio da semana, vi na TV a cena em que Chávez decretava a mobilização de suas tropas. De camisa vermelha, falando no meio da multidão para um ministro da guerra parecido com aquele gordinho de óculos do programa Chaves, da SBT, Chávez, o outro, ordenava com voz tonitruante:“que se mande diez regimientos, que se despliegue la aviación militar!”. Entre um pistache e outro, pensei: «ou o cara ficou doido ou está brincando». Doido, Chávez não é: nunca interrompeu as exportações de petróleo venezuelano para os Estados Unidos. Por isso, comecei a redigir o artigo num enfoque de longo prazo que excluía a iminência de um conflito armado envolvendo a Colômbia, a Venezuela e o Equador. O fato de que Chávez, Uribe e Correa não tivessem desmarcado sua presença na reunião do Grupo do Rio em Santo Domingo, confirmava esta impressão. Mas o tom de muitos sítios de informação era:«There will be blood!». No final do dia, sexta-feira à noite, veio a notícia e as imagens: Chavez, Uribe e Correa estavam se abraçando em Santo Domingo. Tant mieux! Mas a imprensa brasileira traz hoje artigos que começaram a ser impressos antes do final da crise, imaginando que a guerra iria rebentar de uma hora para outra. Veja-se a capa da
Veja.
A certa altura escrevi que a guerra com as Farc é o conflito mais antigo do mundo. O raciocínio teria ficado mais completo se tivesse inserido a frase que agora vai em itálico (incluo também a referência do estudo em que me baseio):
«Estudos especializados registraram um total de 229 conflitos armados em 148 países entre 1946 e 2003. No meio tempo, a grande maioria destas guerras cessou. Assim, excluídos os conflitos inter-étnicos oriundos de partições territoriais estabelecidas após 1945 (Palestina, Território Karen na Mianmar-Birmânia, Cachemira na Índia), a guerra do governo colombiano com as Farc, cujos combates começaram em 1966, configura o mais antigo dos conflitos mundiais
[1].Considerando-se que tal fato ocorre num país independente desde 1819, a guerra civil colombiana apresenta-se como um caso único na história do mundo contemporâneo ». O artigo completo está aqui.

[1]. Mikael Eriksson e Peter Wallensteen, « Armed Conflict 1989-2003 », Journal of Peace Research, v. 41 (5), 2004, pp. 625-636.

5 comentários:

Anônimo disse...

Oi, Luiz Felipe
Que bacana, teu blog. Passeei rapidamente por alguns de teus artigos, especialmente aqueles que tratam das paredes de Paris, gostei demais. Tão observador, você.
Obrigada,
Maranúbia
(Londrina - PR)

Anônimo disse...

Olá.
Gostei do artigo porque é o primeiro de algum comentarista mais à esquerda que não inverte as opções, ou seja, condena o papel desestabilizador das FARC, em vez de contabilizar todos os problemas ao governo colombiano.
Mas há um trecho que não me parece ser a única interpretação possível: "O bombardeio teria sido precipitado para fazer abortar a libertação iminente de Ingrid Betancourt sob os auspícios de Chávez". Esta libertação era iminente segundo quem? As FARC? As mesmas que afirmavam que tinha aquele menino e depois se revelou que mentiam? Creio ser de bom alvitre ficarmos com três pés atrás em relação aos nobres seqüestradores das selvas. De qualquer forma, há a forte possibilidade que o ato de Uribe tenha tido o simples intento duplo de avisar que não negocia e ponto, e que não tolerará as intromissões dos governos vizinhos. Afinal, se a "betancurização" incomoda a população colombiana, melhor seria que ela fosse libertada logo, para as FARC sentirem a pressão de liberarem mais gente, o que, obviamente, interessa ao governo colombiano, já que, quanto mais gente for libertada, mas fraca fica a guerrilha. Da mesma forma, a manutenção dela em cativeiro só prolongaria a angústia e a centralidade da questão, o que continua a reforçar o papel de agentes externo, algo que visivelmente (e corretamente) irrita Bogotá. O melhor seria, então, deixar Betancourt sair do cativeiro, ficar sob os holofotes enquanto o governo continuasse com sua ofensiva (se uma refém tão importante foi libertada sem nenhum condicionante ou alteração da estratégia governamental, qual o sentido do governo alterar sua posição?). Assim sendo, me parece que Uribe optou pelo mais certo e imediato, em vez da possibilidade exposta no artigo.
Um abraço.

João Sebastião Bar disse...

Caro Professor Alencastro,

Seu artigo é uma aula de história e de jornalismo que tem compromisso com a verdade factual, como poucos na terrinha. Parabéns.
Com relação a Veja e os “Colonistas” (copyright PHA) da mídia nativa, mistura de jornalismo de esgoto, pior que o estilo Olavo de Carvalho, terrorismo ala FoxNews e como bem analisou o Gilson Caroni Filho: Crise e canto de sereia na América Latina, Carta Maior.

Como o novo hit-hop de sucesso na novela triller que rompe milhares de blog no Brasil e no mundo, o Dossiê Veja, de Luiz Nassif, deixa a grande mídia surda e muda, como escreveu Mino carta: “Neste sentido, a mídia nativa, rosto tradicional do poder, continua empenhada na permanência das coisas como estão para ver como ficam”.
Sds,
JSB

Ricardo disse...

Apenas uma correção: O presidente colombiano de 1988 a 2002 foi Andrés Pastrana, e não 'Misael' Pastrana.

sergio disse...

Professor,
1. na segunda metade dos anos 80 as FARC e o M19 criaram a União Patriótica, braço parlamentar e tentativa de institucionalização do grupo. O que sucedeu foi um massacre de mais de 3500 militantes.
2. Uribe foi eleito com o apoio do nacotráfico, assim como Samper anteriormente. As referências às relações entre sua família e Pablo Escobar, por exemplo, são públicas e notórias.
Abraços,
Sérgio