sexta-feira, 9 de março de 2007

Yes, we have sugarcane!!! 2

Estive no Rio e em São Paulo nas duas últimas semanas. Um jornal pediu-me a entrevista abaixo que acabou não sendo publicada.
Retomei o assunto, na quinta, no UOL News (Chávez é o principal motivo da visita de Bush ao Brasil; reunião sobre álcool é "pretexto"). Hoje, sexta, saiu na Folha uma entrevista de Joseph Stiglitz que vai nesta mesma direção (Preocupação política, e não álcool, traz Bush ao país, afirma Stiglitz).
Eis o texto de minha entrevista:
- Qual o interesse do Brasil nessa visita de Bush ao país? Qual o interesse dos EUA na visita?
A visita de Bush ao Uruguai e à Colombia tem a ver com os acordos bilaterais entre os EUA e os dois países, que devem ser aprovados pelo Congresso antes de 1° de julho, quando acaba o privilégio presidencial do fast-track (aprovação rápida dos tratados comerciais). A ida ao México é a primeira visita oficial de Bush a seu vizinho depois da eleição do presidente Felipe Calderon. O arrocho das medidas anti-imigratórias americanas atinge diretamente o México, e os dois chefes de Estado tem muito o que discutir. A visita ao Brasil, anunciada de supetão e sem entendimento prévio com o Itamaraty (a ponto de atropelar a visita do presidente da Alemanha), é alegamente motivada pelo interesse dos dois países no etanol e nos biocarburantes. Mas é óbvio que Bush busca prestigiar Lula para travar a crescente influência de Chavez na região.
- É possível antever uma aproximação maior entre os dois países nesse segundo mandato de Lula? Quais os ganhos políticos para Bush que podem estar em jogo nessa visita? Lula ajuda seu colega americano a ter um discurso "ecofriendly" ao aceitar essa visita/agenda do etanol?
Com o desgaste da guerra no Iraque e a maioria democrata no Congresso, a margem de manobra de Bush se reduziu muito. Já está claro que o fast track não será renovado pelo Congresso em julho. Bush também deve abandonar sua política em favor grandes companhias de petróleo, criticada pelos democratas, e já admite que o aquecimento planetário é um problema grave. A diplomacia do etanol cai como uma luva para lhe proporcionar uma agenda internacional positiva. É claro que isso também favorece a diplomacia brasileira. Neste contexto, as recentes críticas dos embaixadores tucanos ao “anti-americanismo” do Itamaraty estão sendo cruelmente desmentidas pelos fatos.
- O país pode ganhar algo economicamente com essa história? É possível fazer barganhas em outros campos das negociações comerciais internacionais?
Claro que sim! A recente chiadeira de Chirac, que criticou Peter Mandelson, o negociador da União Européia na OMC, dizendo que ele não defendia os agricultores europeus, e do ministro da Agricultura francês, classificando o agro-negócio brasileiro de “predador”, explica-se pela perspectiva de uma aliança entre o Brasil e os EUA contra o protecionismo agrícola europeu e, sobretudo, francês, na Rodada de Doha.
- Como fica a relação do Brasil com Venezuela e Bolívia, no caso de uma maior aproximação com os EUA? É possível a Lula se equilibrar entre uns e outros sem mudanças maiores nas relações com Chávez e com Morales?
Acho que o Brasil deve prestar mais atenção em Morales do que em Chavez, o qual, afinal de contas, atiça a onça de longe e nunca interrompeu o fornecimento de petróleo aos EUA. Morales governa um país dividido entre oposicionistas cruceños, das zonas da rica província de Santa Cruz, e os governistas das zonas pobres dos altiplanos do oeste. Em dezembro, Morales atacou o “separatismo” dos cruceños. Os governistas acusaram o Chile de favorecer os “separatistas” e Chavez ameaçou intervir para defender Morales. Se a situação não se acalmar, teremos na nossa fronteira uma crise internacional para ninguém botar defeito.
- É correta a leitura de que há um acirramento das tensões na América do Sul, expressa principalmente nas relações entre Colômbia (e EUA) e Venezuela? Em caso positivo, o que cabe ao Brasil fazer?
A Colômbia vai assinar um acôrdo bilateral de comércio com os EUA, mas tem procurado tranquilizar Chavez e o novo chanceler colombiano, Fernando Araujo, deu declarações conciliatórias com relação à Venezuela. De todo modo, o Brasil tem fronteiras comuns com os dois países e, neste caso, como também no contencioso entre o Uruguai e a Argentina, não pode nem deve assumir posições de arbitragem. Isso é coisa para ser resolvida pelo Grupo do Rio, a OEA e outras instâncias internacionais.

