quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Clint Eastwood em Iwo Jima

Fui ver « Cartas de Iwo Jima », de Clint Eastwood. Mais adiante assistirei “ A Conquista da Honra”, a outra parte da batalha de Iwo Jima, e retomo o assunto.
Desde já, deixo algumas observações sobre “Cartas de Iwo Jima”. A crítica francesa aprecia o tratamento humanista dos filmes dirigidos por Eastwood e costuma saudá-lo como “o último grande cineasta clássico de Hollywood”. Seus dois filmes sobre Iwo Jima foram interpretados como uma mensagem anti-militarista. Alguns foram mais longe e viram aí uma crítica à guerra no Iraque, coisa que já me parece uma forçação de barra. Porém,
Libération levantou um ponto essencial: nenhum dos dois filmes faz referência ao período anterior da guerra japonesa.
Ora, o Japão começou seu expansionismo militar anexando a Coréia em 1910, e continuou com a ocupação da China. De 1937 a 1945, na chamada “segunda guerra sino-japonesa” os japoneses massacraram 11 milhões de chineses. Bombardeio aéreo de civís, escravização e massacre de prisioneiros, estupros generalizados, experiências “científicas” de contaminação bacteriana de cobaias humanos chineses, ingleses e americanos. Vários chefes militares foram julgados e enforcados por crime de guerra, pelo Tribunal de Tóquio formado pelos Aliados, em 1945 (o equivalente do Tribunal de Nuremberg).
“Cartas de Iwo Jim” retoma a vida de soldados e oficiais antes da guerra. Todos tiveram um percurso pungente e nobre na vida militar ou civil que os leva até Iwo Jima. Um PE é expulso da polícia porque não quer matar o cachorrinho de umas crianças, um oficial era ex-campeão olímpico e amigo de Douglas Fairbanks e Mary Pickford e, enfim, o general gente fina Kuribayashide, interpretado pelo excelente Ken Watanabe, havia sido adido militar nos EUA. Nos flashback deste período americano, ele aparece bem vestido e cheio de pose, como se fosse um diplomata. Contudo, numa pequena
biografia está dito que ele também serviu na Mandchúria e na China, na época em que os militares japoneses praticavam barbaridades inauditas naquelas paragens. Nada disso é sugerido em “Cartas de Iwo Jim”, onde, mesmo os oficiais mais embrutecidos aparecem vestidos com o manto do patriotismo e da tradição nipônica.
Eastwood decidiu apagar a história criminosa e bárbara do militarismo e do fascismo japonês. Desde logo, tudo se resume ao enfrentamento entre soldados corajosos e martirizados pelas misérias da guerra.
Vamos ver como os críticos de cinema do regime de Beijing, que vive desde 1945 com um revólver apontado para o Japão e outro para os EUA (sem contar os coices trocados de tempos em tempos com a Rússia), reagirão diante do humanismo segmentado de Clint Eastwood.

6 comentários:

milton ohata disse...

como neto de japoneses em São Paulo, durante minha infância inteira ouvi histórias do ramo materno de minha família. Eles tinham um pequeno hotel em Santos, que recebia preferencialmente imigrantes japoneses. No Japão, já eram bastante ocidentalizados, a ponto de meu avô freqüentar uma escola protestante em sua terra natal, Okayama, que no século XVI recebeu os primeiros ocidentais - portugueses e jesuítas, como conta o Pe. Luís Fróes em sua "História de Japam". Mas quando a Guerra estoura, eles se vêem obrigados a vir para São Paulo - estrangeiros de nações inimigas não podiam viver em cidades portuárias. Minha falecida avó materna, nascida em 1915 já no Brasil, chamava-se "Linda" e era batizada na Igreja Católica. Apesar de muitos anos de Brasil, quando começam a chegar a São Paulo levas maiores de chineses e coreanos, as comunidades se estranham. E se estranham até hoje, mais de meio século e várias gerações depois da Guerra. São feridas que o bicho-homem produz nele mesmo, agravadas por arraigado militarismo que ameaça agora sair das sombras no Japão...

Carlinhos Medeiros disse...

Saudações, professor.

Se o filme não mostra militares americanos como mocinhos defendendo nações contra barbáries, já é alguma coisa.

Quando lançar no Brasil, assistirei, apesar de ser contra meus princípios.

A. disse...

O filme já foi lançado no Brasil, mas não vinenhum dos lados, o cinema "humanista" de Eastwood não me agrada muito, depois da sua resenha acho que agradará ainda menos.Curiosamente, hoje, na Folha de São Paulo, saiu uma matéria que também falava das omissões históricas nos enredos das escolas de samba, a Beija-Flor em especial. Enfim, ser "politicamente correto" e "realista" não parece um exercício fácil. Abs

Chico Orlandini disse...

Assisti somente ao "A Conquista da honra". Aliás, primeiro não gostei muito do título aqui no Brasil, depois fiquei imaginando se quem o criou procurou ironizar a famosa foto dos norte americanos em Iwo Jima, cuja produção é explorada no filme?
"Humanismo", vá lá... Ok, há uma certa ambiguidade na forma como são retratados os soldados norte americanos no front. Por outro lado, aqueles que são mostrados na volta aos EUA parecem quase uma caricatura.

