sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

O padre Antônio Vieira, Maurício de Nassau e o tráfico negreiro

Comemora-se neste ano o 4° centenário do nascimento do padre Antônio Vieira. Perspicaz conselheiro régio, brilhante escritor, orador sacro e visionário, Vieira era também um homem realista sobre as coisas deste baixo mundo. Grande patriota português (curioso que haja gente insistindo em considerá-lo « brasileiro », coisa que não existia na época), Vieira propôs a venda de Pernambuco e Angola aos holandeses nos anos 1640, para fazer as pazes com a Holanda e concentrar o esforço militar português na guerra fronteiriça contra a Espanha. Entre outras coisas, Vieira foi também um constante defensor do tráfico negreiro para o Brasil. Aliás, no meu entender, ele é o autor da mais audaciosa justificação do tráfico negreiro do período colonial.
Em 2004, comemorou-se em Siegen, na Alemanha, o nascimento de Johann Moritz von Nassau-Siegen, mais conhecido em Recife e Luanda como Maurício de Nassau.
Ao seu turno, Nassau é glorificado no Brasil e na Europa pelo seu espírito ilustrado. Mas costuma passar-se sob silêncio que ele também foi um defensor obstinado do tráfico negreiro e um dos principais responsáveis pelo envolvimento dos holandeses no comércio de africanos. Falei sobre isto no colóquio organizado em Siegen (terra natal de Nassau e cidade onde ele está sepultado). Saiu agora o livro coletivo, organizado pelos professores Gerhard Brunn e Cornelius Neutsch, "
Sein Feld war die Welt -Johann Moritz von Nassau-Siegen 1604-1679", com as atas do colóquio. Num dos capítulos falo sobre Nassau e o trato negreiro.
Já escrevi bastante sobre isso em vários lugares.
Aqui mesmo e, mais detalhadamente, no meu livro O Trato dos Viventes.
O padre Antônio Vieira e Maurício de Nassau foram, sem dúvida, dois dos homens mais ilustres que viveram no Brasil colonial. O verdadeiro desafio para o historiador consiste em explicar as razões que os levaram a entrar de cabeça no comércio de escravos. A facilidade intelectual, consiste em pretender que esse assunto não existe ou é de somenos importância. É isso que fazem muitos professores de história do Brasil, de Portugal e da Holanda. É o que faz João Lúcio de Azevedo na biografia do padre Vieira que está sendo reeditada no Brasil. Quem quiser conhecer uma abordagem lúcida sobre o assunto deve ler a biografia de Vieira escrita no século XIX pelo maranhense João Francisco Lisboa, também reeditada no Brasil recentemente.

10 comentários:

Patrick disse...

Sobre Nassau: passam em branco também as carnificinas cometidos pelos holandeses no Nordeste. Aqui no Rio Grande do Norte, o 3 de outubro é feriado estadual em homenagem às vítimas dos massacres de Uruaçu e Cunhaú.

Claudia disse...

Luiz Felipe,

Fundamental refazer a imagem do Vieira. Antes tarde do que nunca. E não falta por aí gente que se pudesse indicava Vieira para santo.

Não julgo Vieira, suas atitudes são coerentes com seu tempo. Me parece claro que no Brasil do século 17 todo mundo era escravista salvo, é claro, índios e africanos.

Mas como as pessoas podem imaginar que um missionário Português, colonizador e nacionalista (como você bem frisou) fosse contra a escravidão.

Eu fico pensando de onde poderia ter vindo, mas não veio, uma cumplicidade dos jesuítas com o sofrimento dos Africanos? Eles não tinham de onde tirar nem cumplicidade, nem respeito ao sofrimento dos Africanos, como não havia cumplicidade com os índios também não.

E até hoje aqui estamos, tentando reverter o quadro de desumanidade geral desta velha nação colonial.

Já o Nassau, para mim é uma bobagem. Não entendo a importância que se dá a passagem holandesa em Pernambuco. Talvez eu precise ler mais Luiz Felipe de Alencastro. Para mim apenas mais um bando de colonizadores, mas fracassados. Colonizador, não tinha nenhum bom.

Abraços,

Claudia

Márcia W. disse...

Alencastro,

não canso de me impressionar como em Pernambuco falam do Nassau como se ele fosse o rei da cocada branca, da maronzinha e a da que puxa e aqui na Holanda nunca conheci ninguém que soubesse que parte da Brazuca já foi colônia deles. Aliás, conheci uma nativa que mora numa rua chamada Pernambuco e achava que era algum lugar exótico na Indonésia. Concordo com a Claudia que colonizador bom não existe, talvez seja uma contradição em termos...Mas o que me deixa perplexa é como aqui, pelo menos, eles não querem e não gostam de falar nisso, inclusive tem muita gente que não sabe porque tem tanta gente do Suriname aqui.
Dito isso, pelo menos a casa do Nassau virou um museu onde estão preciosidades como a "moça com brinco de pérola" do Vermeer.
Desculpem o comentário longo mas estou numa fase "prontoconfesseipontocompontobr".
abs

Dourivan Lima disse...

Professor Luiz Felipe,

Você faria um paralelo entre o Vieira na América portuguesa e o dominicano Bartolomé de Las Casas na América espanhola (e nas suas respectivas cortes?)

luiz felipe de alencastro disse...

