domingo, 10 de fevereiro de 2008

Blogs e Fortuno Sorano encarando a morte


Fui entrevistado ainda há pouco na rádio CBN, de São Paulo, pela jornalista Fabíola Cidral, que nos domingos faz comentários sobre blogs. Esqueci de dizer algo que indico aqui. Na New York Review of Books desta semana há um artigo bem interessante de Sarah Boxer sobre alguns livros que comentam blogs.
Não tem nada a ver, mas uso como ilustração uma foto anônima que estava catando há tempos e achei ontem. Trata-se da imagem, datada de 1911, de Fortuno Sorano, companheiro de Emiliano Zapata e Pancho Villa durante a Revolução mexicana, diante do pelotão de execução. Cartier-Bresson achava que esta era a « foto do século ».
Não encontrei nada sobre o personagem ou as circunstâncias em que a foto foi feita. Olhando devagar, dá para presumir o que podia estar rolando.
Fortuno está com a camisa meio enfiada na calça. Pode ter sido preso (quanto tempo?) e empurrado, o joelho direito está meio esbranquecido. Estava atirando de cima de um telhado ou bebendo na mesa de um botequim quando o renderam?
Em todo o caso, ele se arrumou um pouco, enfiou a camisa na calça e aprumou o pé direito numa pedra, esperando o tranco dos tiros. Os dentes trincam o charuto com força para escorar os balaços. Seu chapéu está bem posto. Seus sapatos tem a poeira das ruas. Quem está na frente dele, além dos que vão matá-lo? Fortuno conhecia alguém do pelotão ? Há mais gente um pouco atras ? choravam ou curtiam ? era a cidade dele ou uma terra longe do lugar onde nascera, onde ninguém o conhecia nem se preocupava se ele ia ter um enterro ou ser jogado num buraco onde já havia outros corpos ?
Fortuno espera o impacto e calcula o tempo de dores que terá antes de desvanecer e morrer. A parede atrás, feita de tijolo e estuco não parece ser um « paredón » usado noutros fuzilamentos. Mas o contorno furado dos tijolos (o recorte é muito regular para ser pedra) cria um pano de fundo que dá mais dramaticidade à roupa preta que ele porta com uma elegância armânica. A camisa bem branca faz tom sobre tom com a tinta branca jogada na parede. Fortuno meteu a mão no bolso sem segurar latinamente o saco. Fortuno vive para sempre neste último minuto de vida.
Fica no entanto uma dúvida. E se Fortuno tiver sido um matador ? um destes indivíduos embrutecidos pela violência e as represálias que ensagüentam as guerras civis? De que serviria então ele ter tido pose na hora morte ? Cartier-Bresson, um grande homem, sabia mais coisas sobre Fortuno que o faziam ter tão grande apreço pela foto ?

P.S. – É para isso que serve um blog Fabíola : para escrever umas linhas sobre Fortuno Sorano, que virou pó há muito tempo.

12 comentários:

Anônimo disse...

Caro professor Alencastro,ouvi atentamente sua entrevista na rádio CBN de Blumenau ( o nosso Vale do Itajaí). Parabéns ! O professor em sala de aula é o exemplo negativo do falar bonito. O professor tem de ter objetivos, dar condições ao aluno e ter critérios. Ler os meus livros sobre didática: www.intermedialeditora.com.br ou www.academiadeletrasblumenauense.com

Abraços,
Nelson Valente

Claudia disse...

Caro Luiz Felipe,

Acho que Fortuno definitivamente merece o espaço dado por você no blog. Merece mesmo que ele tenha sido mais 'um destes indivíduos embrutecidos pela violência e as represálias que ensagüentam as guerras civis'.

Fortuno, assim como Lampião, Che e outros tantos, não perdem nem charme nem importância ainda que campeões de desrespeito as leis e morais dominantes numa América constituída por injustiça e crueldade.

Bresson sabia ver sem julgar e por isso não deixava passar ninguém. Um talento para observar que o jornalismo imparcial vez por outra também exibe.

Adoro este tipo de tópico e roubei a foto do Fortuno para mim.

