quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Itamar e o passado que não passa



Há uns dias, o ex-presidente Itamar Franco deu uma entrevista à revista Época. O tema de suas declarações é a acusação de que Lula enfraquece o Legislativo. A idéia tem fundamento e Itamar poderia justificá-la de várias maneiras. Porém, ele envereda num raciocínio tortuoso que ilustra a deferência com a qual boa parte da elite política trata a ditadura.
Cito sua explicação sobre a atitude de Lula frente ao Legislativo.
“Primeiro, o presidente foi um parlamentar obscuro. Como parlamentar, ele qualificou que lá havia 300 e tantos picaretas. Esquecendo que ele também estava lá...Como a pessoa [Lula] não conhece a história democrática do país... Ele não tem a mínima consideração pelo Legislativo. Quando o presidente tenta impedir uma CPI, como foi a CPI da Petrobras, é outra interferência indevida. No regime militar, em 1975, havia uma questão tão importante para o presidente Geisel quanto a Petrobras hoje: era o acordo nuclear (do Brasil com a Alemanha Ocidental). Numa proposta do então senador Paulo Brossard, criou-se uma CPI para examinar o acordo. E a CPI não foi impedida, apesar de ser um regime militar. E era igualzinho hoje: nós éramos 3 senadores da oposição e 8 do governo. E mais ainda: se permitiu que um senador da oposição, coincidentemente eu, presidisse a CPI. Aqui, não. Com um erro que nem os militares fizeram: o presidente e o relator (da CPI da Petrobras) são do governo.”
Hoje, Itamar retomou seus argumentos numa entrevista do
Estadão, que teve repercussão na Folhaonline
Como muita gente, e talvez mesmo, a maioria dos brasileiros, Itamar chama o período mais sinistro e autoritário de nossa história nacional de “regime militar”. Por isso, ele pode partir para este tipo de comparações extravagantes.
Assim, a idéia que a ditadura – responsável pela cassação, encarceramento e exílio de parlamentares, pela tortura e assassinato de ex-parlamentares, pelo fechamento do Congresso e a proibição dos partidos políticos – seria liberal, é propagada por um velho senador da República. Por um ex-presidente que gaba-se de conhecer a “história democrática do país”. É o passado que não passa. Itamar pensa que a ditadura faz parte de uma normalidade institucional alternando períodos democráticos e períodos de pura boçalidade. Itamar pensa que no Brasil a democracia é contingente.
P.S.Para complementar este tópico, leia-se o perfil do senador Marco Maciel publicado na Carta Capital do dia 28/08. A jornalista Cynara Menezes, autora do artigo, menciona que o “monge do Parlamento” (sic) pertenceu à Arena. Mas não diz que ele foi um fiel serviçal da ditadura. Assim, o “monge” presidia a Câmara dos Deputados quando o ditador Geisel decretou o “Pacote de Abril” (13/04/1977), fechando o Congresso e instaurando truculências (como os senadores biônicos) que prolongaram o regime autoritário no Brasil. A jornalista pensa que a maior qualidade moral do senador pernambucano reside na modéstia de seu patrimônio, após 50 anos de vida pública. Para ela, desde que não se roube, está tudo bem.

7 comentários:

Marcio Macedo (Kibe) disse...

Prezado Professor,

Finalmente você voltou a postar, já estava sentindo falta dos seus textos bem sacados por conta desse longo silêncio.

Quanto ao seu comentário sobre as afirmações de Itamar, creio que parte dos brasileiros, de forma consciente ou não, concorda com o pensamento do ex-presidente. Nos anos 1990, quando adolescente, trabalhava numa loja de ferragens numa cidade do interior cujo o proprietário tinha enriquecido justamente no período da ditadura abrindo a loja, comprando casa, carros e apartamento na praia. Ele não dava a mínima para o regime democrático que tinha se instaurado pós 1985, o que importava mesmo eram os lucros vindos do "milagre econômico" e medidas tomadas pelos generais nos anos de chumbo que beneficiaram parte da classe média e que já não existiam mais nos anos 1980/1990. E pensar que quem pagou dessa farra foi a classe trabalhadora que vivia sob a "ditadura" do arrocho salarial.

Muita Paz!

Márcio/Kibe.

Márcia W. disse...

O passado que não passa e confunde: parece que o Itamar não entende bem o sginficado da expressão "ter topete para dizer certas coisas". Ótimo post para marcar a volta na blogosfera (?)

Walter disse...

Poxa, professor, só pq critiquei Lula o senhor vai deixar de publicar meu comentário? Não usei palavras de calão nem ofendi ninguém. Aqui só entra quem concorda com o senhor?

luiz felipe de alencastro disse...

Walter,
seu comentàrio não chegou: mande de novo que ele serà publicado

Claudia disse...

Felipe,

ainda bem que você voltou, detesto quando você some daqui...

Concordo com você, até na crítica ao texto da minha amiga Cynara, que não li. Mas nunca esperei nada de coerente do Itamar Franco, um cretino completo e também serviçal dos milicos. Se ele tem ternura com aquela história é porque fez parte dela e tem o que defender. Ele deve estar querendo ocupar um posto ao lado do Maciel na imprensa.

Esses tipos serviçais são os piores...

Por favor, não suma!

C.

cynara disse...

olá, professor. além de o senhor não ter lido meu texto com atenção (atente para o trecho sobre o "golpe militar ao qual aderiria e durante o qual viria florescer como político profissional"), creio que lhe falta senso de humor para captar ironias... defeito básico de intelectuais, não é?
um abraço.

Anônimo disse...

Que tal um artigo seu explicando porque a tese de itamar está certa?

MAM