2 comentários:

Eduardo Silva disse...

Prezado Alencastro,

É um erro pensar o Brasil como mais um país "latino".

Nada mais se faz do que repetir o mesmo equívoco, estereótipos e preconceitos da mídia dos países ditos desenvolvidos -- notadamente da mídia de língua inglesa.

Historicamente, linguisticamente, social e culturalmente o Brasil tem pouco a ver com os países hispânicos, mesmo os mais próximos geograficamente.

Não vale argumentar, para tentar validar uma suposta semelhança, que todos "têm" problemas parecidos como pobreza, violência urbana, analfabetismo e corrupção. Estes problemas são inerentes a todos os países pobres do mundo, de forma mais ou menos idêntica, seja na África, Ásia, Leste Europeu, etc. Não é exclusividade de única "região"

No Brasil tudo é diverso em relação aos hispânicos: a mistura racial (alguns países hispânicos se "orgulham" de não ter negros, como Argentina e México), o comportamento, os gostos, a música, o cinema, a TV, o folclore, o vestir, a culinária, mesmo as idiossincrasias... Até mesmo fisionomicamente o brasileiro é diferente dos hispânicos (dá para distinguir um brasileiro só pela aparência ou jeito). O ambiente social, o dia-a-dia político e a escala da economia são completamente outros daqueles países rotineiramente "assemelhados" ao Brasil na mídia internacional.

Na hora de analisar a realidade político-econômica nacional a imprensa brasileira é mais precisa e não cai fácil na armadilha dos estereótipos. Mas na hora de falar sobre a realidade da "vizinhança", se embanana -- parece que baixa um complexo de colonizado e repete os mesmos vícios e a miopia da mídia americana. Tratam os países como se fossem uma coisa só, buscando aqui e ali algum elemento que force um paralelo que satisfaça o caráter latino-similar entre os países hispânicos e o Brasil.

O colonizado passa a ver a si mesmo com os olhos do colonizador.

O conceito de "América Latina" é preconceituoso porque fruto do desprezo dos países desenvolvidos pelo subdesenvolvidos e que se baseia em um falso critério "étnico": "América Latina" foi um termo cunhado apenas para separar os brancos EUA e Canadá do "resto" mais moreno. É uma ultrasimplicação resultante da ignorância de americanos e outros, que ainda pensam o Brasil como uma país "caliente" onde se fala espanhol e dança-se salsa, uma espécie de mistura maluca entre o que eles conhecem do México, Colômbia e Caribe.

O Brasil nem mesmo é um país "latino", visto que esse rótulo hoje, e cada vez mais, se confunde com hispânico -- é patente que o brasileiro nunca se sentiu "latino" e até se refere aos hispânicos como "os latinos", espontaneamente excluindo-se.

O Brasil sozinho já é uma região à parte: a América Lusófona --- se se quer fazer uma classificação --, formada de vários Brasis menores (como Nordeste, Norte, Rio, Minas, São Paulo, Centro-Oeste e Sul), que muito devido ao perfil cordial herdado da colonização e língua portuguesas desde o início convergiram para ser um mesmo país. Exatamente o inverso dos países hispânicos, que embora devessem ser menos fragmentados, visto que falam a mesma língua, nunca conseguiram se unir devido ao sua índole, digamos, mais belicosa.

