sábado, 2 de fevereiro de 2008

As línguas africanas e a língua do Brasil

Torre de Babel, Pieter Brueghel, o Velho, 1563, Kunsthistorisches Museum, Viena

O texto abaixo é parte de uma palestra que fiz na Unicamp em 2006, no colóquio “Caminhos da Língua Portuguesa: África-Brasil”, cujas atas serão publicadas em breve. Aproveito para indicar o excelente sítio de Fátima Kandenge, agora Katulembe, que inclui textos muito interessantes, um dicionário de quicongo e outro de quimbundo.
"Tenho sempre optado por guardar a forma lusitanizada de muitos nomes e topônimos africanos. Como se sabe, o português era língua franca em boa parte da costa ocidental e oriental africana e língua veicular interétnica no reino Congo, e obviamente em Angola, onde era utilizada em todos os documentos oficiais e comerciais.
Assim, ao contrário da maioria dos historiadores e antropólogos, escrevo Congo e não « Kongo ». O motivo é simples : os soberanos congoleses, na sua correspondência com Roma e com as autoridades portuguesas, holandesas, etc., assinavam-se sempre “rey do Congo”. O argumento segundo o qual “Kongo” caracterizaria o antigo reino congolês, distinto dos dois países que hoje têm o nome Congo, não é pertinente : o antigo reino da Dinamarca também não coïncide com as fronteiras da atual Dinamarca e nem por isso se alterou a grafia do país. Na mesma ordem de idéias, escrevo quicongo e não kicongo, Dongo e não Ndongo, Ambuíla e não Mbwila, ambundo e não Mbumdu, e assim por diante. Deste modo, com referência ao som nasal em quimbundo, representado pelo « M » ou « N » antes das consoantes (mbundu, Ndongo), sigo a forma tradicional que às vezes anexa o genitivo « a » (de, da, dos, das) ao nome (ambundo) e outra vez suprime a nasalização da consoante (Dongo).
O uso de formas alegadamente mais próximas da pronúncia nativa, em geral originárias da fonética inglesa (Kwanza ao invés de Cuanza), oferece no mais das vezes uma ilusão de autenticidade. Por que cargas d’água os angolanos, os brasileiros, os portugueses, os moçambicanos – todos os autores lusófonos – podem achar que escrever rainha Nzinga é mais autêntico, quando a rainha ela própria, alfabetizada em português, assinava seu nome como Jinga ? No que me concerne, deixo de lado a transitoriedade do politicamente correto e, fiel à assinatura da rainha de Matamba, continuo a escrever Jinga.
É bem verdade que, a partir de 1987, passaram a vigorar em Angola os alfabetos criados para seis dos vinte idiomas que possuem estatuto de línguas nacionais no país : quicongo (kikongo), quimbundo (kimbundu), chocué (cokwe), umbundo (mbundu), bunda (mbunda) e cuanhama (ocikwanyama). Elaborados por especialistas angolanos e peritos em linguística da UNESCO, estes alfabetos fixaram, em muitos casos, a ortografia que estou criticando. Porém, as incongruências persistem. Continua-se a escrever rio « Cuanza », mas a moeda nacional passou a ter a ortografia « kwanza ». E no final das contas, não se mudou o nome oficial do país de Angola para Ngola. Como se sabe, Ngola era o nome dos reis do Dongo, senhores da região de Luanda na época da conquista portuguesa. Na seqüência, a área começou a ser chamada de terra do Ngola. Daí o aportuguesamento em “Angola”.
Em geral, conserva-se o nome tradicional do país. « Japão » é um transcrição inexata, feita pelas jesuítas portugueses no século XVI, dos caracteres japoneses indicando o nome do país Nippon koku. Uma lei japonesa determinou, em 1934, que o nome oficial do país era Nippon. No entanto, fala-se de cultura « nipônica », mas o país continua sendo chamado de Japão. Algo similar ocorre agora com a Belarus -, nome oficial do país desde 1990 -, referido no resto do mundo pelo seu nome tradicional: Bielorússia.

8 comentários:

Anônimo disse...

