segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

O debate sobre o Holocausto no Brasil



No Brasil, a Shoah permanece um tema de reflexão em geral restrito à comunidade judaica. O assunto aparece como um drama particular dos judeus, próprio para ser explicado no contexto da cultura dessa minoria. Naturalmente essa percepção dos fatos é equivocada, e reporta-se ao mesmo mal-entendido que interpreta a herança da escravidão (assunto que abordarei noutra altura) como matéria de reflexão específica da "minoria" negra brasileira.
Nos anos de convívio com os universitários, jornalistas e intelectuais brasileiros, sempre me impressionou a falta de sensibilidade, de interesse e de conhecimento sobre a Shoah. Ora, tanto no plano moral, como na sua dimensão intelectual e histórica, a operação de extermínio dos judeus, perpetrada pelo governo nazista eleito pela Alemanha -, o mais avançado da Europa naquela época -, interpela todos os homens. Nós brasileiros, acomodados à "incultura do Mal" -, processo mental de ocultação do sentido da nossa violência passada e presente, processo que constitui uma atitude quase necessária para a enfrentar nosso difícil cotidiano -, não podemos prescindir de uma reflexão sobre a Shoah. Reduzindo-se progressivamente na memória dos sobreviventes, escapando das manipulações do lobby judaico e americano, a Shoah – drama limite da incompreensão entre os homens – incorpora-se plenamente à contemporaneidade, à história de todos nós.

3 comentários:

Anônimo disse...

Primeiro, parabéns pelo blog. De fato, tem toda razão: há uma espécie de indiferença brasileira em relação a Shoah. Vejo isso na universidade, inclusive nas minhas aulas no curso de ciências sociais da UFPB. Não só na graduação, como também na pós. Tenho o hábito de sempre levar livros e comentá-los nos primeiros 10 minutos de aula (geralmente, o intervalo de chegada dos alunos). Pois bem, já levei vários sobre o holocausto e noto pouco interesse, seja por falta de informação, seja por indiferença mesmo. Já me perguntaram inclusive se sou judeu, dada a minha insistência em dizer que o holocausto foi um acontecimento que diz respeito a todos os seres humanos. Não sei bem a explicação para tudo isso; também não sei, confesso, se a melhor explicação seja a nossa acomodação à "incultura do Mal", embora reconheça que possa ser um ponto de partida para a discussão.

abração
Artur Perrusi

Salomé Waldman disse...

Não sou intelectual, nem coisa parecida, mas a vida ensina a ver e ouvir as coisas com mais simplicidade.Brasileiro sempre foi, em geral, partidário da lei de Gerson e danem-se os outros. Agora, com o neoliberalismo e as novas tendencias implementadas por FHC e sua turminha, que rezam que é bonito ter raiva de pobre e que não tem nada de mais externar sem pudor seus preconceitos, raciais, culturais, sociais e todos os ais mais possíveis, é mais fácil ver claramente como se comportam as elites e os que almejam a entrada nas elites. o Holocausto é um problema de judeus e ponto final. Danem-se. Se vcs acham que estou exagerando, experimentem viver 47 anos na minhapele judaica. Abraços.

tecituras disse...

Notícia recente e necessária: Porto Alegre torna obrigatório ensino do Holocausto http://ow.ly/2VzO3
um abraço
Gisèle