terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Olhar devagar

A foto não é desconhecida nem recente.
De autoria do fotógrafo Luiz Morier, ela foi publicada n' O Jornal do Brasil e ganhou o
Prêmio Esso de Fotojornalismo de 1983. Paulo Henrique Amorim, que era chefe de redação do JB na época e pôs a foto na capa do jornal em 29.09.1982, lembra do "choque" então causado. Numa entrevista à ABI, Luiz Morier descreveu as circunstâncias da cena retratada.
Enquanto escrevia a resenha do livro Elite da Tropa (de Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel), ela me veio à memória. Falei disso a dois amigos e ambos identificaram imediatamente a foto. Talvez, porque ela tenha sido republicada, aqui e ali, na imprensa brasileira. Talvez, e sobretudo, porque é um documento impressionante.
O jornalista e universitário Fernando Conceição explica melhor o assunto num texto publicado em 1999, no jornal baiano
A Tarde
Soube-se posteriormente -, e ficou provado -, no quadro de um documentário apresentado pela rede Cultura/TV Educativa, que nenhum dos homens amarrados era criminoso. Todos eram trabalhadores sem antecedentes penais.
Mas eram negros, moravam numa favela e -, por isso -, foram considerados “marginais”: o PM atou-os uns aos outros.
São, na realidade, sete pessoas detidas. Não dá para ver direito porque a silhueta parruda do PM tapa dois indivíduos amarrados no lado esquerdo, e há um outro puxando a fila.
Com carranca de capitão do mato, o PM segura uma das pontas da corda, como se estivesse esperando mais um pescoço para enlaçar. Não deve ter sido nem a primeira nem a última vez que ele usou este expediente. Seu rosto não tem a sombra de uma dúvida ou de constrangimento pela presença do fotógrafo. Ele acredita no que faz. Seus nós são bem atados em volta dos pescoços.
Os três homens do meio olham para o chão. O quarto procura um vago horizonte que o tire fora da humilhação. Com seu penteado afro – comum na época – ele leva um jeito meio rastafari, meio guerrilheiro africano. As canelas dos dois que estão de calção parecem meio raladas. Será que eles caíram enquanto desciam do morro enfieirados? Será que foram derrubados no momento da prisão?
De dorso nu, um deles olha desconsolado para a camisa que a corda no pescoço não lhe permite vestir, para a camisa que recobriria um pouco de sua vergonha. Quem lha terá dado? Sua filha, sua mulher, quando foi arrancado de sua casa e amarrado ? Ou terá sido alguém que se compadeceu quando ele passou pela rua atrelado como um animal?
O mato da beira do caminho lembra um canavial. O passado mal sarado de três séculos de escravidão invade a foto e atropela o presente.

5 comentários:

angelita disse...

Belo texto sobre a realidade retratada numa triste foto.

Carlinhos Medeiros disse...

Salve, professor.

Ao olhar a foto, muitos podem achar que essa realidade só acontecia no regime militar.
Ledo engano, continua do mesmo jeito ou pior.

milton ohata disse...

"Descendentes de escravos e de senhores de escravos, seremos sempre servos da malignidade destilada e instalada em nós, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida para doer mais, quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto de nossa fúria.
"A mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista. Ela é que incandesce, ainda hoje, em tanta autoridade brasileira predisposta a torturar, seviciar e machucar os pobres que lhes caem às mãos. Ela, porém, provocando crescente indignação nos dará forças, amanhã, para conter os possessos e criar aqui uma sociedade solidária".

Darcy Ribeiro, "O Povo Brasileiro"

Será?

Amigo de montaigne disse...

Caro L.F. Alencastro, o que mais me intriga é a postura do opressor, do "nobre" policial, que está longe de ser caucasiano...

Paloma disse...

Ao olhar a foto, e ainda sem ler o texto, pensei se tratar de um flagrante da polícia, que teria localizado o uso de trabalhadores forçados em alguma fazenda no interior do país. PS: em 1983, eu tinha 9 anos de idade...