Caro Professor Alencastro,
Como sempre, lê-se com proveito vossos textos. Mas, já que também enveredamos pela questâo ortográfica, no caso da palavra 'japonesa' não me parece haver controvérsia em ser com 's' a grafia correta da mesma.
Atenciosamente,
Alfredo schechtman

luiz felipe de alencastro disse...

Obrigado Alfredo
Jà corrigi a palavra

Anônimo disse...

luiz felipe,tudo bem?

comentário depois,agora é só prá te ler de leve.
bjus

Anônimo disse...

Professor,

até onde sei, Japão vem da ocidentalização de "Zipango", do chinês "Ji Pen Kwo", feita por Marco Polo, que assim a ouviu de Kublai Kan no século XIV.

Milton Ohata

Paulo Eduardo A. C. Cruz disse...

Professor Alencastro,

Sou aluno de pós-graduação da UNESP, em São Paulo, e admirador de seus textos há tempos. Tenho o "Trato dos Viventes" e quando de uma palestra sua na USP (na época de minha graduação) tive o prazer de ouví-lo naquele dia. Lembro de um comentário com o Professor Kabengele Munanga de que "este aí sabe o que fala sobre a África". Te escrevo para saber seu comentário sobre um livro do qual tive informações em uma edição do Le Monde Diplomatique, se chama " L'Afrique des idées reçues" e o organizador é Georges Courade. Não compreendo o francês muito bem, fiz só dois estágios na Aliança Francesa, mas me parece que é o tipo de livro que deve ser traduzido no Brasil, para destruir visões estereotipadas da África. Há um texto em uma coletânea da Boitempo com artigos da New Left Review (Giovanni Arrighi - A crise africana: aspectos regionais e sistêmicos do mundo) que vai no mesmo caminho, o de ressaltar que a África não é este fim do mundo sem solução, pregado por aí.

Um abraço,

Paulo Eduardo Cruz (negresse@terra.com.br)

Maurício Rodrigues disse...

Bom, ouvi você falando na CBN, e achei muito legal você achar tempo para escrever um blog, e o mais importante, com qualidade!

sou estudante, tenho 16 anos, e também sou blogueiro!

Costumo escrever sobre muitos assuntos, entre os quais muitos são bobos, para descontrair...
Mas costumo também escrever sobre situações políticas, com uma visão crítica e satírica! se quiser dá uma olhada no meu blog:

http://sempapasnalingua-blogdomau.blogspot.com

abraço!

Anônimo disse...

Carissimo Prof.Alencastro,
Estarei indo para Paris em Abril acompanhado de meu primo um "brasiliano" quase comparável ao Mindlin. Poderias indicar onde seria possível encontrar livros raros sobre o Brasil em Paris.
Sua página se encontra agora no meu marcador graças a sua excelente entrevista na CBN. Por sinal poderia ter uma versão mensal de sequências via rádio! Nem todos no Brasil se satisfazem com BBB8 ! Meu e.mail é raulbio@hotmail.com

Dourivan Lima disse...

Duro é ver a Folha de S. Paulo escrever Muhammed em vez de Maomé -grafia obrigatória até para os colunistas, segundo me justificou um deles em resposta a um e-mail.

"Não concordo, mas tem gente aí que deve saber mais que eu", escreveu um dos principais articulistas do jornal, cujo nome não revelo por ser uma mensagem pessoal.

Tudo bem escrever "mullah", já que "molá" é uma palavra há muito desparecida do uso diário, mas Maomé é uma palavra comum até em marchinhas de Carnaval.

Já a Al-Qaeda, não entendo como nenhum jornal ou comentarista tenha notado a semelhança com a palavra portuguesa alcaide, considerada um arcaísmo, mas não há tanto tempo assim.

Segundo tanto o Aurélio quanto o Houaiss, a origem é do árabe al-qaid, sendo que o Dicionário Etimógico Nova Fronteira registra também al-qadi.

O significado de alcaide teria variado de "fortaleza" para "antigo governador de CASTELO, província ou comarca, com jurisdição civil e militar".

E o que é "a base", na tradução das agências internacionais para "Al-Qaeda" senão base militar, nesses tempos que a guerra aérea tirou um bocado da força de palavras como "fortaleza" e "castelo"?