quinta-feira, 7 de junho de 2007

Coisas do Balacobaco

O Profeta Jonas despejado pela baleia, Anônimo, ícone do século XX, Holy Transfiguration Monastery Brookline, MA, EUA
Esta é uma nova seção deste blog. Sob inspiração do profeta Jonas, que viajou três dias e três noites dentro da barriga de uma baleia (um passeio do balacobaco!), e em homenagem ao crítico de arte Rodrigo Naves. Aqui vou comentar coisas sem sentido pra uns, com sentido pra outros, mesmo que não façam sentido em geral.
A primeira delas, origem da idéia de abrir a seção, descobri agora, preparando o material sobre o livro Heart of Darkness (No Coração das Trevas), de Joseph Conrad, que irei comentar no dia 8 de julho na
Festa Literária Internacional - Flip, em Paraty. Em 1889, Conrad, funcionário da companhia belga Société Anonyme pour le Commerce du Haut-Congo se dirige para o Congo, onde ele observará fatos e pessoas que aparecem na trama de Heart of Darkness, publicado dez anos mais tarde (1899-1902). O navio francês no qual ele embarca em Bordeaux, no litoral atlântico da França, para chegar até Matadi (porto fluvial na margem esquerda do rio Congo, hoje situado no Congo Kinshasa, na fronteira com Angola, minha terra), chamava-se Ville de Maceió. Conrad foi para o Congo, de onde tirou Heart of Darkness, embarcado no vapor Maceió! Taí algo do balacobaco.
P.S. Do balacobaco é também a proposta do ministro da Educação da Polônia, Roman Giertych, solene energúmeno, extremista católico, que quer retirar as obras de Conrad, Witold Gombrowicz, Goethe e Kafka do ensino escolar polonês. Tudo isso para aumentar a carolice inculcada nos jovens com escritores como João Paulo II “e outros autores desconhecidos que darão só uma resposta, a resposta correta deles, para todos os dilemas...”. Palavras do energúmeno, segundo o The Times.
Quem estiver trancado no trânsito, num aeroporto ou num barco subindo o rio Madeira com fazendeiros armados para atirar nos natives sem-terra, e tiver Wi-Fi, pode ouvir Heart of Darkness lido pelo ator inglês Toby Stephens, com o autêntico sotaque british que Conrad nunca conseguiu capturar. Se quiser também pode ler o livro inteiro.

7 comentários:

ricardo disse...

Professor, com todo respeito à linda Maceió, mas depois de tantos políticos alagoanos , só me ocorre a frase the horror, the horror ( que aliás rima com um senador que foi prefeito da Ville de Maceió). Isso também é do Balacobaco...

Zeno disse...

Oi, Luiz Felipe, não sei se você conhece mas fica a dica: comprei outro dia um livro chamado Planeta Kurtz, da Mondadori espanhola (2002), lançado por ocasião de uma exposição em Barcelona sobre o centenário da novela do Conrad. São dez ensaios de diferentes autores + uma cronologia da história do Congo, vale a pena espiar.

Idelber disse...

Caro Professor:

O sr. talvez já tenha recebido notícias deste livro, mas se não for redundante, aqui vai a dica: bem relacionado ao seu tema para a Flip é o romance Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, lançado ano passado pela Editora Record e vencedor do Prêmio Casa de las Américas. Trata-se de uma saga histórica (de 950 páginas!) narrada por uma africana do reino do Daomé, que é vendida ao Brasil como escrava ao 7 anos de idade e participa da Revolta dos Malês em 1835, em Salvador. É, com certeza, a primeira saga histórica narrada por uma personagem feminina e negra na literatura brasileira. Eu fiz uma rápida e precária resenha do livro aqui e noticiei o Prêmio Casa de las Américas aqui. A autora estará presente na Flip também. Um grande abraço do seu admirador,

FELLINI disse...

Professor,

Cheguei aqui através do blog do também Professor (e excelente blogueiro) Idelber Avelar, do comentário acima.
Qual não foi minha surpresa ao ver que tu, como eu, nascestes em Itajaí. Aprendi a nadar e aos 7 já pulava sozinho da pedra de Cabeçudas, faz 2 meses que resido em Curitiba e já bate saudade.
Gostei muito dos teus posts, parabéns pelo blog.
Sucesso!

Anônimo disse...

Não sei qual é a graça de Josef Conrad. Talvez eu não goste de romances. Se bem que de Balzac e Vitor Hugo eu goste..

carlos disse...

professor

do balacobaco seria publicar no blog a palestra que fez em paraty. falando nela, conrad viajar em um vapor chamado maceió é a própria definição da sincronicidade junguiana. ainda sobre escritores, coetzee não é superestimado? comarc mc carthy parece melhor.

abraço

Mônica disse...

Sincronicidade é encontrar este blog durante pesquisas sobre as repercussões das ultimas descobertas geneticas a respeito da miscigenação de nossos negros (BBC Brasil/Sergio Pena) e o acalorado debate sobre racismo que se seguiu, já que se as raças não mais existem (para a biologia), elas e o racismo insistem (para muitos antropologos) e então descobrir no balacobaco este texto sobre O Coração das Trevas, que eu comprei semana passada no supermercado (já que onde moro atualmente, na Ville de Maceió, não há Livraria digna deste nome, passei a adquirir coisas como A Tempestade, Antigona, Os Escravos de Castro Alves, nas ediçoes de bolso à beira do caixa, por pura compulsão, e assim, que bom pra mim, estou lendo clássicos - de dominio publico, que não pagam direitos autorais - que não compraria no Rio, de onde vim e pra onde espero voltar). Estou na parte da subida do vapor pelo rio, antes do Sr. Kurtz aparecer em carne e osso. Estou lendo O Coração das Trevas na Ville de MACEIÓ, não o navio, mas a cidade! Caraca! E ainda mor cima (ou por baixo) trabalhando no Incra com a identificação e titulação de territórios para os remanescentes de comunidades dos quilombos (Artigo 68 das Disposições Transitórias da Constituição), atualmente finalizando o processo de Povoado Tabacaria, na Zona Palmarina, uns vinte quilometros distante da Serra Dois Irmãos onde mataram Zumbi... Agora, pense, mestre Luís, numa co-incidencia...
Mônica
PS - Alagoas é o pior IDH do Brasil, mas seus políticos não são piores que os Malufs, Garotinhos e Dirceus da vida: é bom ter um "pele" pra descarregar frustrações e Alagoas cumpre este ingrato papel no Brasil.