quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

A cabeça de Zidane


As retrospectivas de 2006 que programas de TV de fim de ano repetem fastidiosamente, mostram sempre a cabeçada de Zidane em Materazzi na final da Copa, em Berlim. Na época, dois dos jornais que mais contam na França, o jornal esportivo L’Equipe, num editorial, e o Le Monde, num artigo assinado por Aimé Jaquet (o treinador da seleção campeã de 1998), condenaram sem reservas a truculência do jogador.
Mas houve gente que aplaudiu. Muitos consideraram, aqui, no Brasil e noutros lugares, que a cabeçada representava uma afirmação da vontade do jogador contra o marketing e a massificação do futebol, etc.
Há alguns dias, Zidane foi visitar a Argélia, terra de seus ancestrais. Mais exatamente, ele esteve na aldeia onde nasceram seus pais, na
Cabília. A Cabília é uma região montanhosa habitada pelo povo berbere que tem língua e culturas próprias. Conquistados pelos árabes, e depois, pelos franceses, os cabilas sempre se revoltaram para proteger sua identidade cultural. Suas lutas continuam hoje contra o governo argelino, dirigido pelo presidente Buteflika, que insiste na política de arabização da Cabília. Zidane, que sabe muito bem disso tudo, foi recebido durante horas por Buteflika e apareceu com ele em todo canto.
Mais tarde, ainda na Argélia, quando perguntado se era a favor da afirmação da língua de seu povo, o berbere, ele respondeu que não sabia, que era “apenas um jogador de futebol”. Ora, ninguém esperava que ele chegasse por lá atiçando a região com declarações explosivas. Mas ele poderia ter preparado uma resposta menos covarde, declarando-se a favor da diversidade cultural da Argélia, coisa que até Buteflika e outros dirigentes argelinos dizem da boca para fora.
No futebol, onde as regras são igualitárias e há um árbitro neutro, ele partiu para a ignorância. Na Argélia, onde seu povo é oprimido, ele diz que não sabe de nada e recolhe o galho. Durante os tumultos nos subúrbios de Paris, em novembro de 2005, onde muitos jovens de origem argelina estavam envolvidos, ele também ficou quietinho. Ao contrário, por exemplo, de Thuram, nascido na ilha francesa da Guadeloupe (Antilhas), que criticou as autoridades francesas na época.
Ou seja, Zidane tem uma cabeça de frouxo.

Um comentário:

Márcio Santana disse...

Penso que para entender a aparente ambivalência de Zidane é necessário atentar para um valor cultural em particular: o individualismo. Zidane agiu, em todos os episódios mencionados, como um indivíduo que não tem a menor obrigação de agir politicamente por este ou aquele grupo político. É direito de qualquer pessoa comportar-se conforme bem entenda, agindo ou se omitindo desta ou daquela ação. Já realizamos patrulhas demais. A imprensa e a intelectualidade brasileira tem o vício do coletivo, da luta de classes etc. Respeitáveis posturas, porém isso não significa que um indivíduo tenha que, obrigatoriamente, cumprir o roteiro que dele esperam. Ele foi apenas Zidane, um indivíduo.
Não vejo contradição alguma em suas atitudes, apenas uma individualidade complexa e avessa a usar seu status de celebridade a serviço de causas políticas da esquerda, sejam elas justas ou não.
Direito dele...