domingo, 9 de setembro de 2007

Coisas vistas

Truísmo
Chego em casa em Paris, depois de dois meses no Brasil.
Fiz 18 viagens de avião pelo Br, entre as quais uma de Manaus a Porto Alegre, com escala em Guarulhos, na noite do crash do avião da TAM. Dei nove palestras no RS, SE, SP, RJ e MG. Para mim, foi muito bom e muito interessante. A palestra do ciclo “Mutações” organizado por Adauto Novaes e o Ministério da Cultura está
aqui.
No meio tempo, o casal de colegas com quem eu tinha deixado meu apê em Paris esqueceu uma torneira meio aberta. Teve vazamento na vizinha de baixo, rolo com a proprietário e confusão com o seguro. Encanei de encanador e resolvi outro problema num cano de entrada da água.
Depois fui fazer compras e vi que o Monop aqui do lado e as mercearias vizinhas não vendem mais um produto que, esborrifado na roupa sêca, deixava as camisas quase passadas. Nos EUA tem vários troços deste gênero pra vender. Aqui havia dois. Um desapareceu e agora o outro está sumindo. Complô do capitalismo contra os homens autonomos que não sabem passar roupa a ferro? Aliança espúria entre as lavanderias de quarteirão e os grandes fabricantes?
Cortei o cabelo no barbeiro árabe do marché d’Aligre. Ele tem uma filosofia: o cara que senta na cadeira dele é como quem entra num avião: não pode dar mais palpite e se entrega na mão do piloto.
Leio daqui a entrevista que dei na sexta, antes de viajar, para Gabriel Manzano Filho, do
Estadão. Malgrado a competência de Gabriel, minhas respostas, lidas a 12 mil km de distância, parecem agora pouco incisivas. Dizer que a classe média é heterogênea é quase um truísmo. Eu devia ter insistido mais sobre a mudança sociológica que está ocorrendo nos diversos componentes destas camadas sociais e sobre a desordem do sistema federativo e eleitoral. A respeito da nova composição da classe média brasileira, a imprensa (e até o Economist) e o IBGE já assinalaram o essencial. Falta agora um bom sociólogo trabalhar este assuntão: dará um belo livro.
Trouxe muitas anotações do Br. Com mais calma e o escritório só meu que vou ter agora, escreverei algumas nos próximos posts.

11 comentários:

Alexandre Rocha disse...

Professor,

Primeiramente, bienvenue à Paris, estou certo que o inverno brasileiro foi muito mais quente (em todos os sentidos) que o francês.
Em seguida, a palestra do ciclo "Mutações" não esta acessivel. Não sei se poderia fazer algo a respeito.
Por fim, otima dica de leitura com o link de The Economist. Pelo menos à partir de Paris esta muito dificil de acompanhar os impactos do crescimento e do enriquecimento brasileiro na população. Mas o que ainda sinto é um efeito efêmero de enriquecimento do PIB (com todas as suas consequências de ciclo econômico curto na população) pelo comércio exterior de commodities, sem lastro no aumento sustentavel da base industrial e do setor de serviços, o que poderia continuar alimentando o aumento da classe media.
Mas acho que uma das principais medidas conexas a uma melhor distribuição de renda tem sido priorizada (ao menos nos discursos e nos projetos): a educação, acompanho os projetos da Federal de São Paulo e as oportunidades são inéditas, veremos.
Ainda engatinhamos...
abraço

Obs: acho que no ATAC ainda tem o produto que esta procurando!

Tonico disse...

Até nas peculiaridades do cotidiano vc é supreendente!
Que bom que achei esse blog!!
abracs e tudo de bom!

Sidartha disse...

Professor,
Acho que uma alternativa é borrifar apenas água nas camisas e deixá-las em cabides secando, os vincos mais profundos somem.
abraços.

Sidartha disse...

Professor,
Acho que uma alternativa é borrifar apenas água nas camisas e deixá-las em cabides secando, os vincos mais profundos somem.
abraços.

Danilo Honorio disse...

Professor,

Li sua entrevista ao Estado e fiquei intrigado com sua idéia de que a pobreza tem que se resolver por mecanismos de mercado e não por políticas estatais. Isso quer dizer que minha leitura predileta dos tempos de Unicamp, que foi o Karl Polanyi, já está superada? Na minha opinião o senhor quis se referir à situação dos países desenvolvidos, que realmente tiveram Welfare State...

