domingo, 26 de novembro de 2006

Ségolène Royal


Hoje, o Partido Socialista ratificou, numa convenção em Paris, a candidatura de Ségolène Royal à eleição presidencial do mês de abril de 2007. Vou voltar ao assunto ao longo dos próximos meses. Desde já, registro algumas observações.
- Ségolène Royal não é a Hillary Clinton francesa, como disse, por exemplo, uma reportagem do site americano
Salon. Ségolène milita no PS há 30 anos e tem um biografia política bastante distinta da carreira de seu companheiro, François Hollande, deputado e principal dirigente socialista. Ela já foi ministra três vezes (ele não foi nenhuma), é deputada desde 1988 e ocupa agora um dos governos regionais franceses, cargo ao qual Hollande nunca foi eleito. Na corrida à candidatura presidencial, ela deu nele de dez a zero. Hillary, ao contrário, cresceu na política à sombra de Bill Clinton.
- Embora tenha vindo de uma família numerosa, de poucas posses e de uma cidadezinha da Alsácia, Ségolène integrou-se ao establishment parisiense. Diplomada em Sciences Politiques, em Economia e em Direito, ela é – ainda e sobretudo – formada pela ENA (Ecole Nationale d’Administration). Puro produto do sistema meritocrático francês – armado pelos concursos que abrem o acesso às Grandes Ecoles – Ségolène seguiu o percurso universitário da elite que tem governado o país desde o fim da Segunda Guerra. Parte de sua astúcia consiste em se desmarcar do establishment, quando lhe convém.

- Alguns canais de TV parisienses mostraram hoje entrevistas e declarações de Ségolène filmadas nos últimos 20 anos. O balanço destas recapitulações impressiona: trata-se de uma mulher determinada, com convicções firmes (serão convicções socialistas? este é um assunto que abordarei noutra ocasião). Nada a ver com a imagem de despreparada que seus rivais de esquerda e de direita andam espalhando.
- As duas primeiras viagens ao exterior que ela fará, como candidata do PS, serão no Brasil e na África do Sul. Como tudo o que ela vem fazendo é sempre algo muito estudado, o itinerário indica que a amizade com Thabo Mbeki e com Lula traz dividendos para a candidata da esquerda francesa. Indica também que diante da tranqueira em que se entalou a União Européia, a França procura outras alianças no campo internacional.

4 comentários:

Marcus disse...

Li alguns comentários de que Mme. Royal teria um discurso muito vago e com pouca substância. Não são comentários aos quais eu possa dar crédito, mas você poderia dizer algo sobre isso?

Teresa disse...

O estranho é que a imprensa francesa não mostra essa imagem politicamente sólida de Segolene. Estou há pouco tempo na França e a impressão que tenho, baseada na mídia, é que Segolene não é páreo para o preparadíssimo - este, sim - Sarkozy (pois o currículo dele está espalhado pela imprensa). Mas, professor, a política francesa é muito machista, não é não?

Anônimo disse...

Gostaria de juntar dois dados a analise perspicaz do professor. Primeiro, a familia numerosa de segolene e uma familia tradicional francesa, onde muitos fizeram carreira militar. Apesar de serem desse lugar perdido da Alsace, segolene cresceu com a ideia de servir a patria. Segundo, a França esta entalada no 85 lugar na estatisticas sobre a paridade no parlamento. Mais, por enquanto, ela ainda nao provou conhecer coisa alguma sobre politica externa....

carlos alberto balista disse...

caro:

nada como um bom texto para provocar um debate interessante. aliás, a meaneira como o texto foi escrito contribui para tornar a personagem muito interessante. espero que o professor responda a todas as dúvidas, que também são minhas. em um ano que, segundo o tutty vasques, os brasileiros precisam decidir entre daniela cicarelli e karina bachi como personagem feminina, a candidata socialista é um sopro de esperança. nisso tudo, fico meio sem jeito com minha pergunta provinciana. como os franceses pronunciam ségolène royal? "cêgolêne rôial"?

abraço
carlos alberto balista