terça-feira, 17 de julho de 2007

Paredes de Manaus

Num restaurante à beira do rio Solimões, pouco abaixo de Manaus, os toaletes estão indicados assim, no estilo pós-indígena, neo-caboclo.
Confirma-se aqui na Amazônia algo que eu já tinha notado noutras partes do país: o barulho é a maior praga do Brasil! Morei num prédio de condomínio em São Paulo onde havia uma martelagem contínua para consertar vazamentos de banheiros, canos da área de serviço, assoalhos com cupim, fiação defeituosa, como se o prédio tivesse de ser refeito todos os trimestres. Uma equipe permanente de encanadores, eletricistas, carpinteiros, tirava o seu ganha-pão das carcaças perfuradas dos três prédios do condomínio.

É sabido que os paulistanos buzinam nos túneis, os cariocas estralam os ouvidos de quem anda por Copacabana, os baianos infernizam as praias de Salvador com uma cacafonia depois cobrada por alto preço pelo dono do boteco, o Ver-o-Peso em Belém mistura todas as rádios e todos dos canais de TV na contigüidade escancarada de seus 150 bares e restaurantes.
Mas o barulho mais sinistro de todos, nem assim tão estridente, ouvi hoje, num barco no Solimões: o retinir incessante das motosserras nas margens do rio.

6 comentários:

Marcus disse...

Foi feita uma pesquisa há alguns meses e Belém foi escolhida a capital mais barulhenta do país.

Legislação e fiscalização praticamente inexistem, e o que temos são carros-som e distribuidores de gás berrando suas ofertas durante o dia inteiro, e nas noites dos finais de semana as "aparelhagens" tocam música brega no último volume.

Joaquim Dantas disse...

Luiz Felipe,

Você está totalmente certo. Barulho, barulho por todo lado. Além da direta culpa das pessoas envolvidas na produção do barulho, há, no que diz respeito à insuportável e onipresente música ruim, a culpa decorrente do barateamento da tecnológia sonora. Explico-me quando aparelhos sonoros e televisões eram caros, caríssimos (custavam o preço de um bom carro usado), também era raro, raríssimo o boteco que os tinha (televisão - era a da casa do dono do boteco - só aparecia na época da Copa do Mundo). Nos botecos - de que eu pessoalmente gosto, em todo lugar do mundo - somente se ouvia o burburinho das vozes humanas, tagarelando, algo sempre agradável de ouvir como ruído de fundo ou entrouvir quando sozinho e bisbilhotando. Hoje no Brasil, mercê do barateamento da tecnologia ruidosa, não há mais botecos assim "silenciosos". Eu, com imensas saudades, tenho vontade de escrever um poema, algo como "requiém para os botecos do silêncio meramente palavroso de antigamente". Conte com minha solidariedade no horror e na aversão ao barulho pátrio. Abraços,
Joaquim

amigo de montaigne disse...

Caro Professor, posso ter entendido errado, mas a alusão ao barulho "sinistro" das motos-serras diz respeito à devastação da floresta a beira do rio Solimões, não é? Acho que preferiríamos o buzinar ensandecido dos paulistanos caso a mata fosse poupada da desenfreada e criminosa destruição...

amigodemontaigne@blogspot.com disse...
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Tales disse...

Luiz, seria melhor que você eventualmente respondesse aos nossos comentários. Acho que daria mais vida ao seu blog. Fique claro que isso é apenas uma sugestão.

luiz felipe de alencastro disse...

Você tem razão Tales. Mas às vezes estou na correria (cheguei em Porto Alegre, para o Congresso na Associação Nacional dos Professores Universitàrios de Historia (ANPUH), às vezes estou sem internet de Banda Larga, como na Amazônia, de onde vim ontem)
obrigado pela sugestão