Tratam o Brasil (e os países hispânicos) da mesma forma preconceituosa e reducionista que tratam a África. A mídia se refere aos países da África sempre em termo coletivo, como se fosse um continente-país homogêneo -- o que valesse para um país valeria para os demais. No entanto os contrastes nacionais na África são gritantes, basta lembrar nas diferenças da chamada África árabe e África negra. Mas mesmo essa divisão entre África árabe e negra é estereotipada e equivocada. Há países da África negra que são muçulmanos, por exemplo. Também não é porque um país é "negro" que ele é igual a outro racialmente parecido. Angola, por exemplo, fala português e pouco tem a ver com o Quênia, que além da língua nativa usa inglês.

O Brasil não é um país regional como querem a mídia americana e como mansamente aceita a mídia nacional. Um país que é do tamanho de um continente, uma das dez maiores populações do mundo, com cultura e língua únicas nas Américas, e cuja economia comercializa cada vez mais com todos os cantos do planeta, é um ator de peso individual. O máximo que se pode dizer é que somos geograficamente sul-americanos pois obviamente o Brasil é parte física da América do Sul, mas não parte desse embuste político-cultural chamado "América Latina", um reducionismo fruto da ignorância e soberba dos ditos desenvolvidos que não enxergam, ou não querem ver, as enormes diferenças e disparidades de dezenas de países muito peculiares, notadamente o Brasil -- mas não apenas nós já que mesmo entre os hispânicos há distinções enormes, como um México e uma Argentina, por exemplo.

Circunscrever o país dentro desse cercadinho "latino-americano" é abafar e apequenar o Brasil. Aliás apequenar o Brasil é uma coisa que Lula e o PT -- estes sim, "latinos" travestidos, já que sempre tiveram Cuba como Meca -- são mestres, a ponto de tentarem "formatar" o país à maneira dos seus amiguinhos esquerdistas hispânicos, quando o que se deve fazer é exatamente o inverso. Por causa do PT e sua administração ideológica o Brasil hoje tem o seu destino apontado para repúblicas bananeiras, como a Bolívia, Venezuela e a populista-peronista Argentina. E assim vamos ficando irremediavelmente para trás.

Atenciosamente,

Luiz Felipe Napole disse...

Estou há horas lendo seus textos e tive uma grata surpresa ao perceber que ainda existem humanistas neste mundo. Também li os comentários dos também apreciadores do blog e resolvi dar uma parada neste assunto que muito me interessa.

Acredito que não seja optativa a posição geográfica do território nacional ou o colonizador desta terra nesta altura do campeonato, muito menos correta a mudança do idioma oficial brasileiro. Sim! Somos latinos de carteirinha! E "levanto as mãos para o céu" agradecendo aos meus familiares, imigrantes da Itália e da Espanha, por não terem escolhido um país colonizado pelos anglo-saxões, visto que as políticas de apartheid prevalecem até hoje.

O Brasil é parte integrante da América Latina e tem obrigação, justamente pela posição econômica atual, de incorporar a latinidade e fazer valer a união dos povos latino-americanos. Não é uma questão a se resolver em número de área territorial ou densidade demográfica.

Somos potências adormecidas há mais de 500 anos e temos que despertar com calma pra não haver tropeços ou exageros típicos da ansiedade dos tempos modernos, onde simples crianças podem desestabilizar o atual modelo econômico.

Tive a grata oportunidade de trabalhar durante 2 anos em Moçambique e conhecer boa parte do continente africano. Nestas andanças é inevitável não esbarrar em europeus e norte-americanos. E desconheço a existência de pessoas que não saibam o valor individual do Brasil dentro do contexto econômico mundial. Também não ouvi nada a respeito em relação a visão de unificação dos países africanos, vulgo "farinhas do mesmo saco" por parte dos estrangeiros. Inclusive é tudo "muito bem" demarcado com "cerquinhas" imaginárias, principalmente porque a colonização da África foi bem diferente da Ámerica. Penso que não devemos espalhar conversas de padaria.

EDUARDO: Sabia que o sobrenome "Silva" vem do latim e só existe em países integrantes da américa latina?

Abraço e continue dedicando parte do seu precioso tempo com este trabalho super bacana!