Caro Dourivan

a) Las Casas foi a favor do tràfico negreiro em 1516, quando ainda não havia a experiência historica da deportação maciça das populações africanas para as Américas. Vieira sustentou decidamente o tràfico na segunda metada do século XVII, quando o drama atingia patamares inéditos.

b) A Espanha não tinha interesses na Africa negra.Enquanto Portugal era a maior potência negreira européia

c) os dominicanos espanhois (ordem de Las Casas) tinham pouca ou nenhuma implantação e conhecimento da Africa. Os Jesuitas (ordem de Vieira), conheciam Angola e o Congo na palma da mão, mantendo uma provincia (divisão regional da ordem)nos dois lugares

d) Os dominicanos tinham pouco envolvimento com o tràfico e a escravidão. Os jesuitas tinham ambas as pràticas e foram denunciados pelos Capuchinhos do Congo por causa disso.

abraços

Anônimo disse...

uma vez mais, ainda:
Desculpe uma antropóloga vir lembrar o preceito metodológico denominado anacronismo: será o que faríamos nós se nascidos no seculo XVII? Numa modernidade pré-iluminista, como construir valores visando a justiça universal, para todos? Ainda não era chegado o tempo das utopias igualitárias. O debate eclesiástico, já contaminado pela razão que vinha correndo pra ocupar seu espaço no século seguinte, se desdobra pra tomar uma posição naquele mundo dizendo: escravizar um homem livre é pecado, comprar um homem escravizado não (e como aprendi em seu livro, 90% dos africanos aqui desembarcados foram comprados dos sobas, africanos traficantes de africanos). Hoje são bolivianos semi-escravos nas confecções de São Paulo, nordestinos escravizados pelo agro-negócio amazônico... Menos, amigos, não temos moral para condená-los: e Cláudia, você tem mesmo certeza que os africanos eram anti-escravocratas? Só se fosse pra livrar a própria pele, porque a de outro, que não ele e os da sua tribo, podia e devia ser escravizada...
E Antonio Vieira tem parte de brasileiro sim, mestre: sem sua experiência com nossa flora, nossa fauna, nossas águas, nosso sol, nossa gente, não creio que sua retórica tivesse chegado ao ponto que chegou. A mil metros de onde moro, em São Francisco de Niterói, tem uma igrejinha linda construída por ele, de frente pra paisagem mágica da guanabara, pão-de-açúcar e corcovado ao fundo. Ninguém com um pingo de alma é capaz de experienciar uma beleza tão divina sem se questionar...
Mônica
Ps – professor, o que o senhor acha do livro do Todorov sobre Las Casa, Cortez e Montesuma?

Sergio Leo disse...

Caro Anônimo, embora eu lamente também não poder ser compatriota de Vieira, a verdade é que o homem era portuguezaço, luso de quatro costados, volta e meia de olhos postos nas políticas da terra ibérica que havia deixado. Não é minha ignorância quem diz, mas a autoridade do Antônio Cãndido, em seus excelentes livros sobre a formação da Literatura Brasileira. Enquanto Vieira escreve divinamente, mas baseado em modelos importados da matriz, com o objetivo de deitar no Novo Mundo a cultura européia (a palavra de Deus incluída nisso), quem, sim, foi tocado pela flora, fauna, povo e línguas da terra apinhada de tupis foi outro padre, o José de Ancheita. Esse, que eu saiba, não defendeu a escravidão.

Fiquei curioso e adorei seus comentpários, professor. Vou catar na rede esse Vieira defensor do tráfico...

Paulo disse...

concordo com a Mônica quando ela fala do anacronismo. Joseph Miller em uma entrevista falou sobre esse convívio de pessoas com o violento tráfico, ele diz exatamente que não existia sentimento de humanidade, e sim de grupos, e que esses grupos tinham o objetivo de dar sequencia a esse grupo, e que para isso até sacrificavam seus próprios membros. Ele diz também que em épocas de seca, esses grupos vendiam alguns membros para garantir a sobrevivencia dos outros, e sobretudo nesse período o tráfico crescia, também devido ao baixo valor que esses escravos adquiriam, isso mostra que a aceitação do escravismo era comum e clara nesse período, portanto não nos cabe jugar essas pessoas por apoiarem o tráfico.

meme disse...

Caro professor Alencastro,
Estou procurando a edição mencionada da Vida do Padre Antonio Vieira por João Francisco Lisboa, mas encontro apenas a edição de 1943 ou mais antigas. Poderia me dizer qual a editora que o reeditou recentemente?
Muito obrigada,
Mariana.

Anônimo disse...

Na realidade Pe. Vieira estava muito avante no seu tempo:
"Saibam os pretos, e não duvidem, que a mesma Mãe de Deus é Mãe sua porque num mesmo Espírito fomos batizados todos nós para sermos um mesmo corpo, ou sejamos judeus ou gentios, ou servos ou livres" (Sermão XIV, em Sermões, vol. IX Ed. das Américas 1958, p. 243). Citado em: BETTENCOURT, Dom Estevão Tavares, OSB.” reafirma aqui a igualdade entre os homens.
“Nas outras terras, do que aram os homens e do que fiam e tecem mulheres se fazem os comércios: naquela (na África) o que geram os pais e o que criam a seus peitos as mães, é o que se vende e compra. Oh! trato desumano, em que a mercancia são homens! Oh! mercancia diabólica, em que os interesses se tiram das almas alheias e os ricos são das próprias'' VIEIRA, Antônio, SJ. Sermão XXVII, em Sermões, vol. IX Ed. das Américas 1958, p. 64. Reprova aqui o trafico de escravos.
No mesmo sermão conclui Vieira que a escravidão além de ilícita atrai pragas e desastres para o Brasil.
Por tanto Vieira um homem avante no seu tempo.