sexta-feira, 4 de maio de 2007

Salvador e Jamestown: como somos velhos!

João Teixeira Albernaz, Bahia, 1631

Noticia-se a viagem da rainha Elizabeth aos EUA na comemoração do 4° centenário da fundação de Jamestown (Virgínia), primeiro estabelecimento permanente dos ingleses nas Américas. O Herald Tribune retoma um interessante editorial do Boston Globe sobre o assunto.
Doze anos depois dos colonos ingleses, desembarcou em
Jamestown, em 1619, o primeiro grupo de escravos africanos dos futuros EUA. Eram angolanos, inicialmente transportados no navio negreiro português São João Baptista, que se dirigia para o porto de Vera Cruz, no México. No alto mar, o negreiro foi capturado por corsários ingleses. Daí os angolanos foram levados para a Virgínia, onde ajudaram a deslanchar a cultura do tabaco e o crescimento da colônia inglesa.
Nesta época, os portugueses tinham comercializado a quase-totalidade dos cerca de 150 mil africanos deportados para as Américas. No Brasil, haviam desembarcado, no mínimo, 40% deste total, ou seja, 60 mil africanos. Acrescente-se uns 30 mil colonos portugueses e se verá como o Brasil -, sob o impacto de uma colonização luso-africana relativamente densa -, já era velho no nascimento da Virgínia e dos futuros EUA.

Aproveito para lembrar algo fundamental: antes da declaração de Independência dos EUA (1776) ninguém sabia que as colônias européias nas Américas podiam, e iriam, tornar-se nações independentes. Portanto, é disparatado transpor a idéia do Brasil de José Bonifácio ou dos EUA de Benjamin Franklin para Jamestown ou para a Bahia dos séculos XVI e XVII. Como se os colonos destes cantos já soubessem o seu vir a ser, já tivessem a consciência de que seriam independentes, já vivessem numa proto-nação. Muitos, mas muitos mesmo, professores de história dos EUA, do Brasil e do restante dos países americanos (referindo-se aos colonos de seus países) propagam este besteirol nacionalisteiro fabricado no século XIX.

2 comentários:

José da Silva disse...

Penso que Caio Prado Júnior caiu na armadilha do anacronismo quando fala do sentido da colonização brasileira, ou seja, de que seria alimentar o comércio europeu. Era como se o Brasil independente, do século XIX em diante, já estivesse "programado" para a dependência desde o berço. O problema é condenação moral do passado que está contida na afirmação.

sandro ornellas disse...

A história da literatura no Brasil colonial é rica nesses anacronismos nacionalistas. O "caso" Gregório de Matos é exemplar. Parabéns pelo Blog.