quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Memórias do exílio

Na rue du Petit Musc, perto da Bastille, morou, nos anos 70, meu querido amigo Eduardo Kugelmas, falecido em São Paulo dias atrás. Eduardo vai fazer falta. Era um verdadeiro intelectual. Atento a todas as idéias, generoso e fiel nas suas amizades. Nunca vi Eduardo meter-se em falações desprezíveis ou armar alguma intriga. Bem ao contrário: amigo e partidário de FHC e de Serra, ele angustiou-se nos últimos anos, tentando amainar o ambiente às vezes detestável que se criou entre seus amigos tucanos e seus amigos petistas.
Como muita gente, Eduardo viveu em Santiago do Chile e em Paris para escapar das sinistras perseguições da ditadura no Brasil. Serra e FHC também seguiram este itinerário.
Outro dia, um ex-ministro da ditadura, atacando FHC, chamou-o de « auto-exilado ». Na cabeça deste autoritário, o « verdadeiro exilado » devia ser somente aquele que conseguia escapar aleijado físicamente (como Vera Sílvia) e psicológicamente (como frei Tito), das câmaras de tortura governamentais brasileiras. Os outros, que se sentiram em perigo e puderam deixar o país -, antes de serem presos, torturados ou assassinados -, exilaram-se abusivamente. Eram « auto-exilados ».
É como se o bandido que invadisse armado a sua casa, provocando sua fuga pela janela, arrogasse a si a legitimidade para proclamar que você caiu fora de maneira abusiva. Que você era apenas um « auto-ameaçado ».

4 comentários:

dra disse...

eu estava tendo um curso com o professor Eduardo Kugelmas lá no DCP-USP esse semestre. ele cumpriu todo o programa, e veio a falecer depois da última aula. q senso de responsabilidade acadêmica, não? ;-)
Nós (os alunos) ainda temos q escrever os trabalhos de conclusão de curso, para cumprir os créditos. estou preparando esse trabalho como uma espécie de homenagem a ele.
a idéia é procurar relacionar a noção de permanência da tradição na modernização, do sociólogo Reinhardt Bendix (um dos autores lidos no curso), com o livro q é o objeto do meu doutorado, A Ordem Privada e a Organização Nacional, do jurista e político baiano Nestor Duarte.
ler essa postagem-homenagem ao professor Kugelmas em seu blogue foi uma agradável surpresa.

abs,

ricardo disse...

agora acrítica (vide comentário na placa da rua, Villa -Lobos. Excetuando o banimento, todo exílio é um auto-exílio. Pode ser um ato de coragem, ou de covardia.Joyce se auto-exilou ( talvez da Igreja, talvez da sua própria família ),os Rolling Stones se exilaram ( Exile on Main Street, o melhor disco da banda, foi feito na França, eles fugiam dos impostos e das prisões por drogas). Se pensarmos bem, Afonso Arinos ( o do Pelo Sertão ) também se exilou no próprio interiorzão do país, quando da ditadura da proclamação da república , segundo sua visão pró Império. Agora, cabe às pessoas corretas admitirem que os exilados cubanos em Miami são iguais ao exilados da nossa ditadura .E aí eu não vejo uma postura adequada da nossa esquerda. E , lamento muito, incluo o seu nome.No mais, esperando um melhor debate, saudações.

Anônimo disse...

Convenhamos que relacionar o infarto do Professor Eduardo com o final do curso na USP como um "senso de responsabilidade acadêmica" é, no minimo, grotesco.

Anônimo disse...

Grande homenagem ao Donda, professor. Abraço,

Professor