Paulo Adolfo disse...

SE "Iwo Jima" for tomado apenas a partir do soldado raso Saigo, convocado à guerra um tanto quanto forçadamente, podemos entender melhor a mensagem antimilitarista de Eastwood tanto quanto uma recusa àquela bobagem de se sacrificar pelo imperador e, nesse sentido, tem algo a ver, sim, com crítica à presença militar no Iraque.
Contudo, simultâneo ao olhar do recruta, tem o do oficial que, mesmo aparentando angústia humanista, está comprometido com o status quo militarista japonês que produziu barbaridades imperialistas contra a China.
Desconfio que o Eastwood quis produzir mais um pedido de desculpas ao Japão por causa das bombas atômicas e resolveu mostrar que os soldados japoneses também eram "gente", isto é, pessoas com aflições e desejos iguais aos de todo mundo, embora alguns ali preferissem honrar bestamente ao imperador com seus suicídios.

Giovanni disse...

“Cartas de Iwo Jima”

As quatro armas do rei. São elas: o pincel, a tinta, o vaso e o papel. Com isso escreve-se uma carta. Com isso perpetua-se um pensamento. Com isso nos aproximamos das pessoas. Com isso desenhamos. Com isso tornamo-nos imortais. E dessa maneira Clint Eastwood consegue fazer poesia com a pior invenção humana, a guerra.

São cartas escritas pelo tenente general Tadamichi Kuribayashi e também de seus comandados. Relatam à rotina dos dias passados na ilha. Da sensação de perda iminente. Da estupidez da guerra. E do intenso conflito interno entre a honradez de servir ao exército imperial e deixar de viver em um lugar inóspito em uma luta insana e talvez – e diga-se de passagem – até mesmo inglória.

A cultura oriental tem uma diferente interpretação do tempo. Ele é bem mais flexível. E também da hierarquia, ela é bem mais rígida.O moderno oficial, que serviu na América e carrega um Colt 45 no coldre encontra um desafio paradoxal. Não dispõe de tempo para reorganizar as defesas militares da ilha (trocar as velhas trincheiras na praia, onde as lagartas dos tanques dos americanos irão ultrapassar facilmente por cavernas interligadas) e vê sua chefia questionada, desobedecida e até ultrajada. Difícil.

Na ponta da pirâmide Kuribayashi sofre e tenta prolongar as defesas o máximo possível, para que a ilha principal – o Japão é formado por quatro ilhas; Hokaido, Honshu, Shikoku, Kyushu – não seja atacada. E na base, o jovem padeiro, inepto para as armas, vai flutuando de defesa em defesa e sobrevivendo. O que os toca? O que os aproxima? A humanidade. O diretor capta de maneira brilhante o indivíduo. Seus anseios e temores.

Cenas com sombras é primazia. Quase que o filme é um P&B. Algumas cores se sobrepõem ao universo cinza. Mas não é um cinza unitonal, é uma escala de cinzas. E a lentidão de algumas cenas, a repetição de enviar um mensageiro, de verificar um local é típico da cultura nipônica. O espectador comum ocidental e normalmente medíocre, vai achar que o filme se arrasta, e é cansativo. Erro primário. É propositadamente assim. A pressa e a ação desencadeada pela crueza da guerra, veja a cena das granadas, não é o principal.

O principal nem é o líder e o padeiro. E sim o nobre atleta olímpico, Nishi. Que defende seus comandados até a porta da última caverna, que numa cena tocante apresenta o inimigo como humano e que no final; assume sua posição de comandante inconteste, sacrificando-se em prol da tropa. É o único suicídio lógico. E honrado.

Várias cenas do filme anterior “A Conquista da Honra” são repetidas, algumas pelo mesmo plano e outras exatamente pelo ângulo contrário. Foram filmados simultaneamente. O que demonstra a extrema capacidade diretor. Ele nos conta os dois lados da guerra, vencedor e vencido, mas nos apresenta as pessoas e não o fato em si, que perpassa como pano de fundo. Belíssimo.

O final é exatamente o que já sabemos. Mas ainda assim, pungente. Planos abertos e fechados. Claro e escuro. Yin e Yang. Nem bom nem mal. Real.

O que há de bom: pessoas de outra cultura e tão semelhantes a nós
O que há de ruim: nossa pressa em apreciar um filme que deve ser degustado e não assistido
O que prestar atenção: o período do Japão nessa época é o Showa (iluminado de paz) , que vai de 25/12/26 a 07/01/1989, marcado pelo imperador Hirohito, o mais longevo de toda história japonesa
A cena do filme: a felicidade do encontro entre dois amigos na praia, em que se abstém dos problemas, mesmo sabendo que o destino reservado a eles é o fim

Cotação: filme excelente (@@@@@)

JB Alencastro // COBRA