segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

O PT, a ética e a política nacional

O discurso de Lula na reunião do Diretório Nacional do PT, em Salvador, na semana passada, surpreendeu muita gente.
O estilo da fala, usando metáforas belicistas (“por que a gente não sabe levantar um pouco a metralhadora para atingir os inimigos e atiramos tanto nos nossos pés?”, "quem são os inimigos na Câmara e no Senado") pareceu despropositado e pouco republicano.
O conteúdo do discurso, em seguida, baseou-se num argumento inaceitável.
Lula acha que a discussão da crise do mensalão e o questionamento de dirigentes corruptos, corruptores e quejandos -, que humilharam os petistas e os eleitores do presidente -, são “pendengas internas” que paralizam o PT.
“Infeliz”, foi assim que a governadora do Pará , Ana Júlia Carepa, da corrente Democracia Socialista, classificou estas passagens do discurso de Lula. O deputado José Eduardo Cardozo, do PT de São Paulo, completou: "trocar idéias não é dar tiros, não é matar, não é aniquilar". Ambos são signatários do documento “Mensagem ao Partido”, organizado por Tarso Genro. Como muitos companheiros, também assinei este manifesto. Como outros tantos, penso que a crise do mensalão pôs em risco o PT e todo o projeto reformista de esquerda duramente construído nos últimos 40 anos.
O texto do documento, como também as outras contribuições ao debate do Diretório Nacional, pode ser lido no
Blog do Noblat.
Faço parte dos que querem -, e disseram
isso a Lula na reunião com os intelectuais em São Paulo, em agosto de 2006 - uma discussão crítica e um repúdio às práticas delituosas da direção do PT.
A este respeito, lembro a declaração definitiva dada ao Estadão por Frei Betto – que não poderá nunca ser acusado de anti-petismo ou anti- lulismo -, no auge da crise do mensalão, em 24.08.2005.
“Nem sob os anos da ditadura a direita conseguiu desmoralizar a esquerda como esse núcleo petista fez em tão pouco tempo. Na ditadura, apesar de todo sofrimento, perseguições, prisões, assassinatos, saímos de cabeça erguida e certos de que tínhamos contribuído para a redemocratização do país. Agora, não. Esses dirigentes desmoralizaram o partido e respingaram lama por toda a esquerda brasileira.”

4 comentários:

Carlinhos Medeiros disse...

Kratiboia, professor.

Filiado ao partido desde a sua fundação, vejo na tendência majoritária um ninho de serpentes venenosas que elameiam a história de luta do PT.

Não vejo outra saída senão uma reforma profunda. Ou se expulsam esses canalhas ou se funda o PTE: Partido dos Trabalhadores Envergonhados.

Na Prática disse...

Caro Professor Alencastro,

Embora concorde com seu post do início ao fim, o Manifesto ao Partido peca por incluir, em meio ao necessário apelo por uma volta à ética, um apelo por políticas específicas, como controle de capitais, que alienam os que têm esperança de um PT limpo e social-democrata.

A idéia de que o paloccismo, política essencialmente bem-sucedida e em grande parte responsável pelo sucesso eleitoral do governo (o que teria sido o aumento real do salário mínimo se a inflação fosse quatro ou cinco pontos percentuais maior?)foi, de algum modo, sócio do mensalão, é absurda: Dirceu no momento lidera os que pedem a cabeça de Meirelles, e o Campo Majoritário tenta comprar a oposição à corrupção fazendo concessões ao populismo econômico.


Enquanto a oposição ética dentro do PT incluir contrabando leninista, o Campo Majoritário continuará vencendo sempre. É hora de abandonar de vez a bagagem da velha esquerda e construir no Brasil uma verdadeira alternativa social-democrata, como a que o senhor certamente apóia na Europa.

Hipopótamo Zeno disse...

Caro Luiz Felipe, completamente fora do assunto do texto, só um recado pra registrar o duplo roubo feito ao seu blog, lá no Hipopótamo Zeno.

Abraços cordiais,
Zeno

João Paulo Rodrigues disse...

Sei que falo para petistas, portanto, fala sem repercussão.
É preciso parar de passar a mão na cabeça do Lula. Ele é um desastre para as instituições democráticas e para a vida partidária brasileira.
A esquerda pelo PT nunca teve um projeto. Sempre ficou com papo furado sobre "projeto de nação", 'aprofundar a democracia", mesclando isso com programas econômicos que sabia nunca seriam implantados e o torpedeio de tudo de correto foi feito por outros governos.
Chega de mistificação. Chega de grupos de discussão, de "repensar o socialismo", de refundar, de conversas com intelectuais bem postados que só dão lustro a um governo desastroso.
Enfim, acho que só depois que a geração 68 passar as coisas podem melhorar... e isso se nossa direita também se modernizar... é, 'tamos mal...