Tales disse...

Olá, Alencastro! Vc esqueceu de registrar sua entrevista dada a um programa da TV Câmara... Esqueci o nome agora.

Acho que um ótimo assunto (que causou muito rebuliço aqui na imprensa) seria falar do livro "A cabeça do brasileiro" do Alberto Almeida. Chegou a ler? P.S.: Ele chegou até a dar uma entrevista no Roda Viva.

Anônimo disse...

Caro Prof. Alencastro e Colegas Blogueiros,

A grande “tacada” política da grande mídia

Sabe-se que a grande mídia teve uma derrota como nunca antes na historia das eleições no Brasil, fato esse propalado ate por diretor de redação de jornalões, ao falar assustado: “Se acontecer será um fato novo, pois isso nunca aconteceu antes”.
A partidarização tem sido uma constante da grande mídia no Brasil e na América Latinas nos últimos dois anos, para dizer o mínimo, na grande maioria com derrota acachapante, como vem comprovando as analises e estudos sobre o fato que vem sendo divulgado aqui e lá fora.

Esta ficando cada vez mais claro e transparente a guerra entre “Os Donos do Poder” (livro de Raimundo Faoro), por um lado à elite secular que esteve no poder desde a fundação da Republica (Inacabada, como bem disse Fabio Konder Comparato) muito bem representada hoje pela grande mídia e setores políticos do centro-direita, e por outro lado à formação de uma nova elite capitaneado pelo Presidente reeleito, Lula. Algo diz que a guerra dos bastidores do poder esta assumindo ares de manchete da noticia.

Os sinais de que a derrota foi de uma “primeira batalha” e não “derrota de uma guerra” estão pipocando por todos os lados. Esta havendo uma constante manipulação da informação pelos jornalões e pelas TVs que vem desde apos a eleição de Lula em 2002 em uma escalada, a mais recente, com vídeos, é a denuncia no site do Luiz C. Azenha sobre fatos ocorridos em 2004 no governo de Minas: Jornalistas de Minas denunciam pressão do governo Aécio e demissão de quem não "se enquadra". Lembrando o estilo Serra de tratar os jornalistas.
Os casos de demissões de jornalistas vem de longa data, um dos mais comentados foi do jornalista Franklin Martins, da rede globo em 2006 e muito outros apos as eleições.

Ainda não esta claro se existe formalmente um “cartel” da grande mídia, mas esta mais que claro que eles querem virar o jogo e vencer a guerra, apostando numa cartada tipo Serra-Aécio para 2010.
O nível da guerra política poderá comprometer o jogo democrático e a democracia no Brasil.

Gostaria de dizer que a frase acima, “A grande tacada...” e uma referencia aos movimentos de jogatinas financeiros desde o inicio da Republica no Brasil, com Rui Barbosa, ate a implantação da moeda Real nos anos 90’s, com os economistas da era FHC, termo brilhantemente resgatado e citado no livro “Os Cabeças-de-Planilha” - Como o pensamento econômico da era FHC repetiu os equívocos de Rui Barbosa, do jornalista Luis Nassif. Livro este condenado a entrar para o rol de livros a serem lidos sobre a historia do Brasil, tal qual a sua importância.

Sds,
João sebastião Bar

Na Prática a Teoria é Outra disse...

Professor, fiquei curioso em saber qual a sua opinião sobre esse post do Rodrik:

http://rodrik.typepad.com/dani_rodriks_weblog/2007/09/the-long-lastin.html

Monica disse...

como encontrou os incêndios florestais aí na europa neste final de verão 2007, mestre luiz?

Irrelevâncias disse...

De fato, faltam estudos em geral sobre a classe média no Brasil, talvez porque o objeto seja difícil mesmo de estudar, talvez, triste demais. Abs

Alexandre Rocha disse...

Professor,

Imagino que vosso tempo é escasso, mas se puder, dê uma olhada neste artigo do Le Monde:

http://www.lemonde.fr/web/article/0,1-0,36-956565,0.html

"L'Amazonie asphyxiée par le soja"...

Nem sei por onde iniciar as criticas, mas o pior é que nem pude deixa-las registrado publicamente no site, direito so garantido aos assinantes!
Ah la France...
abraço
Alexandre Rocha