Abraços,

Claudia

Márcia W. disse...

Alencastro,
Seus comentários sobre a foto só fizeram desmentir, mais uma vez, aquele adágio que diz que uma imagem vale por mil palavras. Quer dizer, vale até muito mais, mas as palavras têm que ser ditas, ou não?
E viva os blogs, que como o bom-bril, tem mil e uma utilidades.
abs

Anônimo disse...

Professor:

Também ouvi sua entrevista à CBN no rádio do carro e anotei mentalmente o endereço do blog para conferir. Leio também seus artigos nos principais jornais do País e aprecio muito a maneira elegante, mas criteriosamente crítica com que o senhor enfoca os assuntos escolhidos para discorrer.
Seqüencias Parisienses é bom demais.

Ivan Schmidt, jornalista em Curitiba, PR

Zera Yacob disse...

Caro Professor,
Visto aqui do Cánada, o Senhor continua sendo aquele que conta as estórias dos vencidos e nunca as dos vencedores.
E ficamos a espera de um comentário seu sobre aquele pequenote histérico que apareceu ao lado do Lula lá na Europa do Amapá.

Zera Yacob disse...

P.S Algu�m reparou na cruz feita de tijolos bem atr�s do Fortuno ?

Audrey disse...

Olá professor!
Ouvi sua entrevista hoje no site da CNB e gostei muito de suas palavras! Visitarei o blog mais vezes!!! Parabéns!

Rosa Filomena disse...

Luiz Felipe

Descobri o teu blog outro dia e visito-o sempre com muito prazer.
A foto do Fortuno me fez lembrar umas que vi ( há milhões de anos!) num livro sobre o Che escrito por Ricardo Rojo.Ficava profundamente impressionada com a quantidade de guerrilheiros mortos dos quais não se sabia nem o nome.
Abraços
Rosa Filomena

Anônimo disse...

Boa noite professor!
ouvi a sua entrvista pela CBN no domingo. sou de Brodowski, interior de São Paulo. gostei da entrevista e fiquei bem curiosa para entrar. tenho 17 anos e presto História.
adorei o blog. voltarei sempre

Annelise

Anônimo disse...

Caro professor:
Valeu uma vez mais a visita ao seu blog.
Outras perguntas para Fortuno: copiei a foto num doc/Word/paisagem, ampliei p/ pág. inteira e fiquei brincando com o zoom (até 500%), brilho, contraste...
Alguns detalhes chamaram a atenção:
- na camisa, entre a fivela do cinto e o braço direito: mancha de sangue? d/efeito da cópia ou da revelação?
- volume na calça, entre a fivela e o braço esquerdo: a camisa embolada? Pano pra estancar ferimento? Uma improvável ultima ereção? Nenhuma das Perguntas Acima (NPA), apenas ilusão de ótica imaginativa?
- no pescoço: um colar? Uma corda? Uma cicatriz? d/efeito da cópia ou da revelação?
- na boca: uma fumaça branca que sobe? fumaça/cinzas e sangue que desce em espiral até a altura do coração? É um cigarro? Uma chupeta incandescente? (repare na “coisa” oval preta que esconde parte do lábio: um pedaço de pano ou couro? um ferimento que inchou o lábio? d/efeito da cópia ou da revelação?).
Uma resposta possível para “de que serve então a pose”? Matadores “embrutecidos pela violência” morrem fazendo pose, sim, para honrar a vida de mortes que tiveram, afirmando até o fim esta lógica que tanto nos apavora a carne e o espírito. Nesse ter orgulho de si até o ultimo instante é que eles se assemelham humanos como nós, talvez...
Monica

Anônimo disse...

DOM LUIZ FELIPE, ONDE ANDAS QUE DEMORAS À"POSTAR" ALGO NOVO?
VOLTE!!!!!!!!!!!!
HELENA
ABRAÇOS

aiaiai disse...

Adorei o post mas minha resposta é meio sem graça: acho que ele estava fazendo pose para o fotográfo. Afinal, que ser humano não gosta de fazer uma pose?!