segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

O debate sobre o Holocausto



A respeito de Auschwitz segue o texto que publiquei em 2000 no finado sítio No. Outro texto, sobre o Holocausto e o Museu Histórico Judaico de Berlim (foto acima), que apareceu no sítio Nomínimo em 2005, pode ser lido aqui.


"O livro de Norman G. Finkelstein, A indústria do Holocausto (Record, Rio de Janeiro, 2001), merece reflexão.
Filho de judeus sobreviventes de Auschwitz, ele questiona as atividades do lobby judaico americano e israelense que exploraria o drama do Holocausto para obter indenizações destinadas a ressarcir os crimes nazistas. Ele também acusa os promotores das campanhas indenizatórias de obter, pelo mesmo expediente de vitimização dos judeus, um álibi para levar a cabo políticas imperialistas no Oriente Médio em detrimento dos palestinos e dos países árabes. Finkelstein é um especialista da história recente dos judeus e do Oriente Médio. Resta que, o argumento central de seu livro não é original.

Nos EUA, na Europa, em Israel, a questão da indenização é assunto polêmico. Intelectuais judeus criticam a instrumentalização do Holocausto, da 'Shoah' –, palavra hebréia significando 'catástrofe' e usada por Claude Lanzmann para designar a exterminação dos judeus -, e sua banalização no arrazoado de ações indenizatórias nos tribunais. Para eles, esta atitude faz crer que os judeus deixaram fortunas atrás de si, quando a maioria das vítimas era na verdade gente humilde.
Numa perspectiva política, Tom Segev, colunista do "Ha'aretz", principal jornal israelense, escreveu também um livro sem concessões sobre o uso político da Shoah pelas facções partidárias judaicas disputando o poder na Palestina antes da Segunda Guerra e depois da fundação de Israel (The Seventh Million: The Israelis and the Holocaust, Nova York, 1993). Na realidade,o debate sobre a Shoah comporta três interpretações.
A primeira refere-se à continuidade histórica do drama. Dois filmes importantes exprimem posições distintas a este respeito. Em Shoah (1985), documentário de 9h30 do francês Claude Lanzmann, o filme conclui-se com uma cena emblemática: um trem, similar às centenas de vagões que levavam os judeus para os campos de exterminação, entra num tunel escuro. Elaborado em torno de entrevistas com algozes e sobreviventes dos campos nazistas, o filme de Lanzmann resume nesta cena sua interpretação: no contexto dos outros massacres de massa do século XX, a singularidade da Shoah, extermínio planificado de todo um povo, de uma cultura, quebra o elo de solidariedade entre o gênero humano, transformando-se num fenômeno irredutível ao entendimento, remetendo ao incompreensível, à escuridão. Idéia bem diferente da que vem retratada na cena final do filme de Spielberg, A Lista de Schindler, o qual encadeia o horror em preto e branco dos campos de concentração nazistas ao epílogo colorido do reencontro dos judeus salvos diante do túmulo de Schindler, em Israel. Como se o destino dos sobreviventes na sua nova pátria, em Israel, pudesse configurar uma compensação histórica às atrocidades sofridas no Holocausto.
A segunda interpretação sobre a Shoah opõe a comunidade judaica dos EUA aos judeus europeus. Do ponto do vista destes últimos, os judeus americanos -, ao abrigo das perseguições nazistas nos anos 1930-1940, e se comportando passivamente frente ao drama -, tentam agora compensar sua relativa indiferença no passado. A grande produção cinematográfica, tipo A Lista de Schindler, os centros de memória milionários e os processos judiciais espetaculares – a "indústria do Holocausto" criticada por Finkelstein – apresentam-se aos judeus europeus como um comportamento específico dos judeus americanos. De seu lado, os europeus preferem acentuar a amputação que o extermínio nazista criou na civilização européia, destruindo o povo e a cultura judaica, um dos componentes essenciais da história do Ocidente.
Enfim, o antagonismo existente em Israel entre os judeus sefarditas (orientais) e os asquenazes (ocidentais) gera a terceira interpretação da Shoah. Suspeitos de abandonar os deveres religiosos e de dar curso a uma cultura judaica laicizada, impregnada de valores herdados da filosofia iluminista do século XVIII, os asquenazes sofrem uma dupla acusação: além de se terem deixado 'desjudaizar', eles buscariam monopolizar o estatuto de vítimas da Shoah, esquecendo os sefarditas da Grécia e da Iugoslávia, também exterminados pelos nazistas.
Este debate doloroso toma outra dimensão agora, quando desaparece a geração de sobreviventes da Shoah. Ao mesmo tempo, a violência do exército israelense contra os palestinos questiona a política de Israel. Num plano mais geral, delineia-se a interrogação filosófica sobre a relação dos homens com o seu passado recente.
Tal é o tema central da grande obra do filósofo Paul Ricoeur, La Mémoire, l’histoire, l’oubli (Paris, 2000). Mais concretamente, o ministério da Educação francês adotou um manual escolar intitulado, Dites-le à vos enfants, histoire de la Shoah en Europe, 1933-1945, (Paris, 2000), já adotado nas escolas de outros países europeus. Testemunhos e informações do livro abordam não só o holocausto dos judeus, como também o extermínio dos ciganos e dos homossexuais pelos nazistas".

4 comentários:

Anônimo disse...

Panorama bem completo

srcom disse...

A adimiração que tínhamos pela sabedoria e sofrimento do povo judeu, transformou-se em medo. A adimiração que tínhamos pela jovialidade, criatividade, simpatia e glamour do povo americano, transformou-se em medo.

Tudo aquilo que esses dois povo fizeram para destruir a estupidez nazista, eles agora a copiam. Por motivações menores (coisa que parecia impossível).

Transformaram-se, pelo poder das armas, da economia e da mídia, em povos acima da impunidade. Estão invadindo, matando, destruindo, roubando, sem motivos comprováveis. Mentindo com aquela soberba que só os fanáticos conseguem ter.

De fanáticos do poder, tornaram-se terroristas. Os maiores que o mundo já viu. Não só pelas armas mas, principalmente pelo terrorismo econômico (que não mata mas faz morrer milhões de crianças, homens e mulheres inocentes).

Para que? Para baterem no peito e dizerem: Mim (uga! uga!) Mim dono do mundo (uga! uga!).

"O que mais preocupa não é nem o grito dos violentos,
dos corruptos, dos desonestos,
dos sem caráter, dos sem ética.
O que mais preocupa é o silêncio dos bons."
Martin Luther King

srcom disse...

Descobri esse site por acaso (nem eu sei como foi!) e considero-me um sortudo. Parabéns! Não é um comentário, é uma declaração de amor... Já está nos favoritos. Esse cabôclo de Itajaí é bom mesmo. Quando sobrar um tempinho, acesse meu site também: www.zenosr.com

Parabéns e um grande abraço!

luiz felipe de alencastro disse...

Caro Srcom

Você faz duas assimilações com as quais não concordo. Dizer que os judeus “copiam” a “estupidez nazista” é absurdo: nada se compara à barbárie nazista. Assimilar a política de tal ou tal governo de Israel (único país democrático na região) à generalidade do “povo judeu” é um grande disparate. Leia o livro de Tom Segev, historiador e jornalista do "Ha'aretz", principal jornal israelense, que cito no meu post, e você verá como há israelenses criticando a política colonialista de Israel na Palestina.
Abraços