quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Paredes de Abu Dhabi

Abu Dhabi é o principal emirado (Dubai é o segundo mais importante) da confederação formada pelos Emirados Árabes Unidos (EAU). A região é fascinante.
Os EAU se apresentam como um caso único na História por causa de seus três quatro: têm 4% do petróleo mundial, cerca de 400.000 habitantes nativos e 4 milhões de estrangeiros, segundo algumas estimativas.
A Sorbonne tem agora um campus em Abu Dhabi (o Louvre também terá um museu na cidade, num belo projeto de Jean Nouvel). Como outros colegas, vim dar aula aqui durante duas semanas.
Não há registro histórico de um país que tenha conhecido uma ascensão econômica tão fulgurante num período tão curto. Nos anos 1950, não havia carros, nem hospital, nem escola em todo o emirado de Abu Dhabi. Os beduínos viviam pobremente no deserto, em torno de Al Aïn e outros oásis. Na ilha de Abu Dhabi, que deu o nome ao emirado, sobreviviam descendentes dos pescadores de pérolas que se arruinaram no começo do século XX, quando os japoneses começaram a produzir pérolas cultivadas.
Agora, os Emirados vivem na opulência e formam uma nação onde os estrangeiros – indianos, paquistaneses, cingaleses, nepaleses, iranianos, filipinos -, são dez vezes mais numerosos que os nacionais. Há povos e governos que surtam - mostrando a face mais abjeta do racismo - quando a porcentagem de imigrantes bate nos 10% da população nacional.
Há gente no Brasil que se impressiona com o fato de São Paulo ter contado, nos anos 1930, com um terço da população que falava italiano. Hoje, nos Emirados, existe mais gente falando híndi e urdu do que árabe. A convivência de tantas comunidades numa sociedade em mutação constante impressiona e constitui um importante trunfo político e cultural para Abu Dhabi e os Emirados.
Alguns lados de Abu Dhabi, e de Al Aïn, no interior do deserto, na fronteira com Omã, se parecem com Brasília no começo dos anos 1960. Guindastes e prédios em construção em toda a parte. Mas o andamento das coisas daqui tem outra dimensão. A maior mesquita do mundo, com um belo perfil arquitetônico, está sendo concluída em Abu Dhabi. Em Dubai, se constrói a maior torre do mundo no meio de muitos prédios recém levantados. A impressão que se tem é a de que estão querendo construir outra Manhattan em 10 anos.
Embora mais liberais que outros países árabes, nem Abu Dhabi, nem os Emirados em geral, respondem ainda às regras fundamentais que regem as sociedades democráticas. A questão que se coloca aqui é a mesma que concerne, mutatis mutandis, a reflexão recente de Howard French sobre a China: há um novo paradigma político no século XXI? os países podem crescer rápidamente, constantemente, engendrando sociedades cada vez mais complexas sem plena democracia?

P.S. - Estou migrando meu blog para o UOL. Onde colaboro no UOLNews. A ferramenta é diferente: deu para levar os meus posts, mas não os comentários dos leitores. Durante algum tempo ficarei postando nos dois lugares.

7 comentários:

Francis disse...

Será que o professor gostaria de viver nesse país?

Rocha disse...

Professor, confesso que estava esperando com ansiedade os primeiros relatos da experiência no Oriente Médio.

Se possivel, gostaria de sua opinião sobre a questão da escolha da Sorbonne de se instalar nos Emirados. Sem menosprezar de forma alguma esse Estado, ha que se discutir (pois houve, sim, uma escolha da Sorbonne). Não haveria outros locais onde o grande investimento francês (sobretudo humano) poderia enriquecer mais o intercâmbio cultural entre nações?

Algum comentario sobre a mão de ferro que sufoca muitos desses 4 milhões de estrangeiros que têm seus direitos trabalhistas muito reduzidos, nem mesmo podendo utilizar a greve, proibida pela lei? http://www.lemonde.fr/web/recherche_breve/1,13-0,37-1011025,0.html
Existe mesmo integração?
abraço

lfelipe disse...

Caro Rocha
Não falei de integração, processo mais complicado e impossivel de ser medido em alguns anos. falei de "convivência". quando a proporção de estrangeiros é 10 vezes maior que a de nacionais, é normal que os governos dos emirados queiram preservar a "emiratização" de certas atividades.
Ignoro se a Sorbonne teve propostas
de outros paises. O fato é que outras universidades canadenses e americanas estão indo para Abu Dhabi. Quanto aos direitos trabalhistas, a situação està evoluindo, como indica a noticia publicada no Libération de hoje.
abs
luiz felipe de alencastro

bruno disse...

Quanto ao caso da China, seu post me fez lembrar o início da discussão sobre o bio-diesel aqui no Brasil. Enquanto muito se falava sobre exportações e tecnologia, no melhor estilo "progresso do país", poucos lembravam as condições do cortador de cana, trabalhador que está base dessa tão comemorada cadeia produtiva e, contudo, vítima de muitas das denúncias de desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Recentemente, a Folha de S. Paulo divulgou relatório em que se falava do uso "analgésico" (!) de crack entre esses trabalhadores.

E o que não dizer dos magnatas da soja?

O modelo de acúmulo brutal associado à miséria ou a ameaças sistemáticas à democracia (quando há) parece ser regra entre os que desejam seu lugar ao sol na economia globalizada — Brasil, Rússia, China, Índia e que país mais o deseje.

Anônimo disse...

LUIS FELIPE,TUDO BEM? QUE BOM!!!!!!!!!! GOSTARIA DE SABER QUANDO TROCARÁS O "post"?
abraços

ANÔNIMA HELENA QUEM SABE DE TRÓIA...

|3run0 disse...

Acho que existem muitas coisas a se admirar no Emirados; mas eu ficaria muito deprimido se eles se tornassem algum tipo de novo paradigma para o desenvolvimento futuro. É uma sociedade estratificada de forma completamente rígida. No topo, a família real e agregados, que monopolizam todas as decisões importantes. Em seguidas, os árabes nativos, que em geral vivem de sinecuras governamentais. O próximo nível consiste de expatriados ocidentais, que ganham os tubos trabalhando como administradores, engenheiros, professoresm, etc. Imigrantes do subcontinente indiano, que efetivamente administram o dia-a-dia do lugar, formam o que mais próximo há de uma classe média. Por último, uma massa de filipinos, bangladeshis e imigrantes Omanis trabalha sem nenhum direito trabalhista construindo os arranhaceus, como babás e empregados domésticos.

Estas comunidades são quase totalmente segregadas. Vivem e convivem separadamente, com estilos de vida tão radicalmente diferentes que poderiam mesmo estar em seus paises de origem. E obviamente tais comunidades são tratadas de forma radicalmente diferente pela policia e imigração, e dispõem de niveis bem distintos de acesso a serviços públicos.

São Paulo nos anos 30 pode até ter tido problemas em integrar tantos imigrantes; mas nos Emirados a integração não é nem mesmo uma perspectiva distante.

|3run0 disse...

Relendo o meu comentário, eles se aplicam à Dubai (e, em menor medida, Abu Dhabi), não aos Emirados, que são bastante heterogêneos.